>
Você está lendo...
Polícia e Segurança Pública

A droga das drogas

A droga das drogas

O tema por nós escolhido para ser discutido pós-jantar do último domingo, 17/02/2019, foi a recente transferência de 22 presos de alta periculosidade para penitenciárias federais, dentre eles Marcola, chefe de facção criminosa de São Paulo. Na conversa estavam os meus dois filhos e esposas, minha mulher e um casal de amigos. Uma cena rara hoje em dia, a começar pelo jantar em grupo, depois pela dificuldade de reunir pessoas em torno de um assunto de interesse comum e, por fim, o que seria impensável, o espontâneo descarte dos celulares junto com o maldito WhatsApp.

A transferência dos presos ocorreu na quarta-feira passada, 13/02/2019, depois que os governos de São Paulo e federal descobriram um audacioso plano de fuga que estaria prestes a ser implementado na Penitenciária 02 de Presidente Venceslau e em Presidente Bernardes, no interior de São Paulo, onde estavam esses 22 presos, todos integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital). Segundo o G1, portal de notícias da Globo, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e mais 21 integrantes de uma facção criminosa foram levados para presídios federais em Brasília, Mossoró (Rio Grande do Norte) e Porto Velho (Rondônia). Marcola, chefe de uma facção criminosa de São Paulo, foi levado no final da noite para o presídio federal de Porto Velho (RO). O prazo de permanência nos presídios federais é de 360 dias. Nos primeiros 60, os integrantes da facção ficarão no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), em cela individual e com limitação a horário de banho de sol e de direito a visitas. A transferência de integrantes do PCC ocorre após o governo de São Paulo ter descoberto um plano de fuga para os chefes e ameaças de morte ao promotor que combate a facção no interior de São Paulo. A facção atua dentro e fora dos presídios brasileiros e internacionalmente. Segundo o governo de São Paulo, a operação estava sendo planejada em sigilo desde o fim do ano passado. Por volta das 7h50, todo o trânsito de acesso ao Aeroporto Estadual de Presidente Prudente foi fechado para a operação de transferência. Os presos saíram da penitenciária às 8h30 em carros da Secretaria de Administração Penitenciária (SAP). Policiais militares das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), que estavam em Presidente Venceslau desde 5 de outubro de 2018, deram escolta aos carros da SAP. Dois aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) pousaram por volta das 9h no terminal da cidade. O comboio chegou 20 minutos depois. Após o embarque dos detentos as duas aeronaves decolaram em direção a Brasília”.

O PCC se criou, se fortaleceu e se tornou uma gigantesca organização criminosa através do “livre comércio das drogas”, cuja produção e tráfico sempre foram defendidos com destacada violência pelos seus fiéis membros. O Estado brasileiro não conseguiu combater o crescimento desta facção (e de outras), muito pelo contrário, intimidado, omitiu-se o tempo todo, fechou os olhos e permitiu que atrocidades fossem cometidas desde a fundação do PCC em 1993, tais como assassinatos, assaltos, tráfico de drogas, extorsão, rebeliões e atividades terroristas. A rigor, a maioria dessas ordens partiu de dentro dos presídios. A meu sentir, a falência das Instituições brasileiras começa a partir daí, com autoridades compactuando com toda sorte de crimes, sobretudo quando se comprova que muitas campanhas políticas em vários níveis foram e são financiadas com dinheiro sujo proveniente dessas organizações criminosas. Na outra ponta, com o consumo de drogas estimulado de forma crescente, verificamos o agravamento da situação. A população de bem, absolutamente estarrecida, observa impotente, no aguardo de novas vítimas – pessoas rezam para que não sejam elas as próximas. Entra governo e sai governo e a situação sempre com tendência a piorar.

