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Política

Pesadelo – II.

Pesadelo – II.

Os últimos dias foram os últimos dias. E serão! Não há contestação sobre a teoria do tempo. Acordei neste sábado (hoje, 06/11/21) com o espírito de algum grande filósofo reencarnado na minha carne. Sei lá de quem! Pode ser do Friedrich Wilhelm Nietzsche – eu pareço muito com ele no estilo. Achar que o espírito reencarnado na minha carne é do grego Aristóteles é muita pretensão. Não costumo reivindicar direito suposto ou real. A propósito, direito algum. Com a mesma firmeza eu digo que as estruturas sociais não podem ser contestadas, aperfeiçoadas sim, ainda que o sistema reinante tente desqualificá-las. No mundo dos conflitos nascem os protestos – não necessariamente numa relação equidistante, de modo que o movimento provocado pelo terceiro ponto determina a posição dos dois pontos anteriores, conflitos e protestos. Qual seria, portanto, este terceiro ponto? O próprio sistema dominante, representado pelo “conjunto das instituições econômicas, morais, éticas e políticas duma sociedade, a que todos os cidadãos se subordinam”. In verbis. Dependendo de como este “conjunto” se comporta e, sobretudo, dos resultados que produz, tanto conflitos de um lado, quanto protestos do outro lado podem ser gerados com previsibilidade. Esses pontos, conflitos e protestos, se revezam – interessante que há pessoas que se desentendem, reclamam e gritam ao mesmo tempo.

A supressão de direito dos cidadãos de expressarem as suas opiniões, as suas ideias, o que pensam e o que acham sobre os acontecimentos é um verdadeiro atentado à dignidade humana – ponto de protesto. Grotesco o momento político que nós estamos vivendo no país – ponto de protesto. O ativismo judicial está autorizando todo mundo a “trocar as bolas”, a fazer confusão – ponto de protesto. Tem bicheiro dando palpite na área do Direito e sugerindo jurisprudências; tem catador de recicláveis dando aula de economia; tem prostituta querendo se passar por (deixa pra lá) – pontos de conflito. O STF (Superintendência de Tratamento de Fakes) faz política com maestria, legisla o tempo todo sobre todos os temas, expulsa de campo juízes de futebol e bandeirinhas e ainda rouba a bola, ou melhor, as bolas – pontos de conflito. Tamanha é a barafunda e grande a quantidade de porcarias que a imprensa tradicional tenta colocar nas nossas cabeças, que nós brasileiros resolvemos fazer o que der na telha; como justificativa nós diremos às autoridades que os nossos neurônios foram destruídos, portanto, somos desmiolados – pontos de conflito. Na verdade, o Brasil parece uma casa sem pão, onde todos gritam e ninguém tem razão. Está sobrando muito índio. Tento dormir pensando nisso tudo e quando consigo pregar os olhos lá vêm os pesadelos – de novo pra variar.

Estou me vendo sentado à frente do prefeito da pequena Sucupira, Odorico Paraguaçu, eleito com a promessa de construir o cemitério da cidade. O “Bem-Amado” Odorico Paraguaçu sabia usar a demagogia com destacada perspicácia, e com isso conquistava cada vez mais popularidade na “falsa democracia” Sucupirense. Odorico, maquiavélico, vivia “explorando as emoções, os preconceitos e a ignorância para despertar o povo comum contra as elites, provocando as paixões da multidão e interrompendo as deliberações fundamentadas”. Odorico Paraguaçu era um político reconhecidamente corrupto, mas possuía um dom inato: fazia discursos inflamados e recheados de mentiras, com força o suficiente para engambelar o humilde e ingênuo povo de Sucupira, no litoral baiano. Odorico era endeusado pelos eleitores Sucupirenses e ainda exercia enorme fascínio sobre as mulheres do local. Continuo me vendo sentado à frente do prefeito da pequena Sucupira, Odorico Paraguaçu, e ele começa a fazer um daqueles discursos verborrágicos, aproveitando a plateia de cinco pessoas.  

