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Política

Canto dos pássaros

Canto dos pássaros

Longe de fazer prejulgamento ou externar juízo de valor, tomarei os devidos cuidados daqui pra frente, muito embora a Constituição de 1988 nos conceda uma garantia fundamental no que tange a liberdade da manifestação do pensamento (Art. 5º – IV). De todo modo, há de se considerar que esse “guarda-chuva” tem caráter de universalidade, ou seja, abriga a totalidade das pessoas submetidas à Carta Magna.

Evidentemente que posturas devam ser preservadas, ainda que eu, em particular, compactue com o que dizem os adeptos da filosofia naturista “sem as roupas todos nós nos nivelamos”. Afirmação simbólica quando me refiro ao rompimento dos padrões meramente formais, à retirada do embuço, e, portanto, que adotemos daqui pra frente um estilo consensual na troca de ideias, de opiniões e proposições. Procedimento saudável para o bom entendimento.

O artigo que publiquei, aqui no meu Blog, na última quarta-feira, 30/05/2018, de título “O Brasil perplexo”, traz uma reflexão oportuna para o momento que estamos vivendo. Destaco: “Tem gente que aprende e tira lições do aprendizado; tem gente que faz questão de não aprender e ainda deturpa o que foi ministrado. Os bancos das escolas não nos dão todas as informações de que precisamos, contudo, as experiências e práticas vividas ao longo do tempo completam esse vazio. A lógica é bem simples, aprender com quem sabe e trocar experiências com quem as tem. De nada adianta querer se esconder debaixo do sovaco da cobra achando que lá está protegido de tudo e de todos. Aquele que não sabe nada e que não tem nada a compartilhar um dia será alcançado”.

Digo isso porque, mais uma vez, o governo demonstrou total despreparo na administração de crises, na condução das negociações com as classes reivindicadoras. A paralisação dos caminhoneiros no mês passado, que durou 10 dias, em todo o território nacional, poderia ter sido evitada caso as autoridades tivessem mapeado de modo prévio a situação. Caracteriza-se aí a incompetência de gestão pública. O país contabilizou um prejuízo estimado em R$ 30 bilhões em negócios não realizados e queda de arrecadação em torno de R$ 4 bilhões nos cofres públicos, referindo-se a tributos, no período de paralisação dos caminhoneiros. O déficit primário deve chegar a R$ 200 bilhões em 31 de dezembro, de modo que não há como reduzir a previsão do rombo fiscal em 2018, ainda que os “economistas palacianos” discursem em sentido contrário. Basta entender o mecanismo que está por trás dos subsídios concedidos nos preços do óleo diesel. A conta não fechará nunca, portanto, o próximo governo ficará de mãos e pés amarrados, sem ter condições de fazer investimentos, sobretudo na infraestrutura. O pão que o Diabo amassou estará na mesa da população.

Temos um governo fraco – ilegítimo na visão de muitos –, com um presidente sangrando como porco esfaqueado, que só tem uma preocupação, a de se livrar enquanto pode das denúncias de corrupção e das garras da Justiça. Os ministros que o cercam, na quase totalidade citados na Lava-Jato, fazem do governo um jogo do “faz de conta”, que está tudo bem, que o trem está nos trilhos, que a economia vai se recuperar, que o Brasil vai retomar o crescimento, que o hexa trará felicidades para o povo brasileiro. Na verdade, todos nós sabemos que os asseclas do presidente Michel Temer estão sugando da nação todos os benefícios possíveis até as 24 horas do dia 31 de dezembro – marcada para o último suspiro. Não se governa mais; o Brasil parou na contramão; um país insolúvel.

Realmente, eu percebi que o Brasil seria um país que “não se pode solucionar” em agosto de 2012, praticamente 06 anos faz. No comentário a seguir esse meu sentimento ficará bem demonstrado. No dia 15/08/2012 eu publiquei, aqui no meu Blog, um artigo de título “Julgamento do Mensalão – Falta um no Tribunal de Nuremberg”. Recomendo o acesso do artigo no campo Pesquisa, na home page do site, para sua leitura na íntegra. Destaquei dois trechos.

Leia o primeiro trecho: “Na sessão de segunda-feira, 13/08/2012, o advogado Luiz Francisco Corrêa Barbosa, que defende o réu Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB e delator do esquema do Mensalão, disse na Tribuna do STF, em bom tom, que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o mandante do Mensalão e que diretamente ordenou o esquema de compra de votos no Congresso Nacional. O advogado cobrou do Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, a inclusão de Lula na denúncia. É bom relembrar que o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB/RJ) teve o seu mandato cassado numa quarta-feira, 14 de setembro de 2005 pelo Plenário da Câmara de Deputados, por quebra de decoro parlamentar. Dos 489 deputados federais que participaram da votação (que foi secreta), 313 votaram a favor da cassação e 156 contra, foram 5 votos em branco, 13 abstenções e 2 votos nulos. Roberto Jefferson foi acusado de denunciar o esquema do Mensalão sem apresentar provas. Com a cassação, Roberto Jefferson perdeu os seus direitos políticos por oito anos, ou seja, até 2013. “Tirei a roupa do rei. Mostrei ao Brasil quem são esses fariseus”. Bradou Roberto Jefferson no final do seu discurso no dia da cassação. “O presidente Lula é um preguiçoso, cometeu crime por omissão”. Completou”.

