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Esportes

Sua majestade, a bola.

Sua majestade, a bola.

Se a bola pudesse falar, o que ela diria?

A princípio, falaria o seguinte:

“Parem de me bater, porque eu não sou mulher de malandro, que gosta de apanhar!”.

Vamos, então, imaginar que a bola tivesse realmente a faculdade de se comunicar com os amantes do futebol, torcedores e aqueles que trabalham em prol do esporte. Deixemos de lado a bola de vôlei Wilson, com a qual o personagem Chuck Noland, interpretado por Tom Hanks, falava no filme “O Náufrago” (Cast Away) durante o tempo em que permaneceu naquela maldita ilha perdida no meio do oceano Pacífico Sul. A bola de vôlei Wilson, no filme, desempenhou um importante papel de fiel e única companheira de Chuck – na sua mudez uma “ouvinte inseparável”, seu único meio de socialização para não ficar maluco.

Nesse sentido, o que a bola de futebol, sem ser atriz coadjuvante, nos diria mais?

“Eu tenho parentas próximas que atuam em outras quadras esportivas, mas é aqui no campo de futebol que eu me realizo, deixando 22 jogadores (onze de cada lado) enlouquecidos, correndo desesperadamente atrás de mim, outros tantos nos bancos de reserva aguardando a substituição dos titulares, sobretudo com um cartão amarelo. Os jogadores reservas não veem a hora de entrar em campo, jurando aos seus técnicos que gostam mais de mim, que saberão me tratar direito, ao contrário dos substituídos, a maioria por jogar mal – uns até não sabiam o que fazer comigo. Imagine só a bola atrapalhando o jogador”.

Continua a bola…

“Tratada como filha, o árbitro (autoridade suprema no gramado) me carrega debaixo do braço ao entrar em campo, carinhosamente me acomoda no círculo central e me dá um recado: ‘Não chore, fique quieta, aguente firme e faça o seu trabalho’. Os seus auxiliares só fazem observar, mas o ajudam a cometer grosseiros erros durante as partidas. Se eu falasse tudo aquilo que eles conversam dentro de campo seria um problemão. Ainda bem que não atribuem a culpa a mim, a coitada da bola, que nada tem a ver com isso”.

Continua a bola…

“Sou conduzida com extrema violência pelos jogadores durante os 90 minutos regulamentares, mais o tempo de acréscimo dado pelo árbitro. Aos chutes sou jogada de um lado pro outro, pra frente e pra trás. Quando estou parada – nas saídas de bola, nas cobranças de faltas, de pênaltis, dos escanteios, dos tiros de meta, nos chutes a gol –, aí eu levo pancadas mais fortes. Os dribles são mais românticos, fico um pouco tonta, só isso. Quando resolvo escapulir pelas laterais, só desse modo recebo um pouco de carinho por parte dos jogadores, que me devolvem ao campo com as mãos, ainda que para a continuidade do sacrifício. Quando o gandula, também chamado de apanha-bolas, tenta retardar a minha reposição para que o jogo tenha continuidade, corro o risco de ser maltratada mais ainda pelo time que tem pressa. Quando caio nos braços da torcida, torço para ser sequestrada. Quando dois, três ou mais jogadores partem ao mesmo tempo para cima de mim eu fico apavorada, sei que não vai dar boa coisa. A minha tia-avó, uma das bolas da Copa do Mundo FIFA de 1970, no México, foi aposentada por problemas de dores nas costas, ao ser chutada violentamente pelo capitão da Seleção Brasileira, Carlos Alberto Torres (O Capita), marcando o 4º gol na partida final contra a poderosa Itália em 21 de junho de 1970. O passe foi dado por Pelé. O Brasil venceu por 4 a 1, tornando-se tri-campeão mundial”.

Continua a bola…

“Na verdade eu não me importo com essas coisas. Tenho os meus próprios motivos. Eu sei me vingar. Quando o bicho está pegando eu dou uma de morta, suspiro forte, eu deixo escapar o ar dentro de mim e uma vez murcha eu sou substituída por outra bola, geralmente nova – coitada, não sabe o que lhe espera. Isto acontece quando estou cansada de apanhar em vão. E tem mais, confesso a vocês que sou eu quem provoca as faltas entre os jogadores, fora e dentro da área principalmente. Contusões, então, nem se fala. Não existe outra forma melhor de se vingar dos jogadores que dão mais valor aos bilionários contratos do que à prática do futebol como arte, sem pensar tão somente em dinheiro. No Brasil temos jogadores mascarados e mercenários. A safra está ruim!”.

