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Crônicas Aforísticas

3ª Crônica

Adoro descascar este tubérculo comestível – coisa que habitualmente faço desde a tenra idade. Quem me iniciou nesta atividade foi a minha avó materna. Era também seu afilhado. Aprendi com ela que, quando descascamos batatas, nunca nos lembramos daqueles que as plantaram ou colheram, porque temos uma tendência a desvalorizar o trabalho dos outros, por isso, julgamos que o nosso esforço tem sempre mais valor ou importância, ainda que momentaneamente.

Dona Thomázia de Jesus Ferreira demonstrava um especial carinho por mim, talvez pelo fato de me ter abençoado na pia batismal; o que deixava os outros sete netos com inveja, exceto o Jaime Gonçalves, primogênito da sua filha mais nova, e que também fora batizado pela minha madrinha dois anos antes do meu. Na ordem de sucessão, sou segundo filho da sua filha mais velha.

Vovó Thomázia foi quem me proporcionou a primeira experiência, real, no combate ao desperdício. Já naquele tempo, segundo ela, as pessoas não se incomodavam com o esbanjamento das suas disponibilidades, mesmo que mais tarde lhes faltassem tais recursos. Ralhava comigo toda vez que cortava grossas as cascas das batatas. As cascas tinham que ser bem finas, quase que transparentes – encostadas aos olhos podia-se ver nitidamente o outro lado. Afirmava que aquele procedimento não denotava miséria, de forma alguma, a despeito da vovó Thomázia contrariar a média do comportamento das suas conterrâneas portuguesas, que deixavam quarenta por cento das batatas presos às cascas, em pedaços, e tinham destino certo: o lixo; quando não eram reaproveitados como adubo na horta do fundo do quintal – todas as casas do meu bairro tinham um pequeno terreno nos fundos; exigência das famílias portuguesas, que também nos ensinaram a arte da agricultura.

Madrinha era simplesmente diferente das outras pessoas que conhecia, e o indispensável ritual para se descascar batatas, seguido à risca deveria ser, por sua exigência. Qualquer um que se aventurasse a fazê-lo, sem antes ter passado por um longo e obrigatório período de aprendizado, inevitavelmente, cortava os dedos. Ela sempre disposta estava a ensinar.

Levei quase cinco décadas para entender o que ela queria me passar com tudo aquilo. Não era só a arte de descascar batatas, pelo simples conhecimento de um conjunto de regras para bem fazer uma coisa com habilidade ou perícia. Não, não era. Quarenta e oito anos mais tarde compreendi que havia uma mensagem implícita, extraordinariamente subentendida, tácita, desde o primeiro contato do gume com a batata. Na realidade, a verdadeira arte se traduzia na faculdade da pessoa ficar consigo mesma – o eu absoluto – sem restrições; ilimitada. Posto isso, a possibilidade da autocrítica e do julgamento das ações, no tribunal da consciência, nascem do silêncio e da concentração decorrentes. Isso nos faz refletir sobre a vida; meditar acerca do que fomos; do que fizemos; ou deixamos de realizar; enfim, isso nos leva a projetar o amanhã, sem testemunhas – e nos sentimos presos a alguma lembrança; de certa forma.

Descascando batatas, sob a minha parreira, decidi encarar realmente o desafio iminente. Ato instantâneo, minha mente conseguiu reproduzir algumas imagens do passado. Naquele mesmo quintal, há quase cinquenta anos, lá estava minha avó Thomázia, prognosticando o meu futuro. Só o seu olhar falava.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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