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Crônicas Aforísticas

4ª Crônica

“Por que tanto pranto escorre-te face abaixo, como que procurando um amigo, para acalentar o teu coração, que alquebrado, hesita ante tão implacável destino?” Foi assim, com esta interrogação, que comecei uma redação – de título idêntico – sobre a estação Primavera, solicitada pelo professor de língua portuguesa, há exatos 36 anos, quando cursava o primeiro ano do 2º grau. Naquele tempo, a guerra do Vietnã deixava o mundo em estado de tensão e a guerra fria mexia com os nervos dos principais Chefes de Estado. Por aqui, estávamos sob regime militar, amargando uma ditadura de dois anos e sete meses, e não fazíamos ideia que levaria mais de uma década para o autoritarismo terminar.

Na manhã do dia 30 de outubro de 1966, prestes a completar 16 anos, tomara o café da manhã na companhia da minha avó materna, e também madrinha, e me recordo que logo após fui sentar-me num banco de cimento que ficava no jardim da frente da nossa casa no Rio de Janeiro. O relógio da sala marcava seis horas e trinta minutos. Tinha chovido na véspera, como acontece em boa parte dos dias primaveris. Os raios de sol, que cortavam a forte cerração, faziam brilhar as gotas de orvalho que escorriam pelas pétalas das rosas, cujas roseiras foram plantadas pela minha mãe que as cultivava como se entes da família fossem. Os crisântemos abrigavam uma espécie bem particular de aracnídeo com sua teia bem tecida, e as borboletas multicores ainda não tinham aparecido. A brisa ajudava a temperar o clima.

Este perfeito cenário serviu como fonte inspiradora e me coloquei a escrever aquela composição literária. Elegi uma rosa amarela como minha “Menina Flor”, da cor do ouro, da mesma cor do sol, da cor da vida, da mesma cor da liberdade. Não foi difícil harmonizar a beleza exuberante da natureza – porque ela também sofre – com o padecimento das pessoas. Cada gotícula de orvalho simbolizava uma lágrima derramada, um soluço, um lamento. Discorri o tema com propriedade, sobretudo a respeito das mazelas que atormentavam o mundo naquele momento da história dos homens. Terminei a redação fazendo alusão aos nossos problemas, conotativamente, até porque já tinha certa opinião formada acerca dos ditames de censura impostos pela farda, e, no final, a minha “Menina Flor”, a minha rosa amarela, sucumbe esmagada pela bota de um combatente.

Gosto muito de desenhar, por isso, caprichei na apresentação da matéria. A capa retratava uma grade de prisão, em primeiro plano, que me deu muito trabalho para fazer os recortes dos espaços entre as barras de ferro utilizando uma lâmina de barbear Gillette. Na folha a seguir pintei com lápis de cera a minha menina rosa amarela – tal qual se apresentava naquele jardim –, respeitando fidedignamente cada pormenor. O professor José Carlos estabeleceu a nota individual, mas, não me entregou de volta o trabalho, que ficou gravado na minha memória até hoje. Alguns excertos foram apagados pela ação do tempo – inexoravelmente.

Hoje, 30 de outubro de 2002, completamente dominado por um clima saudosista, tentei escrever algumas linhas que me fizessem reviver aquela época mágica. O papel permaneceu vazio, totalmente em branco. Percebi, somente depois de alguns minutos de introspecção, que tudo à minha volta mudara, que nada, absolutamente nada, era igual ou parecido com o passado, nem a casa era a mesma, ainda que no mesmo endereço. O jardim cedera lugar a uma calçada de concreto; o banco de cimento fora arrancado aos pedaços. Só o perfume das flores de outrora, inexplicavelmente, inebriava a atmosfera.

Tenho medo, também, de me ter transformado num homem diferente, invulgar – mais uma vítima do tempo e das circunstâncias. A mudança, embora lenta, aconteceu de fato e foi profunda. Assim como os ponteiros do relógio, nessas quase quatro décadas de experiências vividas, dei milhões de voltas, porém, retornava sempre ao local de partida, mas, as batidas do coração não eram as mesmas – então, compreendi que as únicas coisas que não mudam são as lembranças. Estou me tornando aos poucos um ser amargo, acre, doloroso e descrente. Às vezes, não sei quem sou e não me importo com isso. Sinto imenso pavor só de pensar na possibilidade de perder a minha identidade. De tanto ver, ouvir e falar de violência o tempo todo, de conviver com o errado e de testemunhar o desrespeito generalizado, comprovo que a insensibilidade aos poucos se apodera dos meus sentimentos. O mundo mudou pra pior. A intolerância e as injustiças prosperam. O sentido da paz inexiste. Todos precisamos de ajuda. Quero acordar desse pesadelo.

A solitária hortênsia do meu quintal floriu e eu não notei. Os sabiás e os bem-te-vis, que nas manhãs vinham comer das jabuticabas que sobraram da última safra, sentiram a minha ausência e desapareceram. Não quero que os bem-te-vis e os sabiás me abandonem. Já chega a dor de ter perdido, para sempre, a minha “Menina Flor”, a minha rosa amarela.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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