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Cotidiano

Pílula do dia seguinte

Pílula do dia seguinte

Há poucos dias eu conversei com um pai aflito. O motivo da sua angústia era uma só. A sua filha, menor de idade, engravidara de um rapaz que conheceu num desses bailes da vida – o cara desapareceu sem deixar rastros. O abacaxi verde ficou para ser descascado pelos pais da menina. Aborto, nem pensar, disse ele, em razão da sua religião, que proíbe esse tipo de coisa e outras mais, como o uso de qualquer método anticoncepcional. Esse é apenas mais um caso entre milhares espalhados pelo Brasil. Sem apontar dedos para os culpados, no caso objetivo mais de um, nota-se que, além da comum displicência, pessoas há que se submetem à própria ignorância. Tentei explicar a esse pai sobre a pílula do dia seguinte e quase apanhei. Restou-me o direito de lhe dizer o seguinte: Fulano, se aconteceu uma vez, acontecerá de novo; dê as informações corretas as suas outras três filhas, porque elas não estão a salvo de predadores, que podem ser bandidos, traficantes, fugitivos de penitenciárias, assassinos. Peguei o meu boné e voltei pra casa, onde pesquisei mais sobre o comprimido.

Ainda existem muitas dúvidas quanto ao uso, riscos e eficácia do comprimido. No portal SAÚDE é Vital pesquisei importante matéria de Karolina Bérgamo, publicada em 16 de agosto de 2016, que trata das 07 perguntas, e respostas de especialistas, sobre a pílula do dia seguinte – uma questão de saúde pública. Leia matéria abaixo.

Ainda que todas as mulheres do planeta usassem corretamente qualquer um dos métodos anticoncepcionais existentes, cerca de 06 milhões de gestações inesperadas ocorreriam. Essa estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) dá uma dimensão da possibilidade de falha nas estratégias disponíveis para evitar uma gravidez. Sem falar na quantidade de gente que não pensa em ter filhos e, mesmo assim, não se protege direito contra uma gravidez indesejada. Cenários como esses ajudam a explicar por que a chamada pílula do dia seguinte (também conhecida pela sigla PDS) passou a ser tão procurada nas farmácias – sua venda é feita sem prescrição.

Acontece que, recentemente, uma usuária da PDS escreveu um relato (que foi reproduzido em diversos meios de comunicação) no qual conta que teve uma gravidez fora do útero — chamada de gravidez ectópica — após tomar o comprimido. E é claro que muitas dúvidas surgiram sobre o método e sua segurança. Por isso, perguntamos a nossos leitores o que eles gostariam de saber a respeito do assunto e conversamos com especialistas para esclarecer as questões – até para entender quais são, de fato, os riscos da pílula do dia seguinte. Veja a seguir:

1ª. Muita gente se refere à pílula do dia seguinte como uma “bomba de hormônios”. Isso é verdade? Ela pode trazer efeitos colaterais?

“Uma dose da PDS contém o equivalente à metade de uma cartela de pílulas anticoncepcionais tradicionais, dessas que a mulher usa todos os dias”, esclarece a ginecologista Albertina Duarte Takiuti, coordenadora do Programa de Saúde do Adolescente da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. E, segundo a ginecologista Luciana Potiguara, da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, essa enxurrada hormonal pode trazer efeitos colaterais, sim. “Além de desregular o ciclo menstrual, é possível que provoque vômitos. Aliás, se isso acontecer nas primeiras duas horas após a ingestão, a dose deve ser repetida. Outros sintomas como vertigem, cefaleia e dor nas mamas também podem aparecer”, alerta a médica.

2ª. Mas, afinal, é válido usar esse método de contracepção? Se sim, em quais circunstâncias?

“A pílula do dia seguinte é, na verdade, uma conquista das mulheres”, afirma Albertina. “Você ter acesso a um método de emergência é bacana. O perigo está em fazer dessa emergência um ritual cotidiano”, arremata. A expert ainda faz questão de lembrar que, mesmo tomando a pílula direitinho (no máximo 72 horas após a relação), ela ainda falha em 15% dos casos. “A cada 20 mulheres que tomam, três engravidam”, calcula. “A PDS deve ser usada somente em situações de relação sexual desprotegida próxima do período fértil, de ruptura do preservativo, de estupro ou de relação sexual sem uso de nenhum método contraceptivo”, completa Luciana.

3ª. De quanto em quanto tempo é possível tomá-la? 

A pílula é lembrada como aquela “do dia seguinte”, mas, entre os especialistas, ela é mais conhecida como “pílula de emergência” ou “contracepção de emergência”. Isso quer dizer que ela realmente só deve entrar em cena em um caso de extrema necessidade. “O ideal é utilizá-la uma vez por ano. Ela é menos segura que a pílula normal e ingeri-la direto aumenta o risco de gravidez e de confusão no ciclo menstrual. A mulher passa a não reconhecer o funcionamento do próprio corpo”, esclarece Albertina.

De acordo com uma pesquisa conduzida pela especialista, apesar desses poréns, tem muita gente abusando do método. “Algumas adolescentes chegam a tomar a PDS até três vezes no mesmo mês”, conta a médica. Essa prática traz diversas repercussões para a saúde. “Tem os efeitos psicológicos, como irritação, medo de engravidar, culpa etc. Além disso, pode bagunçar o ciclo, causar alterações de pele (espinhas), deixar o cabelo oleoso e contribuir para o acúmulo desnecessário de gordura. A mulher não precisa passar por isso”, conclui.

“A pílula do dia seguinte é uma medicação de emergência e não foi testada para uso frequente”, reforça Eduardo Zlotnik, ginecologista e obstetra do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

4ª. É possível que a pílula do dia seguinte cause (ou contribua para) a ocorrência da gravidez ectópica, ou seja, fora do útero?

Ao que tudo indica, sim. A explicação para isso é que a pílula do dia seguinte diminui o movimento natural das trompas. Só que é a atividade dessa estrutura que faz com que o óvulo fecundado seja enviado ao útero para se desenvolver. Então, se as trompas não se movimentam, o óvulo pode ficar parado ali. E é aí que está o perigo. Com o desenvolvimento do feto no lugar errado, as trompas podem se romper, causando uma hemorragia.

Note que estamos falando em óvulo fecundado. Ou seja, é crucial ter em mente que a pílula do dia seguinte pode falhar – e que isso não é tão incomum assim. “Depois de usá-la, é importante esperar pela menstruação, e também vale fazer o teste de gravidez. Todo cuidado é pouco”, diz Albertina. Se o teste de gravidez der positivo, só é possível detectar que o óvulo está fora do lugar por ultrassom.  

Vale lembrar, no entanto, que a causa mais comum de gravidez ectópica é alteração da trompa por infecções e inflamações pélvicas.

5ª. Se a mulher engravidar mesmo depois de ter tomado a pílula o bebê pode nascer com alguma sequela?

Se o óvulo conseguir se deslocar para o útero e lá se desenvolver, a princípio não existe nenhum tipo de prejuízo para a criança. A ginecologista Luciana reforça: “Não há qualquer evidência científica de que a contracepção de emergência exerça efeito após a fecundação, resultando em aborto ou anomalias fetais”.

6ª. Tomar a pílula do dia seguinte enquanto está usando anticoncepcional comum (supondo que a mulher tome de maneira bem irregular) pode trazer problemas? 

Bom, já sabemos que a pílula do dia seguinte equivale à meia cartela daquela que se toma todo dia. Então, imagina só o caos que se instala no organismo de quem toma o anticoncepcional desregradamente e ainda, vez ou outra, utiliza uma “bomba de hormônios” junto. “Isso é uma confusão que precisa ser evitada. É uma questão de cautela com seu próprio corpo. A mulher não precisa dessa bagunça hormonal”, aponta Albertina. O ideal mesmo é encontrar estratégias para não precisar da pílula do dia seguinte.

7ª. Há contra-indicações em relação ao uso desse contraceptivo de emergência?

Sim. “Em paciente com histórico ou risco conhecido de trombose”, responde Zlotnik, do Einstein. “Na verdade, todas as contra-indicações para a pílula anticoncepcional servem também para a do dia seguinte”, afirma Albertina. E lembre-se: caso passe mal com o uso do comprimido, é necessário buscar ajuda médica. “Não se trata de terrorismo. Mas é fundamental ser cuidadosa quando se recorre a esse método”, conclui a especialista.

______

Na continuidade da pesquisa sobre a pílula do dia seguinte eu encontrei um interessante artigo, de minha autoria, que completa as informações passadas pelo portal SAÚDE é Vital. Num domingo, 27 de fevereiro de 2005, eu escrevi sobre este assunto, respondendo a uma pergunta formulada por um jornal de grande circulação no Estado do Espírito Santo. Veja abaixo.

Distribuição da pílula do dia seguinte pelo Governo.

Programa factível. Num país como o nosso, onde as políticas sociais não atendem as necessidades primárias da população, na plenitude que se deseja, a implementação do programa é factível – mais um, dentre tantos outros similares que não apresentaram os resultados esperados, por uma questão de cultura, ainda não arraigada na sociedade como um todo. Em que pese essa realidade, qualquer novo método anticoncepcional é sempre bem vindo, desde que atrelado a campanhas educacionais. O Governo é o responsável pelo desenvolvimento, execução e acompanhamento de dois indispensáveis projetos, num esforço conjugado com os Estados e municípios: Planejamento Familiar de longo prazo e Controle da Natalidade de curto prazo. Daqui a pouco o Brasil terá 180 milhões¹ de habitantes, ao tempo em que é notório o afunilamento das oportunidades. Se não houver consciência formada em torno de um movimento único, pessoas comuns continuarão descartando os necessários procedimentos anticoncepcionais ao seu bel-prazer, sobretudo a população de baixa renda que forma os cinturões de pobreza das grandes cidades – pela origem social e influência direta do meio. Eximir a mulher de sentir a dor de um parto inconsequente, e acima de tudo não programado, pode parecer mais humano do que a dor provocada pela fome, sentida pela futura criança, e pela rejeição dos pais. A pílula do dia seguinte, ou contraceptivo de emergência, é distribuída gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Pesquisas revelaram que o uso desse medicamento provocou queda de 70% no número de abortos no país, e é recomendado pelos médicos como um método eficiente (98%) e confiável de evitar a gravidez indesejada, sobretudo causada em atos de violência sexual contra a mulher. Os contraceptivos de emergência são reconhecidos pelo Ministério da Saúde e considerados um avanço no setor, segundo a Febrasgo (Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia). Desde 1999 a marca Postinor-2 é vendida no Brasil; depois vieram Pozato, Pilem, Norlevo e Nogravid. É bom lembrar que todos os medicamentos anticoncepcionais vêm com tarja vermelha e só podem ser vendidos com a apresentação da receita médica. Além disso, é fundamental uma consulta ao ginecologista para melhor avaliação dos seus efeitos e riscos, vez que a PDS tem acentuadas diferenças se comparada com as pílulas comuns e com outros métodos convencionais, e não é recomendada como método usual para a prevenção da gravidez, segundo os médicos. A PDS carrega uma alta dose do hormônio progesterona e pode causar uma série de distúrbios no organismo da mulher. A Igreja Católica e as entidades contrárias ao aborto chegaram a condenar a PDS por considerá-la abortiva. Todavia, a comunidade científica, em grande parte, combate essa crença e defende a tese de que o medicamento apenas impede a fecundação. Segundo a própria Organização Mundial da Saúde (OMS), a gravidez só acontece depois da fecundação, no momento exato da nidação, quando o zigoto se instala no útero da mãe. (¹) No final de 2005 o Brasil tinha 186,9 milhões de habitantes.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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