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Política

Polítitica – 5ª Crônica

O Espírito Santo, enquanto que terceira pessoa da Santíssima Trindade, ainda continua sendo rogada pelos capixabas toda vez que veem estampadas nas primeiras páginas dos jornais notícias de corrupção, malversação do dinheiro público, enriquecimento ilícito e improbidade administrativa envolvendo o governador do Estado do Espírito Santo, José Ignácio Ferreira, e seus asseclas diretos. CPIs rolam, enrolam e tentam se desenrolar sob o sol da impunidade. Denúncias não param – processos acumulam-se na Justiça. A nova rota do crime organizado na política não consegue esconder as suas pegadas na areia. A OAB e o STJ estão exercendo o seu papel constitucional, contudo, falta celeridade nas ações de combate.

As crises palacianas que se instauraram no governo do Espírito Santo a partir das denúncias fomentadas pelos lobistas Nilton Antônio Monteiro e Andréa Cássia Vieira de Souza, estremecendo as bases da política estadual em 2001, e até hoje causando rachaduras nos princípios institucionais, reacendem antigas discussões sobre a real necessidade da “contratação” de terceiros pelo poder público para a intermediação de negócios dos mais variados interesses. Dantes, este assunto era reservado aos cantos das salas, aos corredores vazios e aos banheiros privados, como se aqueles cômodos fossem o fórum adequado para isso. Sem falar no quintal, nos fundos da casa ou no terraço. Até a cama do casal já foi cedida para esses encontros furtivos. Este episódio serviu para emergirmos do pântano político uma figura conhecida como Lobista; ajudou a desvendar a complexa teia onde os interesses são aprisionados para alimentar o sistema corrupto.

Com a falência dos preceitos de ética e moralidade os “contatos imediatos do terceiro grau” se sucedem a céu aberto. Questiona-se, desde agora, o verdadeiro papel do lobista nas administrações públicas. As eleições de 2002 desenharão um novo quadro político para a gestão do executivo e legislatura 2003/2006, e, ao contrário do mundo político, no clã de lobistas não haverá a conhecida dança das cadeiras, serão as mesmas sanguessugas que, em polvorosa e freneticamente, já ensaiam as estratégias de abordagem.

Lobby (lóbi) s.m., vernáculo de origem inglesa, corresponde a um grupo de pessoas que, nos corredores de plenário, parlamento, etc, tenta influenciar (exercer influência sobre, usar de autoridade moral, prestígio e ascendência) seus membros para que apoiem ou oponham legislação proposta. Lobista é toda aquela pessoa que pratica o Lobby. Para ser lobista – era uma exigência do passado e ainda continua sendo – o candidato tem que preencher alguns requisitos básicos como ser um RP (Relações Públicas) por excelência, bem informado, bom falante, discreto e se vestir impecavelmente, não precisando, como regra de bom gosto, usar colarinho de alpaca ou punhos de renda. Ser “FDP” pode.

Não importa qual o cenário de sua atuação, mas, a conclusão é única e nos leva a repensar as verdadeiras atribuições do lobista e a revelar os caminhos seguidos para a plena prática da sua missão. Permanência ou extinção? Na atividade privada, o lobista tem um salário contratual legal para o exercício das atividades inerentes ao cargo. Quando atua nos meios públicos, geralmente aparece com as vestes de consultor e a maioria dos contratos tem um destino certo: a gaveta, ou, simplesmente inexistem. Vale a confiança depositada na figura do contratante, dependendo do grau de cumplicidade entre as partes envolvidas. Este conceito continua válido e os profissionais de quilate duvidoso se aproveitam do banquete. Especialistas em RH (Recursos Humanos) qualificam o lobista como um “despachante de luxo” e estabelecem este como seu perfil principal. É um “facilitador”, ou seja, é uma espécie de produtor de dificuldades para vender facilidades. Dentro, obviamente, das facilidades que lhe são criadas, age como um negociador potencial. Torna as relações mais amistosas. Segue à frente da tropa, abrindo caminhos.

O lobista de carteirinha sabe aproveitar os bons ventos e coloca com habilidade o barco no mar dos oportunismos. Por conhecer as pessoas certas, localizá-las nos lugares certos e abordando-as nas horas certas, enfim, por fazer tráfico de influências, o lobista cobra caro por isso, sobretudo, pela competência em transferir fortunas de um bolso para o outro. É um verdadeiro trabalho de inteligência. O FBI e a CIA ficariam com inveja.

Contudo, um clima de perigo ronda os seus passos e a probabilidade dele, o lobista, de fazer jogo duplo parece inexorável. Lembro-me de um filme, um desses enlatados americanos, quando o assassino de aluguel matou impiedosamente o seu primeiro contratante porque a sua provável vítima lhe deu mais dinheiro para que não a matasse e ainda revertesse o intento. Qualquer semelhança com os maus lobistas é uma mera coincidência. Esses maus lobistas podem se reintegrar no social, perfeitamente, desde que façam uma lavagem cerebral e devolvam tudo aquilo que amealharam ao longo do tempo. A partir daí, teriam acesso permitido às portas da cidadania – só não sabemos se seriam aceitos. Condenados à morte seria o mais plausível.