“Senhor verboso escriturário das palavras [jornalista] serás bem-vindo à Sucupira se não fores afeito a bisbilhotices, intrigalices e futricalices costumeiramente empregadas pelos injustos contrariados descontentes. Vamos aos inicialmentes para melhor entendimento de nossas ambas as partes. Talvez recebas convite declaratório para participar ativamente de camarilhas, mas fiques sabendo de antemão levantada que isso será um atentado a quem pensa em sentido adverso. Aqui na Bahia, principalmente e exclusivamente em Sucupira, não existe Fake News, uma esquisitice inventada por contumazes mentirosos que dizem as verdades que todos não sabem distingui-las. Como prefeito juramentado desta cidade do futuro penso em construir aqui um ‘TI’, Tribunal de Inquisição para julgar os crimes inexistentes de Fake News com o propósito de criar pânico no povo de fora que jura dizer a verdade sobre si próprio. Costumes considerados desviantes como adultério aqui já recebem pena de castração. Tenho afirmado ao meu povo que Covid é uma doença estrangeira, não nos pertence porque falta patente, portanto, em Sucupira ninguém morre por conta dessa coisa, mormente de susto. Aqui todo mundo morre de barriga d’água ou disenteria; a frequência de evacuações dos Sucupirenses nativos aumentou desproporcionalmente porque eles pediram para a minha honrada prefeitura colocar carne de calango seco na cesta básica diária.  Apareceu aqui em Sucupira um tal de Edinho Silva, dizendo-se representante do Eduardinho Gabas, oferecendo-me por meio do Consórcio Nordeste o total de 13.500 respiradores, para a minha população que não respira direito, na base de rachadinha de 50%. Não costumo dividir as minhas privacidades com ninguém e, oportunamente, pedi-lhe distanciamento social e que fosse apresentar a proposta ao governador da Bahia, Rui Costa, entendido no assunto de respiração e Covidão. Aqui tá todo mundo proibido de morrer de Covid, não temos cemitério na cidade, e não há mais espaço nos cemitérios das cidades vizinhas. Respeitosamente, também não queria aqui a presença do maledicente G7 por escassez de calangos. Digo ao senhor verboso escriturário das palavras [jornalista] que eu tenho três prioridades prioritárias no meu governo governado honestamente por mim: construir o mais confortável cemitério das Américas, edificar o Tribunal de Inquisição e trazer a filial do STF para Sucupira, com 09 ministros, porque o Alex, o Xandão, já fugiu pra cá achando que teria a minha proteção divina. Foi castrado em execução sumária a pedido de um coronel de direita, coitado, não teve tempo de fugir. Aqui não tem essa de dois pesos e duas medidas, de modo que só tem uma medida, que é a minha. Aqui em Sucupira não existe Lei da mordaça, basta o meu olhar complacentemente que todos calam a boca, é assim que os pais ensinam as crianças. O Xandão teria muita coisa para aprender com este humildemente representante do povo. Tem outra coisa, aqui em Sucupira o cerceamento às liberalidades de expressão não existe consequentemente. Eu, Odorico Paraguaçu, dou o que eu não tenho a obrigação de dar, mas com esperança de receber algo em troca. Comprovadamente, por você ter ficado de boca fechada prestando firmemente atenção nos meus olhares eu tenho uma proposta a fazer-lhe… Tenho dito”.

Puta que o pariu. Pesadelo filho da puta. Acordei assustado no meio da madrugada, sem saber exatamente onde eu estava. No pesadelo eu sabia, estava sentado à frente do prefeito da pequena Sucupira, Odorico Paraguaçu, tentando negar o seu convite para eu ser o editor-chefe do Jornal A Trombeta. Odorico Paraguaçu já tinha colocado o Dirceu Borboleta como meu braço-direito e as irmãs Cajazeiras, Dorotéia, Dulcinéia e Judicéia como minhas secretárias. No fundo o prefeito Odorico Paraguaçu queria armar pra cima de mim, que eu assumisse o filho que Dulcinéia estava esperando, porque o povo não acreditaria que o pai da criança era o Dirceu Borboleta. E o medo de ser castrado por negar oficialmente e declaradamente a sua proposta. Caralho!

Augusto Silva

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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