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Crônicas Aforísticas

2ª Crônica

2ª Crônica

Um dia acordei

Um dia acordei e descobri que ainda era jornalista. Mesmo não sendo uma pessoa que dirigiu ou redigiu jornal, ou para ele escreveu colaborações sem maiores compromissos, sinto que é chegada a hora de abraçar o jornalismo como profissão de jornalista, depois de duas décadas de hesitações. Esta resolução me parecia terminante. Todavia, já no crepúsculo da vida – não que a luz do meu espírito esteja fraca como a luz vista depois do pôr do sol, ou antes do alvorecer –, imagino que assumir a condição de jornalista seria o mesmo que ter engessado o dom da criatividade irrestrita. Daí, prefiro a atividade de escritor. Hoje é tempo pra se ter tempo. Confesso que o meu tempo de “pau-para-toda-obra” expirou – deixei de trabalhar para os outros. Algo me diz que a decisão acertada foi.

O escritor, com tempo, produz escritos literários, científicos e didáticos segundo sua manifestação intelectual e o que é mais gratificante, revela cem por cento do seu perfil eclético enquanto autor dos mesmos. Por outro lado, o exercício da vocação de escritor, neste país onde a língua pátria perece diante da mediocridade cultural imposta, só para quem tem tendência artística ou realmente profissional, de acordo com a opinião alheia. Nosso idioma passa por uma crise de identidade nunca vista. Não sou adepto a crises de existencialismo – tampouco seguidor fanático de doutrinas pragmáticas –, até porque não me considero um ser com caráter de unicidade e isolado num universo hostil e indiferente, mas concebo como verdadeiras minhas ações praticadas com responsabilidade e a liberdade da qual desfruto para escolher o meu próprio destino. O ser ou não ser – o que sou de fato ou aparento aos olhos externos – me leva a crer que ter “existência real”, na relação entre o haver e o viver, é sublime. Deus tem observado à distância e me deixado à vontade para optar.

O Big Day foi 08 de agosto de 2002. Era manhã de quinta-feira, coroada pelo frescor do inverno. As folhas da parreira do meu quintal balançavam espantando uma rola que vinha alimentar os seus filhotes no ninho – minha parreira já abrigou outras gerações de pequenas pombas. Debaixo dela estava observando cada detalhe. Nada, absolutamente nada, rompeu o meu silêncio interior e a beleza daquele momento, nem mesmo o enjoado barulho provocado pelo trânsito urbano anunciando o início da rotina de uma grande cidade. Acordo cedo, como de costume. Tomei um ralo café e depois separei algumas batatas inglesas para descascar – pequena contribuição para o preparo do almoço. Adoro descascar batatas (podem ser de outras nacionalidades); coisa que faço regularmente desde os cinco anos de idade. Um pouco dessa experiência é contado na próxima matéria intitulada “Descascando batatas”, escrita vinte e quatro horas após ter me titulado escritor, sem permissão alheia. Este era o meu derradeiro timing. As rolas e meia dúzia de bem-te-vis testemunharam o acontecimento.  Enquanto descascamos batatas temos uma nítida impressão de estarmos assistindo videoteipes de situações já vividas ou experimentadas. Nossas mentes vagueiam nas lembranças e os ouvidos captam palavras perdidas no vento. Assim como o vento, não podemos ver, literalmente, o rosto de cada personagem, mas, a virtualidade da sua presença consegue arrumar novamente o cenário. A magnitude desta atmosfera torna as pessoas mais sensíveis.

O fechamento da edição do Jornal Nacional do dia 07 de agosto – véspera, portanto, do meu dia “D” –, sobre a morte do repórter Tim Lopes, sequestrado na favela da Vila Cruzeiro, no bairro da Penha, em 02 de junho de 2002, quando realizava reportagem para denunciar o aliciamento de menores em bailes funk promovidos pelo tráfico de drogas, e, posteriormente assassinado por traficantes do Rio de Janeiro com requintes de crueldade e barbárie, se constituiu no maior incentivo para voltar a escrever, mesmo que esses meus escritos fossem direcionados somente para mim mesmo, como tantos outros guardados no fundo de alguma gaveta ou cedidos paternalmente a vestibulandos.