A propósito, o meu filho mais novo pediu licença para abrir o seu notebook e fez questão de resgatar um texto de sua autoria, datado de Vitória (ES), segunda-feira, 30 de maio de 2005, em resposta à coluna Fórum do Leitor de um importante jornal da capital capixaba. A pergunta colocada no veículo foi a seguinte: Você acha que os pais têm como impedir que os filhos se envolvam com drogas? Meu filho respondeu: “Tudo é um processo. Eu tenho 20 anos, 14 dos quais vivi dentro dos padrões de uma família de classe média alta e, há seis anos, o nosso padrão de vida teve uma queda brusca com a aposentadoria do meu pai, que hoje nos mantém com uma renda de apenas 10% do seu último salário. Terminei o ensino médio em escola pública e fui forçado a abrir mão da matrícula na UVV por falta de dinheiro. Atualmente estou desempregado. Outras desventuras ajudaram a pintar o quadro do meu status quo. Motivos suficientes não me faltam para me qualificar um jovem revoltado e, quem sabe, mais um candidato em potencial para ingresso no funesto clube dos consumidores de drogas. Cada vez mais difícil está se tornando viver com responsabilidade porque somos cercados de maus exemplos, quer sejam do grupo de convívio, da sociedade, das empresas, da política, enfim, do Governo. Vejo gente consumindo drogas na minha frente por razões que a própria razão desconhece, e confesso que nunca me senti atraído a entrar nessa onda, até porque não preciso construir uma falsa e efêmera realidade. O desânimo e a descrença geral têm levado muitos jovens a mergulhar num processo de substituição, onde aflora a necessidade do preenchimento de um vazio interior e essa sensação de que falta alguma coisa os obriga a buscar alternativas para a satisfação do seu ‘real imaginário’. A acessibilidade ao cardápio das drogas é um fato. Eu noto que a ‘pressão positiva’ que os pais dos nossos pais exerciam sobre eles não é a mesma exercida pelos pais da maioria dos jovens de hoje. A figura participativa do pai é indispensavelmente agregadora, a da mãe, contemplativa. O que falo em casa tem ressonância, não preciso de alto-falante nas ruas. Talvez, o que esteja faltando aos jovens é um ombro fraterno, amigo, ouvidos para ouvi-los, bocas para aconselhá-los no momento certo, braços abertos para recebê-los com carinho e, sobretudo, a declaração: Meu filho, eu amo você!”. 

Waldir Paiva Mesquita disse: “É importante comentar e debater as drogas. Não podemos fazer de conta que elas estão fora de casa”. É hipocrisia achar que jamais o problema das drogas atingirá um membro da nossa família, e que tudo de ruim só acontece com os outros. Porém, essa situação embaraçosa pode ser evitada, basta que os adolescentes não se sintam órfãos de pais vivos e que a troca de informações não seja interrompida pela falta de diálogo. A desatenção da família; más companhias; influência do grupo; para ganhar mais coragem; para fugir da realidade; não querer assumir responsabilidades; por covardia de encarar a vida como ela é; para ser diferente; querer aparecer; para não enfrentar os problemas de frente; afrontar os pais e o grupo social; por rebeldia; para protestar de alguma coisa; por ideologia barata; enfim, por má formação e educação, são argumentos que se transformam em álibis. Existem dois outros motivos. Primeiro, a impunidade, que torna o indivíduo impune e que o faz escapar da punição; segundo, a liberalidade, onde os seus conceitos são absolutamente contrários à imposição de limites, de regras de conduta, de valores éticos e morais – o indivíduo faz o que quer e quando quer. Os pais têm como impedir que os seus filhos se envolvam com drogas, desde que assumam os seus papéis de fato e de direito, porque outros males maiores os aguardam: o tráfico, por decorrência, e a overdose, por prazer consumado.

Augusto Avlis

Navegue no Blog  opiniaosemfronteiras.com.br e você encontrará 927 artigos publicados em 16 Categorias. Boa leitura.

Anúncios

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts.

Junte-se a 154 outros seguidores

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: