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Naturismo

O país que adora a nudez pública.

O país que adora a nudez pública.

Por: Krystin Arneson – BBC Travel.

Sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021 (10h58min).

O histórico de nudez pública na Alemanha levou a uma mente mais aberta em relação ao corpo. Depois de quatro anos morando em Berlim, aprendi a abraçar certos costumes alemães, como a abordagem mais casual da nudez – bem diferente de onde eu cresci no meio-oeste dos Estados Unidos. Enquanto a nudez na cultura mainstream americana geralmente tem conotação sexual, aqui na Alemanha, não é incomum se despir em certas situações cotidianas. Acostumei-me com a ‘nudez padrão’ nas saunas; a mergulhar em piscinas, sem maiô ou biquíni; e surpreendi um massagista quando me despi antes de um tratamento – ele disse que geralmente precisa pedir aos americanos para tirar a roupa.

Mas, como diz o ditado, a primeira vez a gente nunca esquece, sobretudo quando se trata de ser confrontado com a nudez pública. A minha aconteceu durante uma corrida pelo Hasenheide, um parque no distrito de Neukölln, ao sul de Berlim, quando me deparei com um grupo de corpos nus tomando banho de sol à tarde. Mais tarde, depois de conversar com amigos e adquirir um histórico de busca no Google bastante questionável, descobri que esbarrar com um enclave au naturel em um parque ou praia da cidade é praticamente um rito de passagem em Berlim. O que eu vi não era parte de um lado hedonista de Berlim, mas um exemplo de Freikörperkultur ou “cultura de corpo livre”. Em Berlim e em muitas outras cidades alemãs não é incomum encontrar pessoas nuas pegando sol em parques.

O FKK, como costuma ser abreviado, está intimamente associado à vida na República Democrática Alemã (Alemanha Oriental ou “RDA”), mas, o nudismo, como prática pública na Alemanha remonta ao fim do século XIX. E diferentemente de, digamos, fazer topless em uma praia na Espanha, o FKK engloba um movimento alemão mais amplo com um espírito distinto, onde se despir até sua essência no mundo natural é historicamente um ato de resistência e alívio. “O nudismo tem uma longa tradição na Alemanha”, diz Arnd Bauerkämper, professor associado de história moderna da Freie University, em Berlim. Na virada do século XX, pairava no ar a Lebensreform (“reforma da vida”), uma filosofia que defendia a alimentação orgânica, a liberação sexual, a medicina alternativa e uma vida mais simples e mais próxima da natureza. “O nudismo é parte desse movimento mais amplo, que foi direcionado contra a modernidade industrial, contra a nova sociedade que surgiu no fim do século XIX”, afirma Bauerkämper.

De acordo com Hanno Hochmuth, historiador do Centro Leibniz de História Contemporânea, em Potsdam, esse movimento de reforma ganhou espaço, sobretudo em cidades maiores, incluindo Berlim, apesar de sua romantização da vida no campo. A cultura de corpo livre – ou “FKK” – é praticada em muitas praias, acampamentos e parques em toda a Alemanha. Durante a República de Weimar (1918/1933), surgiram as praias FKK povoadas por “uma minoria muito, muito pequena” de membros da burguesia que tomavam sol.

De acordo com Bauerkämper, havia uma “sensação nova de liberdade após a sociedade autoritária e os valores conservadores sufocantes do Império Alemão (1871-1918)”. Em 1926, Alfred Koch fundou a Escola de Nudismo de Berlim para incentivar o exercício nudista misto (para homens e mulheres), dando continuidade à crença de que a nudez ao ar livre promove harmonia com a natureza e benefícios para o bem-estar. E, embora a ideologia nazista inicialmente proibisse o FKK, considerando uma fonte de imoralidade, em 1942, o Terceiro Reich suavizou suas restrições à nudez pública – embora, é claro, essa tolerância não fosse estendida a grupos perseguidos pelos nazistas, como judeus e comunistas.