Outros escritores já disseram que gostam de escrever como se fosse para eles próprios. Eu também. Esta prática nos conduz à fluidez da racionalidade; leva-nos ao desabafo. Dizer francamente o que se sente ou pensa é imperativo para o escritor. O uso de redundâncias – superfluidade de palavras – tem o aval dos leitores que sabiamente percebem o horizonte da compreensão de forma clara. Friedrich Nietzsche, em seu livro “Humano, demasiado humano”, escreve sobre o limite da honestidade do escritor: “Também o escritor mais honesto deixa escapar uma palavra a mais, quando quer arredondar um período”. Por conseguinte, o ato de escrever transcende à representação, por meio de letras, dos sentimentos, das emoções, enfim, das descargas emocionais expressas em palavras. Escrever é o registro formal do pensamento.

O livro todo é uma narração ficcional, se assim também nos julgarmos no enredo da vida real. Este é um livro sem nenhuma obrigação estética; sem rigidez literária. Se bem que em alguns momentos – e não foram poucos, podem ter a certeza – exorbitei do emprego de aforismos e de neologismos; abusei do uso de qualificativos e, para não fugir à regra, há nele outras tantas passagens e expressões metafóricas. O advérbio que exprime negação, “não”, também é dito nas afirmativas – querer poupar a sua aplicabilidade nas narrativas seria uma tremenda presunção, além do que não foi a minha primeira preocupação, mas sim a de preservar a fidelidade aos meus instintos naturais como despótico defensor da metacrítica. Ultrapassar os limites do justo ou do razoável personifica o enfoque sobre a realidade presumível – a sistematicidade da visão vai de encontro à maneira diferenciada de perceber as coisas dispostas no mundo metafísico, sobejamente explorado por outros escritores. Cada um de nós, à sua maneira, tem formado essa consciência. Por outro lado, quando o próprio autor consegue se emocionar com as mensagens contidas nos seus escritos, passa a ser um ponto significativamente positivo, na medida em que o complexo das ideias da obra certamente dará asas à imaginação dos leitores. Conversei muito com Rodolfo sobre isso.

Sei que é extremamente difícil, mas, o melhor ouvinte é aquele que sabe ouvir a si próprio. Indubitavelmente. A “voz” do pensamento não deve chegar à boca antes de fazer movimentar os músculos das mãos, com primazia. Três meses depois de ter começado a escrever cheguei à conclusão que deveria mudar o perfil dos meus escritos. Pois bem, cada escrito deixaria de ser considerado “Opinião” ou “Crônica”. Na verdade, prefiro Contos. Opinião é o modo de ver ou de sentir a respeito de um determinado assunto. Este “parecer” pode parecer que estou metendo o bedelho em coisa alheia, ou seja, me intrometendo sem ser chamado – as pessoas ultimamente não estão interessadas na opinião das outras ou precisando do conselho de ninguém. Já a Crônica, no sentido de um pequeno texto de enredo indeterminado, denota certa complexidade. As pessoas gostam que alguém lhes conte algo de novo ou lhes fale sobre coisas já faladas e sempre estão com boa disposição de ânimo e predispostas a tudo ouvir e ler com muita atenção – pelo menos eu acho assim. Histórias são sempre bem-vindas. Depois que fui contar algo para um surdo, voltei atrás e abracei mesmo a ideia da Crônica.

Nem mesmo este meu revolucionário espírito de desnudar intenções ou de desarmar preconceitos me fez mudar o foco do desafio proposto: escrever um livro. Diz a máxima que se o homem não realizar três desejos particulares não marcará de forma condigna e profícua a sua passagem pela vida. Primeiro, plantar uma árvore; segundo, ser pai; terceiro, escrever um livro. A ordem da conquista é a que menos importa. No meu caso específico eu concordo plenamente. Os meus filhos gozam de boa saúde. Das mudas que plantei – pisoteadas pelas botas dos soldados no tempo da Revolução –, sobreviveu apenas uma que hoje me presenteia com sua majestosa sombra sob a qual realizo o terceiro desejo.

