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Crônicas Aforísticas

1ª Crônica

1ª Crônica

Palavras de amigo

Acabara de tomar um café no Palheta, e estava descendo a escada rolante do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, Tom Jobim, no tempo em que me chamou a atenção o perfil de um homem, aparentando cinquentão, e o contorno do rosto daquela pessoa visto de lado me era familiar – que já fora visto anteriormente uma infinidade de vezes pensava então. Ainda me restavam trinta e cinco minutos até a hora do embarque para Recife, onde proferiria uma palestra sobre neurolinguística, e, portanto, uma rápida abordagem daquele passageiro, supostamente conhecido, não me faria perder o vôo.

Bom-dia, senhor. Saudei-o primeiro.

Por um acaso não o conheço? Perguntei-lhe em seguida.

Rodolfo? Num bom-tom, ele indagou.

De fato, se tratava da pessoa que eu presumia ser. Dezoito anos faz que não via Augusto Avlis. A última vez que estivemos juntos foi na noite do dia 30 de julho de 1986 – me lembro bem porque comemoramos, pela décima oportunidade, a nossa formatura em jornalismo e tomamos um belo porre (também o décimo) no calçadão de Copacabana. A data era especial, singular, enfim, conseguimos terminar uma escola superior.

Em 1972 prestamos vestibular para a UFRJ, passamos, e fomos, por primeira opção, estudar na Escola Nacional de Belas Artes, que funcionava no Museu de Belas Artes, na Cinelândia, centro do Rio, e nos matriculamos nos cursos de pintura e escultura. Naquela época o autoritarismo militar estava no apogeu e nem mesmo os conselhos ditados pela razão e pela consciência nos livravam da “desdita dura”. Uma vez militantes da UNE (União Nacional dos Estudantes), entrávamos constantemente em choque direto com a PE (Polícia do Exército). As Avenidas Rio Branco e Presidente Vargas eram os principais palcos de guerra. Ao longo daquele ano (72) colecionamos dezenas de hematomas e escoriações generalizadas por todo o corpo em conseqüência da “ação carinhosa” dos cassetetes – envergavam, mas de jeito algum quebravam. Quem bate esquece; quem apanha, nunca…

Uma época romântica, sobretudo porque os jovens preferiam apanhar a ficar omissos. Não há como comer a noz sem quebrar a casca. Por fim, trancamos a nossa matrícula na Escola de Belas Artes – pincéis, desbastadores, espátulas, tintas, enfim, papéis importados, tudo foi jogado no canto de um cômodo qualquer – e fomos cantar em outro terreiro, ou melhor, eu sumi do mapa por um bom período e o Augusto Avlis permaneceu trabalhando na Caixa de Registro e Liquidação da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, na famosa Praça XV. Confesso que o Augusto Avlis não era burguês e se orgulhava da sua origem pobre, porém honesta. Seu pai era mecânico de refrigeração e sua mãe doméstica.

Só voltei a reencontrá-lo perto do começo dos anos 80.

Ninguém perde as tendências artísticas de uma hora para a outra ou simplesmente com o passar dos anos. Prova disso é que quatorze anos depois do vestibular de 72, no meio do porre em Copacabana, fiz a caricatura do meu grande amigo – praticamente em dois minutos – e lhe dei de presente. Sempre achei, e continuo achando, que aquela caricatura não era apenas uma representação cômica. Na verdade, prefiro chamá-la de charge, ou seja, um desenho, de natureza caricatural, satírica ou humorística, em que se representa uma pessoa, um fato ou uma ideia corrente (especialmente de caráter político). O nariz adelgaçado foi o grande detalhe capturado na fisionomia de Augusto Avlis. Podemos chamar de ícone a obra final, acabada – o nariz fez parte inseparável dela.

Falamos muito do passado e pouco do presente, como de praxe. Quando dei pelas horas, percebi que faltavam somente três minutos para o meu embarque; foi justamente aí que o Augusto Avlis, com a argúcia peculiar, não perdeu a oportunidade para me alertar pela última vez.

Rodolfo, corre, caso contrário você vai perder o avião porque faz quinze minutos que eu perdi o meu pra Vitória, mas, antes disso, leve consigo esta cópia do meu primeiro livro de crônicas. Leia-o, e se gostar, fica me devendo o prólogo. Boa viagem.

Sou suspeito em falar, contudo, achei por bem colocar o título “Palavras de amigo” – coisa pessoal –, não simplesmente prólogo, porque a amizade verdadeira nos permite contar determinadas passagens das nossas vidas numa atmosfera mais à vontade. O ‘Prólogo’, por natureza, traz consigo uma rigidez estética.

Despedimo-nos com um forte abraço

… Com a certeza de que em breve nos reencontraríamos de novo, num outro cenário, sem cassetetes e soldados por perto.

Até o Recife fui degustando as matérias – cheguei a dispensar o lanche de bordo. Minha conferência (longe de ser um requintado discurso científico em público) estava marcada para a manhã do dia seguinte e precisaria rever a pauta da apresentação, só que não abri o Note Book pelo fato de ter ficado preso à leitura do livro e, de certa forma, queria chegar ao seu final; o que consegui naquela mesma noite. Não saí do hotel pra nada. Simultaneidade ocasional: este é o primeiro livro de crônicas escrito pelo meu amigo Augusto Avlis e este é o meu, digamos assim,  primeiro “prólogo rascunhado” – compromisso que assumi comigo mesmo antes de atingir a leitura do décimo escrito. Curioso; décimo.

