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Política

Tá maluco cara?

Tá maluco cara?

Hoje eu acordei com a cabeça fervilhando. Lavei a cara antes do café da manhã, comecei a despertar aos poucos, juntei os fragmentos dos pensamentos, descobri que tive um pesadelo. Sonhei com uma possível desgraça, algo que poderia acontecer a qualquer momento, um fenômeno que transformaria o perfil do povo brasileiro, o surgimento de uma nova mentalidade consensual na sociedade voltada ao bem-estar comum, à justiça social, ao trabalho para todos, à equidade e honestidade. Foi um pesadelo!

Não consigo conceber um Brasil cor de rosa com bolinhas na cor azul celeste. Não imagino uma sociedade vivendo sem corrupção no seu dia a dia, por menor que seja. Os maus exemplos deixando de ser herdados e praticados, prejudicando as construções verbais no sentido da sua continuidade. Puta que o pariu!

O “sonho sonhado” se tornar realidade acabará com a atual ordem social baseada na lógica da desonestidade, do jeitinho brasileiro. Não faz sentido algum por fim a essa cultura tão arraigada no tecido social, no modus operandi do brasileiro. A vida ficará sem graça. Se Deus é brasileiro como dizem os torcedores de futebol, ele não permitirá que a gente caia em desgraça. Que coisa terrível as pessoas 100% honestas; uma população totalmente desaconselhável para uma República das Bananas como a nossa. Haveria mais perdas do que ganhos – os ganhos deixariam de existir.

Palavras como moral, ética, honestidade, caráter, dignidade, probidade, integridade, retidão, e outras do mesmo naipe, enquanto figurarem no dicionário da língua portuguesa, é sabido que os seus conceitos estimularão desejos opostos, porque, no imaginário dos brasileiros o fator experimentação é decisivo no ato das escolhas das coisas erradas. O ruim atrai como magneto e senti-lo satisfaz.

Que sonho miserável. Em tempos de Lava-Jato o Ministério Público Federal e a Polícia Federal sofreriam mudanças significativas, não teriam nada para investigar e/ou denunciar; o foro privilegiado não terá razão de existir; a profissão de político tenderia a acabar. Meu Deus do céu, que caos absoluto. O político deixando de roubar os cofres públicos e, portanto, não precisaria da proteção do STF; a PF deixando de investigar; o MPF deixando de denunciar; a Operação Lava-Jato indo pro espaço. Que merda! Que tédio! Necessitamos de conflitos para o alimento do ego, da companhia das aves de rapina para comerem nossa consciência.

Um Brasil perfeito é o que mostrou o sonho, ou melhor, o pesadelo. O índice de suicídios crescerá geometricamente com essa possibilidade. Sonhei com os brasileiros votando pela Internet, inclusive escolhendo os ministros para o STF; sonhei com uma sociedade justa, devolvendo aos seus verdadeiros donos tudo que encontrar perdido nas ruas, parques e jardins; sonhei que a Justiça não venderia mais sentenças, que tiraria a venda dos olhos para enxergar brancos e negros, ricos e pobres com a mesma perspectiva. Vou me matar!

Sonhei que as eleições não seriam mais fraudadas; sonhei que os eleitores não venderiam mais os seus votos; sonhei que as obras públicas não seriam superfaturadas; sonhei que o apoio político no Congresso, nas Assembleias Legislativas, nas Câmaras de vereadores não seria mais comprado com dinheiro público; sonhei que as Agências Reguladoras deixariam o mercado funcionar da melhor maneira possível, com concorrência livre e justa, competindo igualitariamente com paridade de condições; sonhei com a podridão do acerto. Que droga, isso não pode acontecer, esse quadro de maravilhas, num país onde a desordem é a tônica do entendimento. Os ponteiros do relógio estão girando no sentido anti-horário.

Hoje eu acordei com a cabeça fervilhando. Vi Michel Temer se entregando à Polícia Federal; vi Lula se enforcando na cadeia; vi a queda de um avião com quatro ministros do STF dentro (DT, RL, GM e MA); vi a extinção do PT; vi o IBGE modificando a sua metodologia de pesquisa, sobretudo desconsiderando determinadas camadas sociais por níveis de renda; vi que os agrados financeiros concedidos para se obter vantagens foram cancelados; vi que a propina pulverizada no dia a dia, dada ao guarda de trânsito, colocada no bolso do açougueiro do supermercado, dada à empregada para ficar de boca fechada, enfim, foi suspensa pelos corruptores e negada pelos corrompidos; vi pessoas cantando o Hino Nacional com arrepio na pele. Esse não é o Brasil perfeito, o Brasil para ser desejado no presente.

Sonhei com uma possível desgraça; com o surgimento de uma nova mentalidade consensual na sociedade voltada ao bem-estar comum, à justiça social, ao trabalho para todos, à equidade e honestidade; sonhei com um povo educado, instruído e culto. Não merecemos. Para o nosso bem é melhor deixarmos tudo como está, afinal, somos brasileiros.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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