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Política

Continuamos nos porões

Continuamos nos porões

A minha casa no Rio de Janeiro tinha um porão. A casa e o porão foram construídos pelos meus avôs portugueses no início do século passado, isso por volta dos anos 20. Ainda criança eu descia várias vezes ao dia uma escada de madeira que me levava ao porão da casa – foi lá dentro que eu me masturbei pela primeira vez e quis comer a prima Genilda e a filha da vizinha Jurema, mas isso não vem ao caso agora. Com notada curiosidade, eu constatei que o porão ficava praticamente um andar abaixo do piso da casa, um espaço debaixo da terra que a família usava para guardar móveis velhos, caixotes com livros, roupas e objetos em desuso, carvão, madeira, etc – local onde o meu avô escondia as suas caixas de charutos e garrafas de bebidas; na condição de neto e afilhado, só eu sabia o esconderijo certo.

Brasília tem um “porão virtual” onde guarda sujeiras das mais variadas. Entra presidente, sai presidente, e o volume de lixo só aumenta. O porão está prestes a romper a qualquer momento pelo volume de coisas inservíveis nele colocado – as empresas de mineração Vale e Samarco, estão com inveja. Nenhum político de carreira consegue esvaziar o porão, retirar o seu conteúdo, o seu entulho. Aliás, ninguém dos três Poderes da República (verdadeiras fábricas de inutilidades) se habilita a fazer isso.

Eu falei pra deixarem os esqueletos dentro do armário, mas não me escutaram. Agora vem o Palácio do Planalto divulgar vídeo que torna grandioso o “Movimento de 64”. O material, divulgado ontem, domingo, 31 de março, via aplicativo de mensagens de celular da Secretaria de Comunicação da Presidência e encaminhado a jornalistas. Só aí já é merda suficiente que não cabe no porão de Brasília. A oposição está se mobilizando para sentar o pau no governo. No vídeo aparece um senhor, com aparência de sexagenário, narrando o texto colocado abaixo deste parágrafo. Segundo fonte fidedigna, o respectivo senhor ainda não identificado (com 01 minuto de fama) irá recorrer à Lei n.º 3.270, conhecida como Lei dos Sexagenários (Lei Saraiva Cotejipe), promulgada em 28 de setembro de 1885, que garantia liberdade aos escravos com 60 anos de idade ou mais, cabendo aos proprietários de escravos a devida indenização, que deveria ser paga pelo escravo liberto, sendo, portanto, este obrigado a prestar serviços ao seu ex-senhor por mais três anos ou até completar 65 anos de idade. O senhor, com aparência de sexagenário, prefere assumir esse ônus a ser preso pela oposição, além disso, afirmou que não trabalhará mais para o presidente Bolsonaro – jurou, ainda, contar tudo na CPI dos Velhos.

“Se você tem a mesma idade que eu, pouco mais, pouco menos, sabe que houve um tempo em que o nosso céu, de repente, não tinha mais estrelas, e outros, nem nossa vida, em nossos campos de bosques, mais flores e amores. Se você é jovem, já deve ter ouvido isso dos seus pais, mas, se você quer mais detalhes, quer depoimentos, quer ter certeza de que isso é verdade, faça uma pesquisa, consulte os jornais, revistas, filmes da época. Você vai ver, era assim, um tempo de medo e ameaças. Ameaças daquilo que os comunistas faziam, onde era imposto sem exceção, prendiam e matavam os seus próprios compatriotas. Havia sim, muito medo no ar, greve nas fábricas, insegurança em todos os lugares. Foi aí que, conclamado por jornais, rádios, TVs, e, principalmente pelo povo na rua, povo de verdade, pais, mães, igreja, que o Brasil lembrou que possuía um Exército Nacional, e apelou a ele. Foi só aí que a escuridão, graças a Deus, foi passando, passando, e fez-se a luz. A bandeira verde e amarela voltou a tremular, e o medo deu lugar à confiança no futuro. O Exército nos salvou! O Exército nos salvou! Não há como negar, e tudo isso aconteceu num dia comum de hoje, um 31 de março. Não dá pra mudar a história”. Voz-off: “O Exército não quer palmas nem homenagens. O Exército apenas cumpriu o seu papel”.

Um papel confiado, que a Democracia, infelizmente, não soube cumprir até agora. A corrupção sistêmica e endêmica, que está arraigada nas nossas Instituições, tem matado muitos brasileiros por falta de hospitais, leitos e remédios; tem deixado milhões de pessoas sem teto e sem comida; pela falta de segurança pública, tem ajudado a matar milhares de trabalhadores e inocentes, permitindo que os bandidos apertem os gatilhos das suas armas; pela falta de educação, a corrupção tem reduzido esta geração à condição de massa de manobra do sistema; a corrupção democrática tem matado a esperança do nosso povo.

Por que, meu Deus, o senhor deixou que morressem 471 militares brasileiros na Segunda Grande Guerra (450 praças, 13 oficiais e 08 pilotos)? Por que, meu Deus, dos 25.334 combatentes convocados para compor a Força Expedicionária Brasileira (FEB), só morreram 471? Por que, meu Deus, no período do Regime Militar, entre mortos e desaparecidos, foram contabilizadas 434 pessoas? Por que, meu deus, as Forças Armadas estão contestando esse número? Por que, meu Deus, a “Comissão Nacional da Mentira” não fala a verdade? Por que, meu Deus, ninguém dá a estatística do número de militares e pessoas inocentes mortas pelas guerrilhas e grupos revolucionários no período da Ditadura? Por que, meu Deus, o senhor deixou que 19 pessoas morressem e 01 ficasse desaparecida no rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), em 05/11/2015? Por que, meu Deus, o senhor permitiu que os dirigentes da Samarco Mineração ficassem impunes até agora? Por que, meu Deus, o senhor deixou que 217 pessoas morressem e 87 ficassem desaparecidas no rompimento da barragem da mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), em 25/01/2019? Por que, meu Deus, o senhor permitiu que os dirigentes da Mineradora Vale ficassem impunes até agora? Por que, meu Deus, o senhor não reduz o número de mortes violentas no Brasil, de 60.000 por ano para 06? Por quê? Por quê? Por quê?

Tem muita gente falando o que muito bem entende para um público desinformado; tem muita gente dando opinião pessoal sem conhecer o assunto; tem muita gente se omitindo; tem muita gente colocando lenha na fogueira; tem muita gente calada fingindo-se de morta. Juntando toda essa “mão de obra” disponível, inútil para uma coisa, poderia ser útil na limpeza e arrumação do porão de Brasília.

Nota de rodapé: Por motivos óbvios, não anexei o referido vídeo ao corpo desta matéria. Preferi colar o texto escrito na sua integralidade, segundo as palavras faladas pelo senhor sexagenário.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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