Mas, você bola, não acha que esse seu lado é muito cruel?

“Tenho o meu lado bom. Às vezes eu me transformo em ímã. Explico. Grudo nos pés dos jogadores habilidosos e não saio, senão quando eles querem concluir os passes. Poucos têm a habilidade do argentino Lionel Messi. Permito-me brincar com os bons jogadores que têm o coração nos pés, que amam a camisa que vestem e que veneram os seus clubes; verdadeiros dançarinos que me batem no peito, dão chapéu no adversário, fazem-me passar por debaixo das pernas abertas e distraídas daqueles jogadores que supostamente lhes fazem marcação. Gosto imensamente dos jogadores que fazem gols de placa, aqueles fruto de competência – gols olímpicos são acaso. Gols de placa são raridade nos dias de hoje”.

Você, bola, pode dar um exemplo de “gol de placa” que ficou marcado na história do futebol?

“O ‘Gol do Lençol’ de Roberto Dinamite, pra mim o maior ídolo do Vasco. Esse foi o gol mais bonito da história do Maracanã, e do futebol brasileiro. Esse gol de placa foi marcado pelo Dinamite num jogo decisivo contra o Botafogo no Maraca pelo Campeonato Carioca de 1976 (Taça Guanabara, 1º turno, 13ª rodada). Era domingo, 09/05/1976, sob os olhares de um público de 39.232 pagantes, aos 45 minutos do segundo tempo, Dinamite lançou Zanata na direita, correndo para a área. Com precisão, Zanata cruzou a bola e Roberto, na altura da marca do pênalti, matou no peito, deu um lençol curto no zagueiro Osmar e, sem deixar a bola cair no chão, mandou pro gol, fuzilando o goleiro Wendell, marcando o gol da virada (2 a 1), os dois marcados pelo Dinamite. Naquele jogo histórico a minha mãe, já falecida, passou pelos pés dos jogadores do Vasco: Mazarópi, Gaúcho, Abel, Renê, Marco Antônio, Zanata, Zé Mário, Luís Carlos, Luís Fumanchu, Roberto Dinamite e Dé. Nego-me a falar no Botafogo. O árbitro da partida foi o folclórico Armando Marques. Fato interessante que mostra que a Globo um dia gostou do Vasco da Gama. Numa pesquisa virtual realizada pela TV Globo, em 25/01/2003, durante a transmissão do jogo entre América e Fluminense, o ‘Gol do Lençol’ de Roberto Dinamite foi apontado como o mais bonito da história do Maracanã, recebendo 39% dos votos. Daqui a pouco esse gol de placa completará 45 anos; de lá pra cá eu só tenho visto mediocridades no futebol, considerando tamanha falta de qualidade”.

Ei bola, ficou emocionada?

“Sou bola, simplesmente uma bola. Eu não posso me emocionar com os lances, nem interferir no andamento das partidas, tampouco nos resultados. Sou um mero instrumento de desejo dos jogadores, principais atores do futebol. Mas, convenhamos, sem mim, o futebol existiria? É triste saber que hoje ele está resistindo sem torcidas. De fato, as torcidas (não as organizadas) são o maior encanto dos estádios. Jogos sem elas não têm graça. As torcidas dão o verdadeiro espetáculo; bandeiras tremulando, hinos cantados, gritos que fazem as arquibancadas tremerem. São elas que empurram os times pra frente rumo à vitória – e também responsáveis pelas demissões dos técnicos de futebol. Eu não comentei isso lá atrás, mas, às vezes, eu interfiro discretamente nas partidas, dando uma ajudinha a quem precisa. Se recusar a contribuir com as jogadas não é crime. Saio de campo raspando a trave, não entro no gol em muitas cobranças de pênalti, permito-me fazer gol contra dando uma de traidora, corro de mais ou de menos em lances de impedimento com o apoio do vento e da pressa dos jogadores, enfim, sem falar que bato naquele montinho artilheiro desviando o meu rumo”.

Pô, e aí bola?

“E aí que são eleitos como ‘bola da vez’ o perna de pau do jogador, o burro cego do árbitro e seu quarteto. A cada partida se tornou obrigatório o tratamento romântico a eles dispensado pelas torcidas: Filho da puta, filho da puta. Agora no plural. E hoje, como devem ser tratados os árbitros de vídeo? Pelos meus pecados também pago um alto preço. Vez ou outra bato com a cara na porta, nas traves, que não me deixam entrar no gol nem por reza braba. Os torcedores se limitam a dizer ‘Uuuuuuuuu’, sem a mínima preocupação com o meu estado de saúde”.

