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Política

As aves que aqui gorjeavam

As aves que aqui gorjeavam

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Ruy Barbosa de Oliveira

Quando os acordes do Hino Nacional não provocam mais arrepios na pele, algo de muito preocupante está acontecendo. Ou o espírito patriótico deixou de existir, ou está adormecido como o Brasil em berço esplêndido – deitado eternamente ele já está.

Estamos estupefatos presenciando uma completa inversão de valores, onde a moral e os bons costumes renderam-se à prática continuada da corrupção (sistêmica e endêmica) em todos os níveis das administrações públicas, com a participação da atividade privada e afins. Em 2018, nos primeiros 05 meses, a Polícia Federal já deflagrou 23 operações, fora os desdobramentos.

Uma sensação de extrema fragilidade toma conta da sociedade civil, na medida em que fica evidente a lentidão da Justiça, com poucos juízes tentando limpá-la, esforçando-se para promovê-la e, sobretudo, dar a impressão que a Justiça está sendo feita. Fazer Justiça no Brasil não é tarefa fácil, ainda mais com tantas forças contrárias. As pesadas mãos das Leis sempre encontram lugar certo para bater – as costas dos mais fracos.

A cooptação das Instituições por quadrilhas especializadas não é conto de fadas, como não é fantasia afirmar que alguns órgãos de governo tornaram-se búnqueres do crime, estruturados, com organograma funcional e Modus Operandi específico. Verdadeiros Quartéis Generais (QGs) a serviço de práticas espúrias, onde o público e o privado se locupletam. O que causa maior indignação é saber que a ética pública foi jogada às ravinas de forma definitiva.

Penso que acabar com os criminosos que assaltam os cofres públicos, principalmente os de colarinho branco, soa meio quimérico, de modo que a experiência tem sinalizado que alguns sobreviverão à Justiça. Imaginemos a abertura de uma caixa de esgoto, milhares de baratas fugindo… Quantas conseguiremos matar? Ao colocarmos fogo na entrada da toca de ratos eles fugirão para outras tocas interligadas… Quantos conseguiremos matar? É assim o combate à corrupção no Brasil. A Justiça pega um, escapam dois.

Para vislumbrarmos um Brasil melhor Deus não precisa trocar o povo, mantendo as belezas naturais do país. Necessitamos de coisas simples, que podem ficar sob a responsabilidade dos homens probos. Necessitamos de uma Justiça que funcione; de mudança das Leis tornando as punições mais severas para quem cometer crime de corrupção, sobretudo políticos; de prisão imediata para condenados em primeira instância; do fim das prescrições dos crimes; necessitamos do término da progressão de regime prisional; do cumprimento pelo condenado de todo o tempo da pena decretada pela Justiça.

Criminosos do Mensalão foram apanhados em continuidade delitiva no Petrolão (CP, Art.71). O ideal pra esses caras seria a prisão perpétua. Políticos corruptos condenados na Ação Penal 470 voltaram a praticar os mesmos crimes com mais intensidade na Petrobras – vejamos os casos do José Dirceu, do Antonio Palocci, do Delúbio Soares, etc.

O roubo do dinheiro público (dilapidação do erário) só traz desgraças. A impunidade revitaliza o ciclo vicioso, assim como os benefícios das Leis penais concedidos aos criminosos. País assolado promove o caos social, desestrutura as Instituições, causa mortes pela falência do sistema de saúde, destrói o processo educacional, forma novos soldados para o crime – e assim por diante.

Ruy Barbosa não precisou escutar o canto das aves para externar o seu sentimento: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Ruy Barbosa nasceu em Salvador (Bahia), no dia 05 de novembro de 1849, e morreu em Petrópolis (Rio de Janeiro) no dia 01 de março de 1923. Em algum momento da sua vida ele escreveu este pensamento, com profundo sentimento. Cabe uma pergunta: O que mudou no Brasil de lá pra cá? As nulidades, a desonra, a injustiça e os poderes nas mãos dos maus se perpetuaram. A virtude, a honra e a honestidade simplesmente acabaram. As aves que aqui gorjeavam não gorjeiam mais.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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