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Política

Deixemos o passado quieto

Deixemos o passado quieto

Quem cascavilha o passado pode encontrar algo que não deseja. Prova que os mais velhos (experientes) são sábios quando falam isso. Temos muito que aprender com eles. As pessoas que testemunharam com certo grau de compreensão o dia 31 de março de 1964 – e eu fui uma delas – hoje são consideradas velhas. É assim que somos tratados. Às vezes nos calamos para não nos aborrecermos com certos indivíduos que duvidam de tudo, que questionam sem fundamento, que não se interessam pela correta versão dos fatos. Viver os acontecimentos nem sempre é o passaporte que torna o relato inquestionável.

Uma loja da rede Mercearias Nacionais, localizada na minha Rua no Rio de Janeiro (Major Conrado), quase foi saqueada pelo povo, depois que a notícia da escassez de alimentos se espalhou. Eu presenciei caminhões do Exército distribuindo feijão, arroz, açúcar, leite e demais itens da cesta básica – as pessoas enfrentavam enormes filas no sol e na chuva, inclusive eu, minha mãe e irmãos. Passada essa primeira ventania, a população brasileira pôde finalmente experimentar a sensação de segurança. No trabalho, eu recebia o pagamento em espécie dentro de um envelope; colocava-o no bolso e nunca fui assaltado. Lanchava em qualquer lugar, pegava o bolo de dinheiro do bolso e pagava a conta e nunca sofri violência armada. Andava nas ruas sem olhar pra trás. Bandido respeitava a polícia; as favelas existiam com o seu particular romantismo. Enfim, cenas completamente dissonantes dos dias atuais. Quem viveu aquela época não viverá jamais. É certo que tivemos que pagar um preço por tudo isso.

Sem hipocrisia, você prefere o Brasil de hoje, que perde anualmente cerca de R$ 200 bilhões com esquemas de corrupção? Você prefere o Brasil que enaltece e premia os criminosos de colarinho branco? Você prefere o Brasil onde as Leis apenas funcionam em desfavor dos pobres que não podem pagar advogados? Você prefere o Brasil onde a impunidade virou dever de ofício para a Justiça? Você prefere o Brasil sem ensino de qualidade, sem segurança pública, sem saúde? Você prefere o Brasil que não garante o futuro para os seus filhos e netos? Que Brasil você quer?

No ano que Jair Bolsonaro se formou aspirante na AMAN (Academia Militar das Agulhas Negras), 1977, eu já me encontrava há seis anos desligado da Força Aérea Brasileira (FAB) por pedido antecipado de baixa (Artigo 150). Leia-se: Decreto nº 57.654 de 20 de Janeiro de 1966. “Regulamenta a Lei do Serviço Militar (Lei nº 4.375, de 17 de agosto de 1964), retificada pela Lei nº 4.754, de 18 de agosto de 1965. Art. 150. Às praças engajadas ou reengajadas com mais de metade do tempo de serviço, a que se tiverem obrigado, será facultado o licenciamento, desde que o requeiram e não haja prejuízo para o Serviço Militar. § Único – Não são amparadas por este Artigo as praças que concluírem cursos com aproveitamento e das quais se exigiu, previamente, o compromisso de permanecerem no serviço ativo por determinado tempo”.

Vi colegas de farda sendo mortos por guerrilheiros, eu presenciei muitas atrocidades praticadas por grupos terroristas, sobretudo no período compreendido de 1968 a 1971. A ex-presidente Dilma Rousseff, por exemplo, ativa participante da luta armada promovida pelas organizações de extrema-esquerda VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares) e COLINA (Comando de Libertação Nacional), cometeu muitos crimes contra o país e contra os brasileiros dos quais citamos: No COLINA, praticou pelo menos três assaltos a banco e um atentado a bomba, organizou células de militantes, foi encarregada de distribuir dinheiro aos grupos, chefiou greves, assessorou diversos assaltos a bancos – ações também desempenhadas direta e indiretamente na VAR-Palmares, entre outras, inclusive participou de assassinatos, ações terroristas diversas, sequestros políticos, sequestros de autoridades, sequestros de aviões. Escreveu um procurador na denúncia oferecida pelo Ministério Público Militar (MPM) contra Dilma Rousseff: “Dilma é a Joana d’Arc da subversão. É figura feminina de expressão tristemente notável”. Às vezes nos calamos para não nos aborrecermos com certos indivíduos que duvidam de tudo, que questionam sem fundamento, que não se interessam pela correta versão dos fatos. Dilma Rousseff se tornou presidente da República e foi reeleita. Que Brasil você quer?

Com muito orgulho eu servi no Esquadrão de Polícia da Aeronáutica (Base Aérea do Galeão, Rio de Janeiro/RJ) por um período considerável. Lições de patriotismo dadas pelo capitão reformado estão muito aquém das missões que eu cumpri nos momentos de extremos perigos, portanto, sinto-me a cavalheiro para externar o que eu penso. Bolsonaro não faz a mínima ideia das experiências pelas quais eu passei e que estão muito vivas na minha memória. Neste ano eu comemorei os meus 50 anos de incorporação. Bolsonaro precisa tomar cuidado quando se refere ao “Movimento de 64”. Quem duvida? O melhor é deixarmos o passado quieto. Muitos dos fatos históricos (de 1964 a 1985) desceram silenciosamente às sepulturas junto com os heróis anônimos, e jamais serão contados.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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