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Política

Conversando com Deus

Conversando com Deus

– O que foi que aconteceu meu Deus, Pai, Todo Poderoso?

Aconteceu o quê?

– Essa catástrofe lá de Brumadinho, em Minas Gerais!

Ah! Sei. Uma cidadezinha localizada no Vale do Paraopeba, hoje com uma população em torno de 40.000 habitantes dentro de uma área de 639,4 km² que eu, seu Pai, Todo Poderoso, mandei construir com todas as belezas naturais recomendadas pelo arquiteto do universo, e que vocês, meus filhos, fundaram como Município de Brumadinho no dia 17 de dezembro de 1938, elegendo São Sebastião como padroeiro-testemunho.  

– Deus, eu não estou me referindo sobre isso, só queria saber se o senhor poderia ter evitado o rompimento da barragem nº 1 da mina Córrego do Feijão (mineradora Vale), ocorrido no início da tarde da sexta-feira, 25 de janeiro de 2019, provocando um gigantesco mar de lama que destruiu tudo pela frente?

Conforme eu estava dizendo, as belezas naturais da região são inúmeras, basta olhar para o Maciço do Espinhaço (Serra do Espinhaço), para o Tabuleiro do Oeste, Parque Estadual da Serra do Rola-Moça, Serra da Moeda, Veredas do Paraopeba, Córrego do Feijão, distrito de Casa Branca. Como Deus, eu não costumo batizar as minhas criações, deixo isso para os humanos, com a sua particular competência, criaturas mortais que criaram outros tipos de riquezas sem a minha permissão.

– Mas, Deus, meu Pai, eu não posso acreditar que o senhor esteja tão insensível diante de tanta desgraça, não sinta dor e tristeza, não demonstre compaixão e espanto!

Quando habitei a Terra com seres humanos, uma das primeiras coisas com que me preocupei foi dar-lhes o “livre-arbítrio”, sim, a possibilidade de decidirem em razão da sua própria vontade, sem interferências ou causas. O poder de escolha sempre vem carregado de um preço a pagar pelas decisões tomadas. Arcar com as consequências nem sempre obedece às regras naturais.

– Deus, é muito provável que o número de vítimas fatais do rompimento da barragem chegue a 400. Quatrocentas almas que já devem estar aí nos Céus, desesperadas pela morte prematura e totalmente desorientadas. Que o senhor, meu Pai, as receba de braços abertos, consolando-as.

O meu nome foi rogado, muitas das vezes em vão, principalmente no início da colonização da região, quando os insubordinados (rebeldes) da Guerra dos Emboabas se dirigiram para lá fugindo do jugo dos senhores da Corte, mas, com o objetivo primeiro de garimpar ouro livremente, sem o pagamento dos elevados tributos à Coroa Portuguesa. As histórias se sucedem; a conquista da riqueza e do lucro a qualquer preço faz vítimas – e continuará fazendo.

– Deus, aquela região nunca será a mesma, as pessoas jamais esquecerão o triste episódio, as circunstâncias do evento. As famílias das vítimas choram os seus mortos e desaparecidos; a natureza sofre indefesa.

Digo que as belezas naturais criadas por mim estão sendo destruídas impiedosamente pelas mãos dos homens, em nome da ganância financeira e do poder econômico. Não há a mínima preocupação com o meio ambiente e sua obrigatória preservação, não existe compromisso com a qualidade de vida das pessoas, não há planos de contingência que possam corrigir os erros. Não há presente, nem futuro. A principal base econômica da região afetada sempre foi sustentada pela atividade da mineração. A Vale S.A. mantém a hegemonia, com a cooptação do poder público, e, como Deus, deixo que as escolhas sejam feitas respeitando-se o livre-arbítrio. Nesse caso, não existe vontade política terrena, tampouco proteção divina. As coisas têm que ser como são, porque são provocadas. 

– Deus, meu Pai, fazer o quê?

Sentar, chorar, contabilizar os mortos (homens, fauna e flora, bacias hidrográficas), tentar sobreviver, encontrar o caminho do aprendizado, procurar entender que não haverá terceira chance ou outro lugar para o qual fugir e se esconder. Aparecerão santos salvadores de carne e ossos; culpados serão apontados como satisfação a dar à sociedade; outros desastres piores acontecerão que farão os homens se esquecerem dos anteriores.  

– Deus, meu Pai, nós já tivemos, três anos faz, o exemplo do rompimento da barragem de rejeitos de mineração de Fundão, em Bento Rodrigues, município de Mariana (MG), ocorrido na tarde do dia 05 de novembro de 2015, causando 18 mortes e 01 pessoa desaparecida. Além de ser considerado o maior desastre que provocou o maior impacto ambiental do Brasil, e do mundo, envolvendo barragens de rejeitos da exploração de minério. Um total de 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos foram despejados na natureza. Samarco Mineração S.A., Vale S.A. e a empresa anglo-australiana BHP Billiton exploravam a atividade de mineração, sendo que até hoje não foram punidas como deveriam e ninguém foi identificado como responsável. O fato é que a lama de rejeitos chegou ao Rio Doce, cuja bacia hidrográfica concentra 230 municípios dos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo (abastecidos com a água desse rio), e teve destino o mar de Regência, litoral norte do Espírito Santo. Segundo ambientalistas, os efeitos catastróficos dos rejeitos de minério no mar continuarão por mais um século. A vida marinha, também atingida, sofre silenciosamente.

Fiz os homens segundo semelhança e imagem, senhores do seu próprio destino. Talvez não haja arrependimento no mundo espiritual – não, não há. Aí na Terra, belo planeta azul visto de cima, corre-se atrás dos prejuízos por costume, perde-se precioso tempo, a lei de causa e efeito sofrendo mutações de acordo conveniências. Todos os acontecimentos da Terra ficam registrados aqui em cima, portanto, como Deus, Todo Poderoso, eu destaco um deles. Nos meses de janeiro e fevereiro de 1979 os Estados de Minas Gerais e Espírito Santo sofreram as maiores enchentes da sua história, após um longo período de fortes chuvas. Este evento foi o maior desastre natural até então registrado naquelas regiões, com um total de 74 vítimas fatais, 47.776 desabrigados e 4.424 residências atingidas. Danos ambientais e materiais incalculáveis sem aparentes explicações ou justificativas. Várias estradas e pontes totalmente destruídas; inundações generalizadas (foram inundados 36 km de trechos da Estrada de Ferro Vitória a Minas – EFVM, paralisando o tráfego de trens por duas semanas, e consequente interrupção da extração e escoamento do minério de ferro pela Vale S.A.); enchentes de rios; quedas de barreiras; a rodovia BR 101 foi interditada, assim como outras; houve comoção e repercussão mundial, enfim, um caos total. Como Deus, posso afirmar que, à época, o Rio Doce foi amaldiçoado pelos prejudicados, que também não acreditaram na minha existência. Trinta e cinco anos depois, com o rompimento da barragem de rejeitos de mineração de Fundão, o Rio Doce se vingou, auxiliado pela ação predatória dos homens, que, hoje, provaram que são mais poderosos do que eu. Quando descobrirem que dinheiro não se come será tarde demais! A propósito, como Deus, eu preservei a vida do rádio-amador que atuava no alto do Pico da Ibituruna (montanha preta) por ocasião das enchentes de 1979. Lá de cima, ele ajudou e orientou a Defesa Civil a salvar muitas vidas. O Pico da Ibituruna (com 1.123 metros de altitude acima do nível do mar) continua encastoado na planície por onde serpenteia o Rio Doce, na cidade de Governador Valadares, Minas Gerais, livre e protegido das desgraças provocadas pela mineração. Esta é mais uma das minhas obras ofertadas aos humanos.  

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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