Saudosismo, alguma coisa a falar sobre isso, bola?

“Eu tenho a mania de valorizar demasiadamente o passado. Talvez isso ajude a construir a história do futebol e mantê-la viva, algo pouco apreciado pelas novas gerações. Por isso que a mediocridade nos cerca, influenciando na não renovação de valores. A minha bisavó, a bola oficial nº 5 (adulto/profissional) era fabricada de couro, com os seus gomos costurados com linha grossa que chegava a marcar a pele dos jogadores, sobretudo nas cabeçadas. Em dias de chuva ficava encharcada, aumentando o seu peso, dificultando as jogadas e os chutes. Tenho saudades da minha prima pobre, a bola de meia, recheada com jornal molhado para dar melhor formato. Ouço histórias incríveis dos campos de futebol de várzea, localizados em terrenos baldios e utilizados por times amadores. As bolas surradas (porque não havia dinheiro para comprar novas) sofriam, rolando no chão de cascalhos, que fazia os meninos amadores perderem algumas unhas dos pés descalços – chuteiras um sonho distante, como ganhar uma bola como primeiro presente. Cicatrizes com marcas de felicidade”.

Nessa linha do saudosismo, pra você, bola, qual foi a melhor Seleção Brasileira de todos os tempos?

“Sem dúvida alguma, foram dois esquadrões, de 1958 e 1962. Fomos campeões do mundo pela primeira vez e quatro anos depois bi-campeões. Ali foi onde tudo começou, a arrancada vitoriosa, enterrando a derrota de 1950 no Maracanã para o Uruguai. Tempos difíceis, sem mídia, sem patrocínios, sem televisão, só existiam o patriotismo, o amor ao futebol, suor e sangue nas veias. Naquelas épocas tudo era mais intenso, mais bonito – o orgulho brasileiro estampado nos rostos, uma nação de verde e amarelo. Foi o começo de tudo. Vocês já ouviram o hino daquelas duas Seleções?”.

Jogadores na sua lembrança.

“Todos. Cada qual com seu estilo, com suas vitórias e derrotas. Como bola, eu estou no campo pra ser usada de acordo vontades e treinamentos. Contudo, citarei apenas quatro nomes de jogadores, que bastam para representar todos os demais. Pelé – Ele não tinha tradução nem interpretação; era simplesmente Pelé, único, absoluto. O seu 1000º gol da carreira foi marcado em 19/11/1969 no Maracanã, numa cobrança de pênalti no jogo contra o Vasco da Gama, dando a vitória ao Santos pelo placar de 2 a 1. O goleiro do Vasco, o argentino Andrada, quase defendeu o pênalti. Garrincha – ‘O Anjo de Pernas Tortas’. Foi considerado o maior driblador da história do futebol brasileiro. Didi – Foi eleito pela FIFA o melhor jogador da Copa de 1958. Especialista em bolas paradas, autor do chute conhecido como ‘folha seca’, provocando um efeito repentino na bola, que descai inesperadamente logo após o chute. Vavá – ‘Peito de Aço’. Foi um dos maiores artilheiros da Seleção Brasileira na história das Copas do Mundo. Vavá marcou 09 gols nas Copas de 1958 e 1962”.

Pra você, bola, quem foi o maior e melhor jogador de futebol de todos os tempos?

“Deixa pra lá”.

Palavras finais, bola.

“Eu continuarei igual, sempre a mesma bola para todos os times de futebol espalhados pelo mundo, sem distinção de qualquer espécie. Eu estarei sempre lá, nos campos de futebol, nos gramados, cumprindo a minha missão, de levar alegria às pessoas, de resgatar o orgulho e o espírito esportivo em competições limpas, de unir os povos pela força do esporte. Valeu a pena ser perseguida, chutada e maltratada pelos jogadores. Tenho me esforçado para não chorar, permaneci quieta, aguentei firme e realizei o meu trabalho da melhor maneira possível, dentro das possibilidades, ainda que os ‘Cartolas’ (dirigentes de clubes) não ajudem ou contribuam para um futebol isento. Aos narradores e comentaristas, com as suas particulares retóricas, verdadeiros criadores de adjetivos para renomear jogadores, atribuindo-lhes qualidades por vezes inexistentes, solicito encarecidamente que não me chamem mais de pelota. Vai começar o jogo; tenho compromisso. Até breve”.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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