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Política

Nos porões da ideologia

Nos porões da ideologia

Uma obra que não está terminada. De mesmo título, parei de escrever este livro na década de 80, mais precisamente em 1985. O governo militar já tinha acabado. O Brasil encontrava-se no rescaldo – período que se seguiu ao “Movimento de 64”, cujos efeitos ainda se faziam sentir na sociedade. Nos porões da ideologia; um projeto de livro-verdade que tinha como proposta reunir histórias, depoimentos e fatos vivenciados por militares, sobretudo no Regime de Exceção. “Os comunistas comem crianças” – uma frase dita por um suboficial de Infantaria da Força Aérea Brasileira (FAB) quando treinava uma turma de recrutas em 1969, dentro do Esquadrão de Polícia da Aeronáutica, no Galeão, Rio de Janeiro, que me fez parar para pensar. A história está repleta de contradições, e dela fazem parte.

A maioria das praças (soldados rasos, militares que não têm patente de oficial), aqui incluídos os sargentos nas suas três categorias (3º, 2º e 1º), não sabia realmente o significado de Regime Comunista, tampouco o que estava acontecendo no país por falta de informações detalhadas. Um contingente expressivo de praças que se submetiam a ordens das mais diversas, a despeito da obediência a regulamentos disciplinares das Forças Armadas (A FAB tinha o seu, o RDAER – Regulamento Disciplinar da Aeronáutica). O respeito era o principal qualificativo pessoal. Com ou sem as suas respectivas fardas, agentes secretos infiltrados nas tropas encarregavam-se de apontar possíveis ameaças ao sistema – militares que se revelavam simpatizantes do comunismo, que se identificavam com aquela modalidade de governo totalitário.

Colocar as mãos em armas (e usá-las), este foi o pecado capital cometido pelas guerrilhas e pelos movimentos insurgentes, sobretudo durante os “Anos de chumbo” – período considerado o mais repressivo da “Ditadura Militar no Brasil”, marcado do fim de 1968 (com a edição do Ato Institucional nº 5, AI-5, no governo do presidente Artur da Costa e Silva) até o final do governo do presidente Emílio Garrastazu Médici, ocorrido em 15 de março de 1974. É aquela máxima: “Chumbo se combate com chumbo”. Verdade é que vivíamos no Brasil um clima de guerra, sem tratados ou acordos; as guerrilhas e movimentos insurgentes tinham como viés: forte oposição ao Regime Militar e a libertação do Brasil com a implantação do Socialismo, o que chamavam de “Revolução Marxista-Leninista”. As esquerdas (extremas) estavam ouriçadas. O tal “Movimento Nacionalista Revolucionário” carecia de planejamento tático e de comando, fatores que contribuíram, sobremaneira, para que determinadas ações fossem mal executadas. O seu mais importante meio de oposição foi a luta armada no campo e na cidade; daí a forte repressão por parte do governo constituído. Um bando de maltrapilhos resistia como podia.

A história está repleta de contradições, e dela fazem parte. Os intelectuais que aderiram à causa revolucionária deveriam ter ministrado palestras aos guerrilheiros e insurgentes sobre os acontecimentos da Guerra dos Farrapos, ou Revolução Farroupilha, ocorrida na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, de 20 de setembro de 1835 até 01 de março de 1845. O conflito teve como desfecho a vitória militar imperial.

Aniquilamento do Regime Militar, luta armada, ações de guerrilha, sequestros, roubos, assaltos a bancos e propriedades privadas, invasões de quartéis, assassinatos, esses foram alguns objetivos de grupos como: Vanguarda Popular Revolucionária (VPR); Política Operária (POLOP); Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR); Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-PALMARES); Comando de Libertação Nacional (COLINA); Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8); Dissidência Comunista da Guanabara (DCG) e Ação Libertadora Nacional (ALN), que usava como slogan na sua bandeira “Trabalhador, arme-se e liberte-se”. Você, trabalhador brasileiro, gostaria que os militares ficassem sentados nas cantinas dos quartéis assistindo a partidas da Seleção Brasileira de futebol?

Na manhã do dia 31 de março de 1964 eu acordei na minha casa no Rio de Janeiro (Rua Major Conrado, Cordovil) percebendo que algo mudara radicalmente. Canhões perfilados seguiam em frente, comboios do Exército carregavam soldados armados, aviões B-25 Mitchell e B-17 Flying Fortress da FAB cortavam os céus. O Brasil era outro. De cima de uma caixa d’água eu presenciava tudo – eu tinha 14 anos.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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