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Fatos em Foco

Há 50 anos, eu estava aqui!

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Era manhã de uma quarta-feira, 01 de julho de 1970. Acabara de sair de serviço no Esquadrão de Polícia da Aeronáutica, no Galeão, Rio de Janeiro (RJ). Foi um plantão difícil dada as circunstâncias impostas pelo momento político que passava o Brasil, e, sobretudo pela aguda instabilidade provocada pelo terrorismo em todo o território nacional. O grau de alerta estava no seu ponto máximo.

Encontrava-me no alojamento principal do Esquadrão da PA, que ficava localizado no 2º piso, e me lembro que tentava abrir o cadeado (com segredo) do meu armário quando três toques da sirene foram ouvidos por todos. O procedimento, nesse caso, é entrar em forma do jeito que você está, se encontra, mas, devidamente armado.

Peguei a pistola Colt .45 que estava sobre o beliche, mais quatro carregadores com munição, passei no Material Bélico e me apossei de uma carabina M1A1 calibre .30, também com farta munição. Entrei em forma no momento em que um caminhão choque da PA estacionava no pátio. Os militares, selecionados pelo Tenente-coronel Amâncio (João Amâncio de Souza), tomaram as suas posições e rumaram para uma operação armada sem saberem o destino; revelado no trajeto. Eu estava naquele caminhão choque.

Na Estrada do Galeão, o caminhão entrou no portão da Base Aérea e eu logo imaginei “foi um sequestro de avião”. Confirmado. Treinados para a guerra – rádio conectado com o comando geral da operação –, descemos do choque e nos abrigamos nas valas laterais da pista do aeroporto onde se encontrava parado o avião Caravelle da empresa Cruzeiro do Sul.

A primeira ordem recebida, e executada com precisão, foi “esvaziar os pneus do avião com tiros intermitentes”. Na ação eu devo ter utilizado 05 carregadores da M1A1 Cal.30 com 15 munições cada um. Ouvindo os disparos, um dos sequestradores começou a atirar de dentro do avião em direção aos militares – os poucos projéteis ricochetearam na pista; nesse instante eu tive a sensação que um militar, do meu lado, fora atingido no braço, porque gritou e socorrido em seguida.

As horas foram passando e junto com elas as negociações não surtiam efeito. Reuniões e mais reuniões secretas aconteciam no alto comando da repressão ao sequestro com o propósito de definir as próximas ações – contatos com Brasília também foram feitos. Todos os militares de prontidão nos seus postos com as armas municiadas. Definida a estratégia operacional de abordagem, esperou-se o momento certo para agir, com firmeza e total segurança, em conjunto com o importantíssimo trabalho do corpo militar de bombeiros.

No meio da tarde os militares tentaram invadir o Caravelle da Cruzeiro do Sul pela parte debaixo da aeronave – vi o suboficial de Infantaria (nome de guerra Durval), que também servia no Esquadrão de Polícia da Aeronáutica, forçar uma possível entrada, eventualmente dando acesso ao compartimento de carga do avião. Vale ressaltar que, em nenhum momento, os militares perderam o controle da situação ou mesmo se deixaram levar pelo estresse e adrenalina – fato é que nós estávamos preparados física e psicologicamente para as horas que se seguiriam.

Os intensos treinamentos militares dos quais participávamos foram decisivos. Passageiros desesperados começaram a sair pelas janelas de emergência localizadas sobre as asas do avião e sobre elas escorregavam caindo no chão. Aqueles que, inconscientemente, optaram pela porta da frente tiveram uma queda maior em razão da altura. A ordem era abandonar o Caravelle a qualquer custo. Um cenário de completo pânico, que tornava a fuga da aeronave um procedimento nada fácil.

Um militar da Aeronáutica confundiu o humorista Renato Corte Real com um dos terroristas e aplicou-lhe uma coronhada. Eu cheguei a comentar: “Ei cara, você bateu no cara errado, esse aí é comediante da TV”. Já era tarde, Renato Corte Real, desfalecido, sangrava. Gritos, tiros, sangue. Daí pra frente temos que respeitar os códigos das corporações militares que resguardam determinadas informações como segredo de Estado. Os tempos eram outros.

O ano de 1970 foi o ano da Copa do Mundo de Futebol, o ano do tricampeonato brasileiro. Enquanto os brasileiros cantavam o hino “Pra Frente Brasil”, os militares cumpriam o seu papel. “Noventa milhões em ação. Pra frente, Brasil. Do meu coração. Todos juntos vamos. Pra frente, Brasil. Salve a Seleção! De repente é aquela corrente pra frente. Parece que todo o Brasil deu a mão. Todos ligados na mesma emoção. Tudo é um só coração! Todos juntos vamos. Pra frente Brasil, Brasil. Salve a Seleção! Todos juntos vamos. Pra frente Brasil, Brasil. Salve a Seleção!”.

A imprensa da época se encarregou de dar mais informações sobre esse frustrado sequestro aeronáutico.

Augusto Avlis

Nota: Abaixo, resumo de matéria jornalística da época.

1970 1º de julho – Sequestro fracassa na pista do Galeão.

Tropa de elite impede ação para libertar presos; militante é morto.

Quinze minutos depois de o avião Caravelle PP-PDX da Cruzeiro do Sul decolar do Rio de Janeiro com destino a São Paulo, quatro jovens obrigam o piloto a voltar para o aeroporto do Galeão. Os sequestradores eram integrantes do Comando Reinaldo Silveira Pimenta, nome dado em homenagem a um militante da Dissidência Estudantil de Niterói morto em 1969. Eles exigiam a libertação de 40 presos políticos e sua saída do país.

Em solo, o avião foi cercado por tropas especiais da Aeronáutica que, depois de esguichar espuma nas janelas para impedir a visão de dentro para fora, arrombaram a porta e invadiram a aeronave. Eiraldo Palha Freire, um dos sequestradores, foi baleado. Morreria uma semana depois. Os outros, Fernando Palha Freire, Jessie Jane Vieira de Souza e Colombo Vieira de Souza Júnior, foram presos e condenados a mais de 20 anos de prisão.

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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