>
Você está lendo...
Política

O Brasil perplexo

O Brasil perplexo

Para reflexão: Tem gente que aprende e tira lições do aprendizado; tem gente que faz questão de não aprender e ainda deturpa o que foi ministrado. Os bancos das escolas não nos dão todas as informações de que precisamos, contudo, as experiências e práticas vividas ao longo do tempo completam esse vazio. A lógica é bem simples, aprender com quem sabe e trocar experiências com quem as tem. De nada adianta querer se esconder debaixo do sovaco da cobra achando que lá está protegido de tudo e de todos. Aquele que não sabe nada e que não tem nada a compartilhar um dia será alcançado.

É um ledo engano achar que os grevistas recalcitrantes estão lutando para a continuidade da paralisação dos caminhoneiros motivados por uma ideologia radical, incitando a intervenção militar no país. Outro erro de avaliação é a imprensa explorar este tema como sendo o único mote do movimento. Eu, particularmente, até entendo que os meios de comunicação querem defender feudos e as suas atividades (também ideológicas), porém, acho que estão indo longe demais nessa análise, a meu sentir, precipitada.

É evidente que existe um temor por parte da mídia caso haja mudança de regime no Brasil – ainda que longe dos “Anos de Chumbo”, uma designação dada ao período, digamos, mais repressivo da ditadura militar no Brasil, que se iniciou no ano de 1968 com a edição do AI-5 (Ato Institucional nº 5), no dia 13 de dezembro daquele mesmo ano, no governo do General de Exército Artur da Costa e Silva, dando-lhe amplos poderes para fechar o Congresso Nacional, para fechar todas as Assembleias Legislativas dos Estados (exceto a de São Paulo), para cassar políticos e institucionalizar a repressão em todo o território nacional. O AI-5 durou até o fim do governo do General de Exército Emílio Garrastazu Médici, em 15 de março de 1974. Vale lembrar que o governo militar usou do “poder de fechar” o Congresso Nacional novamente em 1977, por época da implantação do Pacote de Abril – constituído de um conjunto de Leis, Pacote este outorgado no dia 13 de abril de 1977 pelo então presidente Ernesto Beckmann Geisel, General de Exército mandante do fechamento temporário do Congresso Nacional.

A abertura de parênteses nessa discussão é importante. Há uma parcela de brasileiros que faz uma leitura parcial dos governos militares – nela está incluída a indústria cultural –, que foca a questão da repressão com a retirada dos direitos constitucionais. De todo modo, considerando como o assunto é “trabalhado” por essa parcela de brasileiros, me dá a entender que este foi o principal ato da ditadura. Ninguém é favorável a ações de controle e punições; quanto a isto não há o que transigir. Por outro lado, os anseios da população (maior parcela) são outros. Quando os brasileiros abrem a boca trazendo à baila a intervenção militar, não estão pensando com primazia na questão da “repressão”, e sim na possibilidade do fechamento do Congresso Nacional, do fechamento de todas as Assembleias Legislativas dos Estados brasileiros, na real probabilidade da cassação de políticos, sobretudo corruptos. As pessoas não veem saída para os graves problemas nacionais, estão cansadas de tanta desfaçatez por parte dos políticos e das autoridades, estão convivendo com a dura realidade da impunidade, as pessoas não enxergam melhor horizonte, perderam as forças de tanto encher caixas d’água furadas, estão desencantadas com a forma de se fazer política no Brasil, não aguentam mais. O voto não resolverá os problemas do país, enganam-se aqueles que assim imaginam – se as urnas resolvessem não teríamos problemas a questionar. O DNA maldito da desonestidade está entranhado no sangue dos políticos profissionais e postulantes. O povo brasileiro clama por melhores dias e por um futuro promissor, por isso, está tentando se agarrar na melhor opção que surge diante dos seus olhos segundo seus critérios de avaliação. A Democracia no Brasil se tornou sinônimo de salvo-conduto para os seus dirigentes utilizarem o poder da maneira que quiserem e para os fins que bem entenderem, ainda que eleitos pelo povo por meio de eleições periódicas – um sistema político em que os cidadãos não estão conseguindo exercer a sua soberania. Infelizmente. O Brasil de 2018 é comparado a uma empresa inviável, que precisa demitir todo mundo e fechar as portas.

Retornando ao tema central, não é verdade que os grevistas recalcitrantes estão lutando para a continuidade da paralisação dos caminhoneiros motivados por uma ideologia radical, incitando a intervenção militar no país. Portanto, temos que tomar o devido cuidado na fala e nas palavras escritas, temos que ser prudentes quanto à forma e ao conteúdo das conversas. As Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica) não precisam (como nunca precisaram) de apoio popular para desencadear um processo de intervenção no país, para suscitar reações em cadeia; elas estão vigilantes e preparadas para intervirem em casos graves de perturbação da ordem e iminente risco à segurança nacional.

Aqui no Espírito Santo os petroleiros entraram hoje, quarta-feira, 30/05/2018, em paralisação por 72 horas. A manifestação está acontecendo na entrada principal da sede da Petrobras, localizada na Reta da Penha, na capital Vitória. O Sindicato dos Petroleiros do Espírito Santo (Sindipetro-ES) informou que esta é a primeira manifestação de greve da categoria, e que, independente da pouca duração, espera que repique no restante do país. Numa imensa faixa colocada na frente do prédio os petroleiros escreveram em letras garrafais “PRIVATIZAR NÃO RESOLVE”, e também pedem a redução dos preços dos combustíveis em geral. Agora eu pergunto: É uma manifestação política? É. Tanto é que os próprios petroleiros já estão pedindo a cabeça de Pedro Pullen Parente, presidente da Petrobras. Vamos lá. Será que uma parcela de brasileiros vai culpar os que defendem a intervenção militar por mais essa ação grevista? Fato é que o Brasil está tomado de espanto, sem reação a esboçar.

O Ministro-Chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI/PR), general da reserva Sérgio Westphalen Etchegoyen, ontem, terça-feira, 29 de maio de 2018, numa entrevista coletiva sobre a paralisação dos caminhoneiros, a propósito das faixas colocadas em alguns caminhões pedindo uma intervenção militar no país, disse: “Vivo no século 21 e o século 21 está divertidíssimo. Meu farol é muito mais potente que o retrovisor. Não vejo nenhum militar, Forças Armadas pensando nisso, não conheço, absolutamente. Absolutamente, é um assunto do século passado (intervenção militar), uma pergunta que não vejo mais nenhum sentido. O que eu sugiro é saber o porquê chegamos a nisso. Quando nós estudamos álgebras, íamos atrás do X e do Y. Tem uma incógnita nessa questão que é o porquê chegamos a isso. Por que chegamos a uma situação em que parte da sociedade acha que isso é uma solução razoável, sobre a mesa… Não busquem encontrar problema onde ele está eliminado. Não vamos procurar problema onde está iluminado.

Sérgio Etchegoyen é um dos principais assessores do presidente Michel Temer, de modo que ele faz parte do governo e não poderia pensar diferente, ainda que general da reserva – sem farda. Concordo plenamente quando afirmou que “o século 21 está divertidíssimo”, sobretudo no Brasil. Em ano eleitoral, eu nunca escutei tanto sobre o período da Ditadura Militar como em 2018. A mídia vem massificando o tema em todas as modalidades de divulgação. Por quê? Existem causas, e, na contrapartida os efeitos. O candidato a presidente da República Jair Bolsonaro, do Partido Social Liberal (PSL-RJ), em vários cenários vem liderando as pesquisas de intenções de votos. A maior parcela da população, aquela que tem outros anseios, pode achar que a campanha de Bolsonaro está sendo “desconstruída” num processo subliminar. Em qualquer campo de discussão, quando determinados assuntos são subentendidos, digamos, nas entrelinhas, sugerem erros de interpretação e levam a julgamentos difusos, por vezes irreversíveis. A comunicação (propaganda) subliminar se fundamenta numa estratégia bastante interessante, a “associação de ideias” – na medida em que essa combinação de pensamentos (representações mentais) é adotada em doses sequenciais para o público certo, teremos um acúmulo de prejuízos, portanto, na tentativa de eliminá-los, o mal já estará feito.

Precisamos refletir. Tem gente que aprende e tira lições do aprendizado; tem gente que faz questão de não aprender e ainda deturpa o que foi ministrado. Custa pouco procurar entender os cenários e identificar as variáveis influenciadoras. Basta tentar. No Brasil, os ânimos estão sobremaneira exaltados; não tenho medo de afirmar que o país não está mais dividido, ele está pulverizado. O elevadíssimo índice de rejeição aos políticos é histórico e jamais deve ser visto como um divisor de águas, onde não há água límpida, só lama. Fala-se tanto em honestidade quando a índole natural é questionável. Demorou, mas a sociedade está entendendo o ambiente em que se encontra e, repito, protesta com veemência, grita por mudanças de qualidade, até perder a voz, até o ponto que se resgate a credibilidade e a representatividade.

Ao mesmo tempo, convém destacar que qualquer proposta de transformação perpassa, digamos assim, pela reconstrução das Instituições; pela modernização da Constituição; pela reformulação dos Códigos Penais e correlatos; pelas profundas reformas política, partidária e eleitoral; pela mudança de consciência – talvez pela troca de sistema. Como convencer 14,5 milhões de desempregados que o Brasil do futuro não chegou? De uma forma, ou de outra, essa imensa massa de desassistidos e desesperançosos é presa fácil para políticos escatológicos, vendedores de fé, e que se apresentam como a única salvação. Não há mais espaço. Chega. O Brasil que eu quero para o futuro – não sei!

Augusto Avlis

Navegue no Blog  opiniaosemfronteiras.com.br e você encontrará 905 artigos publicados em 16 Categorias. Boa leitura.

Anúncios

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts.

Junte-se a 158 outros seguidores

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: