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COVID-19 – Nona parte

COVID-19 – Nona parte

“Pessoas haverá no mundo que não levarão a sério a gravidade da pandemia; outras debocharão explicitamente dessa enfermidade epidêmica amplamente disseminada, achando-se totalmente imunes, certas de que não se deixarão atingir, ainda que o vírus não escolha as suas vítimas ou dê qualquer aviso prévio. Veremos maus exemplos sendo dados por autoridades governamentais em meio a crises políticas plantadas, enquanto, sob seus olhos, aumentam as estatísticas de cadáveres em todo canto do planeta”.

Augusto Avlis

Neste sábado, 16/05/2020, uma vizinha me interfonou dando a notícia que uma amiga nossa morreu naquela madrugada, vítima do COVID-19. Ela estava internada em estado grave no Hospital Estadual Dr. Jayme Santos Neves, maior hospital público do Espírito Santo, destinado 100% aos usuários do SUS (Sistema Único de Saúde) e referência no tratamento dos pacientes com Coronavírus. Mais um caso real para o aumento das estatísticas de mortes. Quando a desgraça acontece com desconhecidos, e, sobretudo, longe de nós, o sentimento de comoção é manifestado de uma maneira. Agora, quando se trata de uma pessoa próxima e do nosso convívio social, a coisa é bem diferente, parece nos atingir diretamente. Na medida em que o azar e a infelicidade se colocam bem ao nosso lado, tratamos logo de repensar alguns valores e nos perguntamos: será que isso vai acontecer comigo, ou com alguém da minha família? Na terça-feira, 24 de março de 2020, portanto, há 55 dias, eu escrevi o relato que se segue, preocupado com o crescimento exponencial da doença.

Esta situação toda está deixando os nervos à flor da pele. É como se o mundo, de uma hora pra outra, ficasse de cabeça pra baixo, e tudo caísse sobre nós de supetão – uma sensação tal qual experimentada pelos passageiros dum avião desgovernado rumo ao solo. Outros tipos de pânico são comuns em tempos de Coronavírus. Você chega ao supermercado e as pessoas lhe olham como se você estivesse contaminado, um risco potencial; umas desviam, mesmo tropeçando nas pilhas de produtos, outras tentam se proteger como podem. Você chega a casa e a sua mulher se nega a usar o mesmo copo no qual você acabou de beber um gole d’água. Pois bem, é estresse pra todo lado e pra todos os gostos; até no cachorro da família é provocado o aumento da secreção de adrenalina.

Na verdade, está todo mundo desorientado, sem saber o caminho a seguir e o quê fazer. Fato é que o despreparo para enfrentar essa situação que estamos vivendo tem levado o indivíduo a criar rotas de conflito com os outros e, o que é pior, consigo mesmo. Pessoas há que já pensaram em suicídio – umas até que conseguiram tirar a própria vida, antes que o vírus o fizesse. No “salve-se quem puder”, penso primeiramente em mim, depois em mim novamente, e, por fim, no meu semelhante; caso não puder ratificar o egoísmo pela terceira vez. Eu estou disposto a ceder a vez para quem tem pressa de morrer.

A cada dia que passa as relações interpessoais vão ficando cada vez mais prejudicadas em razão da perda de controle emocional. Esses sinais claros de fragilidade, simultaneamente, têm gerado outro problema de igual gravidade, tudo o que ocorre a partir disso se torna uma “gota d’água” para azedar a comunicação, contribuindo, desse modo, para o inevitável desequilíbrio comportamental. Gestos hostis dão o toque inicial nas agressões verbais. Todos nós, invariavelmente, estamos perdendo a noção do que é o certo e o errado sem nos darmos conta disso. Por acharmos “certo”, em atitudes intempestivas, culpamos as outras pessoas por tudo de errado que está acontecendo segundo nosso julgamento. Sem a mínima chance de voltar atrás, decisões tomadas são e estão sempre tomadas. Ponto. Impressionante o poder desse vírus! A sua letalidade vai além de simplesmente matar.

Pedidos de perdão, quando acontecem, são feitos discretamente e em menor intensidade, sob o olhar incrédulo por parte de quem foi alvo da agressão. O pior dos vírus que vem assolando a humanidade, sobretudo neste terceiro milênio da era cristã, é a intolerância. A intransigência das pessoas só as tem afastado, uma das outras, em sintonia mais aguda daquela oriunda do distanciamento social – seja ele recomendado ou imposto pelas autoridades desconexas.

Por conta do maldito Coronavírus (novo) a rotina do planeta Terra foi alterada, sobremaneira quebrada. Por outro lado, o tempo ora disponível decorrente da convocação “Fique em casa” não está sendo empregado – pelos adultos – em exercícios de reflexão, introspecção, ou coisa que o valha. Se crianças há dentro de casa certamente o Inferno está implantado. Num pano rápido, concluo que todos nós, em menor ou maior grau, estamos ficando um pouco loucos, aliás, muito loucos. A ponto de acreditarmos em curas milagrosas propostas por pastores canalhas, malucos líderes religiosos, que se aproveitam da situação para engordarem suas contas bancárias. A ignorância também é um mal do século, infelizmente, status quo explorado pelo personagem escatológico conhecido como Anticristo. O verdadeiro “Deus astronauta” observa tudo à distância sem se manifestar, enquanto brincamos nas varandas assistindo a lives de despreocupados artistas ou de pessoas comuns que tentam fazer palhaçadas para o nosso fugaz entretenimento.

Somos atletas por missão atribuída, campeões em diversas modalidades de “lançamento” – sim, de propelir sentimentos. Jogamos pra fora os nossos recalques, lançamos pra longe as nossas angústias, projetamos os nossos maiores problemas, as nossas emoções reprimidas colocamos numa gigantesca catapulta. Por que nascemos? Para vivermos. Por que vivemos? Para morrermos. Até a fechada definitiva dos olhos, ou até que cesse totalmente a respiração, o tempo se demonstra cruel pela sua efemeridade. Dessa vez não dá pra pular do barco com a chegada de fortes ventos.

Porém, ao nosso particular modo levamos a vida como se fôssemos eternos. Somos o que nós somos, cópias mal reproduzidas de outros indivíduos, semelhantes no que há de pior. Feixes de egocentrismos nos mantêm de pé como se ossos rígidos fossem. No “cotidiano normal” já negamos um pedaço de pão a quem passou pela fome, negamos um gole d’água a quem tinha os lábios cortados pela sede, e agora nos engajamos com pele lanosa em campanhas de solidariedade mostrando a identidade. Nos supermercados (atividade considerada serviço essencial) grandes caixas bem decoradas são colocadas em locais estratégicos exibindo sentimental mensagem com a finalidade de induzir os consumidores a nelas depositarem suas doações de produtos diversos, obviamente “comprados” naquela mesma loja que promove a colheita. Não tenho notícia de que as redes supermercadistas fizeram qualquer tipo de doação; só sei que faturaram bastante com a cobrança de preços abusivos aproveitando-se da desgraça alheia.

Em 07/03/2014, quando publiquei aqui no meu Blog, na categoria ‘Pensamentos’, a 10ª parte do artigo de título “Imaginação Sociológica”, assim eu o subscrevo: “Um ser sociológico é um ente só – a convivência afasta; a solidão aproxima”. Esta máxima está muito atual. Certo é que todo mundo está sofrendo por conta do isolamento. Todavia, cabe no contexto outro aforismo de minha autoria: “Sadi também estabeleceu um pensamento: ‘Usar de misericórdia com os maus é prejudicar os bons; perdoar os opressores é fazer mal aos oprimidos’. Depois de tudo aquilo que foi dito, esta frase soa paradoxal. Pode parecer ironia, todavia, em certos casos, é preferível trocar as batatas por pedras – a despeito do seu maior peso, não ficarão podres e, portanto, não exalarão mau cheiro – e as quais poderão ser carregadas pelo resto da vida. Mas, se formos parar pra pensar, o fardo mais pesado são as lembranças, o exame que cada um faz de si mesmo, e o maior castigo, não é suplicar perdão, e sim, sentir remorso”. Excerto da 7ª Crônica, de título “Livre-se do peso”, por mim publicada na categoria Crônicas aforísticas, em 28/03/2012.

Temos pouco a viver daqui pra frente; quanto tempo mais nós não sabemos. A “desconexão” deste mundo uma realidade. Estamos em completo processo de lockdown conosco mesmo, independente de quem esteja do nosso lado. Haverá espaço para remorso ou aproximação? Talvez, dependendo do nível de lucidez que teremos até a fechada definitiva dos olhos, ou até que cesse totalmente a respiração.

De 24 de março de 2020 pra cá as coisas só pioraram; muitos dos que estavam vivos morreram e você reza todo dia para não ser a próxima vítima do COVID-19. Não nos esqueçamos de que o imponderável pode nos pegar de surpresa.

Augusto Avlis

Navegue no Blog  opiniaosemfronteiras.com.br e você encontrará 974 artigos publicados em 16 Categorias. Boa leitura.

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

2 comentários sobre “COVID-19 – Nona parte

  1. Amigo!
    Muito já se falou do vírus. Tem muita coisa q vc escreveu e eu concordo. Mas tenho q acrescentar q muitos não morrem do vírus,apenas estão botando no óbito como de fosse. O mundo sempre enfrentou qdes epidemias. Morreram milhares de pessoas e continuam a morrer por “n” motivos. Hoje ainda temos várias como a tuberculose, a hanseníase, dengue,etc… O melhor remédio é vc estar com o pensamento na positividade. Ficar no amor e na energia positiva é o melhor remédio. Se vc não está com sua imunidade baixa nada te pega.
    Observa q as pessoas estão usando máscaras e fazendo mal a elas mesmas. Deixam de respirar o oxigênio para respirar e aspirar o gás carbônico através das máscaras provocando seguelas em seus pulmões.
    O q será destas pessoas!
    Se cuidar sim, mas pensamento positivo é o melhor remédio. Toda doença já vem com seu destino, nós q temos q saber o q estamos fazendo para contribuir com a cura ou o caos. Forte abraço.

    Publicado por nair oliveira santos | 20/05/2020, 02:22
    • O mundo presenciou diversas desgraças naturais ao longo da sua história, que produziram milhões de mortes. Pergunto: Será que Deus tem mais competência em “matar” do que os humanos? Seja como for, há sinais claros do que ainda está por vir, por isso, lança-se o desafio para os “Profetas do Apocalipse”. Enquanto isso, os seus “Quatro Cavaleiros” cavalgam sobre a Terra.

      Publicado por augustoavlis | 20/05/2020, 09:12

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