Mas, a apenas décadas após a divisão da Alemanha no pós-guerra, foi que o FKK realmente floresceu, sobretudo no leste – embora abraçar a nudez não estivesse mais restrito à classe burguesa. Para os alemães que viviam na comunista RDA, onde viagens, liberdades pessoais e vendas de bens de consumo eram restringidas, o FKK funcionava em parte como uma “válvula de escape”, de acordo com Bauerkämper; uma maneira de liberar a tensão em um estado profundamente restritivo, proporcionando um pouco de “movimento livre”.

Hochmuth, que visitou praias de nudismo com seus pais quando era criança em Berlim Oriental, concorda. “Havia certa sensação de escapismo”, diz ele. “Os alemães orientais sempre foram expostos a todas essas demandas do Partido Comunista e ao que eles tinham que fazer, como ir a comícios partidários, ou ser solicitados a realizar tarefas comunitárias sem remuneração nos fins de semana”. Embora alemães orientais rebeldes tenham continuado tomando sol nus nos primeiros anos da RDA – atentos à patrulha de policiais –, só depois que Erich Honecker assumiu o poder em 1971 que o FKK seria oficialmente permitido novamente.

De acordo com Bauerkämper, sob a gestão de Honecker, a RDA iniciou o processo de abertura das políticas externa e interna, uma tática destinada a parecer mais favorável ao mundo exterior. “Para a RDA foi muito útil argumentar que, OK, estamos permitindo e até encorajando o nudismo, somos uma espécie de sociedade livre” – explica Bauerkämper. Desde a reunificação da Alemanha em 1990 e a suspensão das restrições no antigo estado comunista, houve um declínio da cultura FKK. Nas décadas de 1970 e 1980 milhares de nudistas lotavam acampamentos, praias e parques. Em 2019, a Associação Alemã para a “Cultura do Corpo Livre” contava com pouco mais de 30 mil membros registrados, muitos dos quais tinham entre 50 e 60 anos.

Ainda hoje, o FKK continua a deixar sua marca na cultura alemã, especialmente no antigo leste. Ainda é capaz de gerar notícias que viralizam de vez em quando, como quando um homem nu que tomava sol à beira de um lago em Berlim foi forçado a perseguir um javali que fugiu com uma sacola contendo seu laptop. Nas décadas de 1970 e 1980, o rígido governo da Alemanha Oriental permitiu que os residentes praticassem o FKK como uma forma de parecerem mais abertos ao mundo. Na verdade, o FKK e a tradição mais longa de nudismo da Alemanha deixaram como legado uma tolerância generalizada em todo o país para espaços de nudez pública como forma de bem-estar.

Como eu descobri, os espaços para FKK ainda podem ser encontrados sem procurar muito e geralmente estão vinculados a atividades ligadas à saúde. O site Nacktbaden oferece uma lista bem organizada de praias e parques em toda a Alemanha onde você pode tomar sol nu; se despir em saunas e spas; ou fazer caminhadas como veio ao mundo em lugares como as montanhas Harz, os Alpes da Baviera ou as florestas da Saxônia-Anhalt. Se quiser ser um pouco mais formal, o clube esportivo FSV Adolf Koch, em Berlim, oferece ioga, vôlei, badminton e tênis de mesa.

De muitas maneiras, o legado FKK oferece aos viajantes uma visão dos valores que ainda unem muitos alemães orientais. Para Sylva Sternkopf, que cresceu frequentando as praias de FKK na Alemanha Oriental, a “cultura do corpo livre” do país refletiu e transmitiu certos valores que ela está passando adiante aos filhos, especialmente a mente aberta do país em relação aos nossos próprios corpos. “Acho que isso ainda está profundamente enraizado na minha geração na Alemanha Oriental”, diz ela. “Também procuro passar isso para os meus filhos, criá-los dessa forma para serem abertos em relação ao próprio corpo e não terem vergonha de ser eles mesmos e estarem nus, de se mostrarem nus”.