O livro é, por concepção, uma fina mistura de “retrato falado do passado” com um “diário de previsões”. Os temas foram agrupados segundo uma ordem cronológica. Poderia ser inversa. Porém, tal ordem também permite a sua leitura de trás para frente, caso o leitor assim preferir. “Palavras de amigo”. Esta primeira crônica abre o leque dos sonhos, a porta da espaçonave rumo ao imaginário – fragmentos de sentimentos, registros de memórias que influenciarão as pessoas, fenomenologicamente, no seu convívio cultural-social. A propósito, nenhuma crônica é oclusiva. Os escritos têm, automaticamente, renovadas as suas datas e fontes de criação a cada interpretação dada pelo leitor.

Encontrar um nome de batismo para um livro de crônicas não é tarefa das mais fáceis – dúvidas surgiram com relativa frequência. Pensei em algumas opções: “Simplesmente crônicas”, “Gavetas abertas”, “Escrevi pra mim mesmo”, “Descascando Batatas”, “Saí do Ovo”. Todavia, não durou por muito tempo este suplício. Graças a Deus.

John Lennon sonhou com um sujeito saindo de dentro de uma torta quente gritando: “Nós somos Beatles”. Com a letra “A”. E John respondia: “And we are” (E nós somos). Não resta a menor dúvida de que Lennon recebera uma mensagem divina sugerindo o nome de batismo para a sua banda. Deu no que deu. Há dias sonhei que saía de dentro de um ovo toda vez que retomava a escrita deste livro. O que pode ter acontecido? Não sei. Talvez a manifestação de um espírito luminoso – que espalha luz própria –, sugerindo que batizasse o meu livro com o título de “Saí do Ovo”. Quem sabe este espírito não seja o dele, John. Todo o dia 08 de dezembro eu rezo por ele.

Pouco tempo depois estava às voltas com pesadelos regulares. Quase toda a noite sonhava com o maldito do “Heury”, um cavalo esquálido que ajudara a matar. Durante aqueles sonhos aflitivos surgia o “Heury” no meio de um vasto canavial. O equino não relinchava; ele falava normalmente como qualquer pessoa que não relincha. Soltava uma voz intermitente, mas que dava pra entender plenamente. O seu espírito (cavalo tem espírito; quem não tem é político) veio me cobrar a coparticipação no seu desenlace: “Por que você não me deu refrigerante Diet pra beber?”. O coitado era diabético. Constantes missas não fizeram cessar os meus pesadelos; tampouco os despachos ou as centenas de velas acesas. Outro espírito luminoso – de um ex-jóquei – me apareceu em sonho e sugeriu que homenageasse o “Heury” batizando o meu livro de crônicas com o seu nome dentro de aspas. Quando disse “OK” para o espírito do ex-jóquei, o espírito do “Heury”, o cavalo esquálido, me deixou definitivamente em paz. Cavalgou para o além. Pretendo cumprir esta promessa, e vislumbro: Um cavalo chamado “Heury”. Talvez “Heury” vire nome de rua, desde que não se use a expressão “esquálido”. Consultarei um vereador de plantão e ele comprou a ideia – batizar as ruas, dando-lhes nomes excêntricos é a única coisa que os vereadores sabem fazer.

Praticamente um ano se passou a contar do dia em que coloquei a primeira linha no papel. As coisas estão acontecendo a todo o instante com uma velocidade estonteante, conforme previ. Alguém pode assumir, em meu lugar, a autoria de certas prédicas. Com certeza este não é um mero exercício profético. Preciso alçar vôo o quanto antes e comandar o meu destino, mesmo sentindo certa timidez por ter enveredado na trilha de escritor. Para evitar certos contratempos, prometo tratar assuntos de política em outro livro, até porque uma laranja podre pode estragar as demais que estejam boas. Crio a minha defesa comprando uma máscara de oxigênio – o livro ao qual me refiro terá como título “Polítitica”. Tarefa dificílima falar da “titica” na política brasileira sem sentir os seus maus odores ou ânsia de vômito.

O ovo, pela sua natural aerodinâmica, pode se transformar na mais perfeita espaçonave. Assim como saí dele para escrever este livro, posso entrar novamente, só que para navegar fora da órbita terrestre e desembarcar em outro sistema solar, e, com sorte, ser visto, por quem fica, também como um espírito luminoso. Só me desejem boa viagem. Mas, pensando melhor, prefiro viajar na garupa do “Heury” – é mais seguro, não depende de controladores de vôo.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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  1. Pingback: Um cavalo chamado “Heury” « Opinião sem Fronteiras - 31/10/2012

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