Leia o segundo trecho: “Disse o Procurador-Geral da República que, entre as quatro paredes de um palácio presidencial, estariam sendo celebradas tenebrosas transações. […] É claro que Vossa Excelência não poderia afirmar que o presidente fosse um pateta. Que sob suas barbas isto estivesse acontecendo e ele não sabia de nada. O presidente é safo. Não só é safo como também é doutor Honoris Causa em algumas universidades. Mas é um pateta? É claro que não. Não só sabia como ordenou o desencadeamento de tudo isso. Sim, ele ordenou. Aqueles ministros eram apenas executivos dele. Recebida a denúncia, o Procurador-Geral da República deixou o patrão de fora. Por que fez isso? Vossa Excelência é que tem de informar. […] Como procurei demonstrar na evolução dos fatos, este tribunal recebeu a denúncia de que três ministros de estado, auxiliares do presidente, estariam pagando parlamentares para aprovar projetos de interesse desse mesmo presidente, mas o presidente ficou fora” – Luiz Francisco Corrêa Barbosa, advogado de Roberto Jefferson, da Tribuna do STF.

Realmente, eu percebi que o Brasil seria um país que “não se pode solucionar” em agosto de 2012, praticamente 06 anos faz. De fato, o Brasil ficara atônito ao assistir ao julgamento da Ação Penal 470 (Mensalão do PT) achando que aquele era o maior escândalo de corrupção do Brasil, sem saber que naquele exato momento a maior estatal, Petrobras, impiedosamente, estava sendo saqueada pelo mesmo bando. Até que ponto se sabia que o Mensalão foi usado como boi de piranha? O Brasil é um país que não se pode solucionar por simples motivos; um Supremo Tribunal Federal que ouve uma gravíssima acusação contra Lula e não faz nada – quem assistiu àquela sessão na qual o advogado de Roberto Jefferson, Luiz Francisco Corrêa Barbosa, da Tribuna do STF, provocou um silêncio sepulcral, comprovou que a expressão do ministro Ricardo Lewandowski denunciava a cumplicidade do Tribunal. O Brasil é um país que não se pode solucionar por simples motivos; como se rasga a Constituição, descaradamente e oportunamente, por época do Impeachment da presidente Dilma Rousseff; pisaram no Artigo 52, Parágrafo Único: Condenação (…) à perda do cargo, com inabilitação, por oito anos, para o exercício de função pública – quem assistiu àquela sessão do Senado Federal, de 31/08/2016, comprovou, enojado, o conluio entre o ministro Ricardo Lewandowski (STF) e o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), principais artífices da manobra para preservar os direitos políticos de Dilma Rousseff. Lula e o senador Lindbergh Farias também colocaram as suas digitais nesse acordão. O Brasil é um país que não se pode solucionar por simples motivos; por que Gilmar Mendes, ministro do STF e então presidente do TSE, deu o Voto de Minerva para evitar a cassação da chapa presidencial Dilma-Temer 2014, no julgamento final ocorrido na sexta-feira, 09/06/2017? Por que 04, dos 07 ministros do TSE, não levaram em consideração as delações da Odebrecht e dos marqueteiros da campanha de 2014, livrando, assim, o presidente Michel Temer de perder o mandato e Dilma Roussef de perder os direitos políticos? Para Dilma foi uma segunda vitória.

O Brasil parou na contramão, é um país insolúvel. A política intervencionista do governo levou o presidente da Petrobras, Pedro Parente, a pedir demissão nesta sexta-feira, 01 de junho de 2018. Os governos, sobretudo petistas, sempre foram partidários da intervenção econômica nas estatais. Crítico dos métodos empregados por Lula e Dilma, Michel Temer agora faz a mesma coisa quando resolve se envolver na política de preços da Petrobras, cedendo a pressões políticas e dos movimentos grevistas. Tem gente que aprende e tira lições do aprendizado; tem gente que faz questão de não aprender e ainda deturpa o que foi ministrado. Pedro Parente, que tinha contrato com a Petrobras até março de 2019, não concordou com isso e deixou o cargo. Quem será o presidente interino? A considerar o tamanho do problema, acredito que nenhum nome fora da política aceitará a incumbência de conduzir a empresa pelos próximos sete meses. É muito provável que um “político indicado” ocupe o lugar de Parente. Caso isso aconteça, e, a depender de quem seja o novo presidente da República, o Brasil pode assistir ao Petrolão na versão II.

Longe de fazer prejulgamento ou externar juízo de valor, tomarei os devidos cuidados daqui pra frente. O que tem norteado a política brasileira são atos nada republicanos que tanto têm denegrido a nossa imagem e emporcalhado as relações institucionais. Bodes expiatórios nos rondam o tempo todo. Nas sombras dos palácios eles habitam, como os morcegos nas cumeeiras das casas abandonadas. Crimes dos mais variados, por motivos inconfessáveis, ficarão enterrados no submundo das conveniências.

Não é difícil imaginar o que passa pela cabeça do cidadão comum, que se coloca no lugar daquele escravo sendo açoitado no tronco pelo verdugo, sem o mínimo de piedade, enquanto o senhor do engenho estuprava a sua mulher na senzala. Trazendo esse sentimento para os dias de hoje, percebemos que só a cor da pele mudou. O canto dos pássaros não é mais igual.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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