Certa ocasião, um estudante de jornalismo me fez uma pergunta interessante: “Por que políticos utilizam lobistas para a resolução de problemas que ocorrem dentro da própria máquina pública?” Antes mesmo que eu abrisse a boca, ele saiu atirando: “Eu entendo que o político que usa lobista para resolver problemas junto a outros políticos, independente do seu mérito, nos faz acreditar em três hipóteses: primeira, total e profunda incompetência; segunda, porque não deseja resolvê-los no campo da legalidade; terceira, porque o político não quer mostrar a sua cara nos negócios conduzidos de forma nebulosa, nos subterrâneos da imoralidade”.

Neste particular, outra vertente emerge deste pântano lamacento. Trata-se da figura do político desonesto com interesses econômico-financeiros pessoais, escamoteados em boas ações carregadas de popularidade. Entra na política para se arrumar e parte do pressuposto que o povo brasileiro não tem memória e sai novamente candidato à reeleição ou a novos cargos eletivos, com a maior cara-de-pau. Ninguém parece desconfiar. E, o que é pior, não se preocupa mais em agir à surdina, na calada da noite. Se os seus pares e instâncias superiores vão se comprometer, também não tem a menor importância para ele. Atitudes que denotam completo desmerecimento da confiança que recebeu.

Os políticos que “comem” nas mãos de lobistas ficam devendo favores e permanecem prisioneiros das suas próprias consciências. Se fosse só isso, com uma simples faxina ética e a posterior salga do terreno, o problema estaria resolvido. Entretanto, as falcatruas, uma vez praticadas por ambos, lesam o erário, arrombando os cofres públicos e as suas consequências refletirão por muito tempo na sociedade. Rotulá-los de desonestos é pouco. Todavia, uma pena maior decorre da convivência entre eles, que será sempre norteada pela desconfiança mútua, muito embora cada qual procurará assumir o papel do outro no mínimo sintoma de algo dar errado, principalmente quando o sol se põe e se inicia todo um processo de “vampirismo canibal”. Neste campo de batalha a alternância de posições é imperativa. Ora o lobista vira político, ora o político vira lobista. A ordem do dia é salvar a própria pele, independente da influência do sol ou da lua.

A história política do Brasil tem retratado, com muita propriedade, uma das principais causas do desgaste da imagem dos governantes. Quando a base de sustentação do governo, ou parte dela, seja em qualquer nível da administração pública, sejam Secretários, Assessores, Ministros e outros, está podre nos seus valores, compromete sobremaneira o sistema e expõe a imagem do governante maior, porque esta mesma base se dá ao direito de, em nome do governo, prevalecendo-se de prerrogativas, cometer verdadeiras barbaridades. Por outro lado, pelo fato do seu acidental distanciamento das bases operacionais – motivado por compromissos de agenda e outros –, fica, o líder de governo, impossibilitado de ver o que está acontecendo no pé da pirâmide sob seu comando. Acidentalmente, também, passa a ser importunado pela “mídia da denúncia”, mesmo não devendo absolutamente nada, mesmo não tendo resolutamente qualquer tipo de envolvimento no objeto da questão. Isto não é regra.

É cercada de grande complexidade a tarefa das nomeações dos segundo e terceiro escalões de comando. A escolha das competências certas esbarra no paredão dos compromissos e costuras políticas postulados por épocas de campanhas eleitorais. Neste particular, nem a certificação da ISO 9000 resolve o problema, porque ela simplesmente normatiza procedimentos e não a índole das pessoas.

A construção da pobreza também está alicerçada na corrupção, na sonegação de impostos, nos desvios de verbas, na malversação do orçamento público, etc. Nunca a pobreza neste país esteve tão perto da miséria. Sair deste estado de inanição e flagelo cultural só depende de mudanças radicais de longo prazo. Até lá, a massa de eleitores, autoridade máxima para a legitimação do poder constituído, continuará acreditando na boa vontade e em promessas de políticos. Deus tapou os ouvidos.

O terreno ainda está fértil para a proliferação dos lobistas. Torná-lo estéril vai depender da revisão de critérios convencionados, tais como, impunidade, lei do silêncio, morosidade da justiça, político sendo auditor de político nas CPIs, o povo não tendo acesso a informações mais técnicas (prestações de contas das Prefeituras nos Tribunais de Contas dos Estados e destes para a União), etc, etc. A propósito, CPI quer dizer “Coisa Pra Imbecil”, ou, pra quem preferir, “Coisa Pra Idiota”. Está na moda a sigla CPMI, que quer dizer “Coisa Pra Maiores Ignorantes”.

Conversei, há pouco, com o Bozó, aquele personagem vivido na televisão pelo humorista Chico Anísio, e ele, como ilustre e maior lobista do Brasil – porque é inofensivo e diz só gostar de mulher –, mesmo por telefone, passou dez regras básicas para quem quer contratar os serviços dos Lobistas ou dos Consultores Políticos:

  1. Amigos do rei são potencialmente suspeitos.
  2. Não facilitar acessos.
  3. Não acredite na primeira versão dos fatos.
  4. Não confidenciar assuntos de governo com terceiros na frente de segundos.
  5. Não ficar devendo favores, notadamente se o pagamento não for feito por você.
  6. Não aceitar presentes.
  7. Desconfie sempre de quem diz que trabalha muito.
  8. A qualquer suspeita, afaste imediatamente o causador dela.
  9. Acompanhar e cobrar são regras do sucesso.
  10. Em terra de cego, só tem cego – até entrar um que enxerga.

O verdadeiro motivo que levou Ronald Biggs a ir embora do Brasil foi a humilhação que sentia toda vez que abria os jornais. Descobrimos mais tarde que houve um segundo motivo: ao saber que por aqui boi comia piranha, fugiu com medo.

 Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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