Não há como falar do livro sem falar no autor, reciprocamente – ambos, textos e o seu criador, fundem-se; incorporam-se. A sensibilidade se deixa mostrar natural, à flor da pele, sobretudo quando questões que atormentam grande parte da sociedade brasileira são abordadas – facilmente impressionáveis. O espelho da sociedade reflete as mazelas do poder constituído; fonte alimentadora do “real imaginário”. Cada escritor constrói definições nos seus momentos particulares e busca a difusão de ideias, com a velocidade da luz, segundo a íntima interpretação de valores plásticos, semânticos e éticos. Como apêndice, toda e qualquer palavra vem acompanhada da sua significação e rompe as barreiras do tempo e do espaço – mensagens carregadas de razão e comoção não são dissonantes da realidade aparente.

Mostrar-se erudito não foi a proposta de Augusto Avlis, muito pelo contrário, ratificou o seu estilo próprio de se exprimir por meio da escrita – isto é arte. O povo continua sendo a principal origem da inspiração literária. O autor de Um cavalo chamado “Heury”, sempre soube que manter contato com a multidão, independente dos níveis e categorias sócio-econômicas, seria contagiante – ideias, costumes e estados de espírito, que dão forma e sentido a filosofias e sabedorias populares, fertilizam a argúcia, a penetração intelectual do escritor. A média cultural do povo brasileiro é considerada baixa se comparada a de muitos outros países, entretanto, o conjunto de experiências humanas adquiridas pelo contato social e acumuladas através dos tempos, torna as pessoas sagazes, opinativas e imaginosas. Ter a capacidade para explorar positivamente esta condição é o grande diferencial, muito embora as elites dominantes insistam em preservar o povo sáfaro para que continue objeto de exploração negativa e realimente a vocação dos políticos para o poder.

O autor sugere que “o livro todo é uma ficção, se assim também nos julgarmos no enredo da vida real”. Augusto Avlis não é um ficcionista. Suas produções literárias denotam elasticidade e plasticidade – estabelecem uma ponte entre a primeira compreensão e o posterior julgamento. Todo escritor que encerra crítica emprega passagens aforísticas como reforço de tese, ainda que moderado no seu discurso. Tradicionalmente, a crítica especializada – por vezes não adepta do ecletismo – pesará a intensidade das sentenças; e os consumidores de livros também, que veem e entendem claramente e em geral estão sempre com o espírito preparado para lidar com este gênero literário.

O mercado editorial se ressente das turbulências econômicas. Infelizmente, o produto cultura ainda é caro no Brasil e o acesso a ele é restrito. O governo, antes de pensar em vender ao povo a ideia de “mudança com esperança”, deve respeitar o direito de todos à educação, à cultura e ao ensino estruturado – sem isso, não há cidadania.

Augusto Avlis é um crítico-político-social inveterado e um saudosista por excelência, perfil testemunhado numa sequência de textos extraordinariamente criativos, dinâmicos e atualizados. O autor, por experiência, deu uma volta de 360º no Planeta Imaginação e convido a todos para que entrem nesta órbita – a propósito, na garupa do “Heury” tem sempre espaço para mais um. De volta a Terra, tentarei encontrar as tintas e os pincéis, que há trinta e um anos foram jogados no canto de um cômodo qualquer, e repintarei a Bandeira Nacional com as suas cores originais, porque o matiz avermelhado está surgindo como mancha – ainda não indelével.

Rodolfo foi encontrado morto no quarto do hotel em que se hospedara no Recife. A autópsia revelou a causa exata da sua morte: infarto agudo do miocárdio. Não teve tempo para a sua palestra, tampouco para terminar de escrever o prólogo do meu livro de crônicas. No dia do seu enterro, vestia o mesmo paletó azul marinho listrado, de sua preferência. Inexplicavelmente, uma ponta de papel se deixava mostrar em um dos bolsos. Puxei-o cuidadosamente, e foi aí que percebi que se tratava das primeiras linhas do prólogo prometido por Rodolfo. Guardei-o. Passado o primeiro abalo emocional, meus olhos fixaram-se na data (dia 10) e nas últimas palavras escritas: “Despedimo-nos com um forte abraço”. Não havia pontuação.

Meses depois, suportando imensa dor no peito pela ausência do grande amigo, peguei aquele papel, um pouco amassado por causa das inúmeras vezes que foi lido, e dei continuidade ao texto – Com a certeza de que em breve… Meus pensamentos fluíam, comandavam a minha mão direita, que não parava de escrever um só instante, sem intervalos. Era o Rodolfo quem estava ali, manifestando-se através da minha matéria, longe dos cassetetes e dos soldados.

Em algum lugar, no tempo e no espaço.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

3 comentários sobre “1ª Crônica

  1. Realmente meu amigo é uma crônica que mexe com nossos sentimentos, me fez voltar ao passado,como um filme.
    Vc tinha razão.Foi uma mistura de sentimentos.

    Publicado por Nair Santos | 04/10/2014, 23:52
    • Todos nós temos a capacidade de colocar no papel os nossos sentimentos, as nossas ideias, basta escrever a primeira palavra, o que virá depois é a mais pura manifestação da alma.

      Forte abraço,

      Augusto

      Publicado por augustoavlis | 05/10/2014, 08:26

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  1. Pingback: Um cavalo chamado “Heury” « Opinião sem Fronteiras - 03/11/2012

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