Para Sternkopf, ver corpos nus de uma forma não sexualizada também ajuda as pessoas a aprenderem a ver os outros além da aparência física. Ao desnudar tudo, fica mais fácil ver não apenas o corpo, mas também o indivíduo. “Se você está acostumado a ver pessoas nuas, não dá muita importância às aparências”, diz ela. “Acho que isso é algo mais difundido na Alemanha Oriental em geral; tentamos julgar as pessoas não por sua aparência exterior, mas sempre tentamos olhar o que está por baixo”.

NOTA: Matéria traduzida. Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Travel.

MEU COMENTÁRIO

A nudez social, na maioria dos países, continua sendo um tabu, sobretudo em áreas abertas, onde as pessoas conceituadas “normais” (sociedade têxtil) têm acesso, como parques, praças públicas, jardins, campos, praias, entre outras. A liberdade conquistada pela nudez seria um ato de coragem? Seria uma ação desafiadora às questões proibitórias? De modo geral, o corpo nu como algo sagrado dificilmente é visto. Uma vez exposto, costumeiramente em atividades sociais e/ou recreativas, o corpo despido poderia ser algo perigoso para as tradições e bons costumes estabelecidos; poderia ter a conotação de “coisa impura”. Por outro lado, tudo o que se submete à censura desperta a necessidade de se agredir modelos estruturados de convívio – agressão virtual-real impulsionada quer pelo instinto, quer conscientemente; ainda que os reflexos do nosso condicionamento nos apontem caminhos diversos. Difícil de compreender.

Na verdade, poucas pessoas estão preparadas para encarar o corpo nu como “produto natural”, sem diferenciações, sem rebuços de ocasião. Nesse sentido, a hipocrisia surge como indústria de novos padrões a serem seguidos – por todos; no mínimo por exigência de grupos, nunca por opção. Devaneios, abstrações, loucuras, repulsa a sentimentos, relacionar-se com a realidade aparente! O que somos? Quem somos? O desejo da carne, como forma de domínio, prevalecendo sobre qualquer manifestação espiritual, filosófica, antropológica, ou coisa que o valha. Isso não é mero comportamento do homem moderno, muito pelo contrário, reação que o acompanha há milênios. Onde entra aí a hipocrisia? Resumimo-nos à condição de carne fresca – ainda viva e fora da geladeira doméstica. Por efeito, os prazeres da “carne viva” (pecados subentendidos) se sobressaem a qualquer outro – nas cabeças napoleônicas. É aquela ideia: “quero tomar posse de algo circunscrito”. Para a esmagadora maioria dos brasileiros, em especial, incorporar a “cultura de corpo livre” (Freikörperkultur) ao seu modus vivendi é algo inimaginável, ainda que se admita o caráter temporário.

A nudez pública, antes de ser uma coisa de “cabeça aberta” é sinal de evolução? Possível que sim. Conforme afirmou Bauerkämper, “O nudismo é parte desse movimento mais amplo, que foi direcionado contra a modernidade industrial, contra a nova sociedade que surgiu no fim do século XIX”. Poderíamos chamar de “revolução das mentes”? Seja como for, a nudez praticada ao ar livre em ambientes comuns – sem ser objeto de críticas – traz uma gama de benefícios aos seres humanos, a começar pela interação com a natureza, limpeza da alma, compreensão da simplicidade e, sobretudo, bem-estar do corpo. Sem sombra de dúvida, podemos afirmar que a nudez praticada ao ar livre é uma forma de medicina alternativa, voltada exclusivamente para a saúde, que associa o corpo à mente – e vice-versa. Todavia, pessoas há que consideram a nudez ao ar livre em ambientes comuns uma “prática imoral”, prevalecendo a liberação sexual, o despertar da libido, como se isso fosse crime inafiançável. Com efeito, se não temos a tolerância em toda a sua universalidade, então que façamos da nudez total a aceitação de si próprio, em comunhão com o próximo, em sintonia de sentimentos, e, em todas as reações, buscar o ideal nivelamento entre todas as pessoas, indistintamente. Somos iguais, portanto, uma regra imutável.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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