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Política

Pergunta idiota

Pergunta idiota

Para uma pergunta idiota, uma resposta idiota, na mesma proporção da imbecilidade. Deveria ser assim, de modo que nenhum dos lados se ofenderia. Todavia, no caso da pergunta idiota, eu preferi adotar uma postura mais séria no desenvolvimento do assunto. Um veículo de comunicação impressa formulou a seguinte pergunta aos seus leitores: Você acha que se os políticos tivessem seu salário triplicado a corrupção diminuiria? Amigos que me seguem neste Blog, leiam, abaixo, a minha resposta, que, lógico, não foi publicada – nem parte, quanto mais na sua totalidade.

Salário triplicado x diminuição da corrupção. Diante dessa questão, parto do pressuposto que os pobres dos políticos ganham o salário mínimo, sem benefícios indiretos, e, por essa razão, são bem chegados a negociatas. Pra princípio de conversa, a questão da corrupção independe dos níveis de renda ou condição social – nessa prática interagem dois funestos e inseparáveis agentes: o corruptor e o corrompido. De um lado, aquele que suborna ou busca subornar outra pessoa em função de interesse próprio ou alheio; do outro lado, aquele que recebeu dinheiro em troca da prestação de favores indevidos. São as duas pontas do processo viciado que parece não ter fim. A propósito, essa análise também vale para o setor privado.

Sempre movidos pela necessidade explícita de levar vantagem em tudo aquilo que fazem, os escroques políticos põem de lado os escrúpulos; juntam a sede com a vontade de comer; passam por temidos corsários do tesouro público; enfim, só fazem acumular o maldito ouro – quanto mais se tem, mais se quer, mais se procura ganhar, ainda que ilicitamente. O que os políticos ganham atualmente, em todas as esferas da administração pública (valores sobejamente divulgados pela imprensa, e não cabe aqui relembrá-los, porque causariam mais tristeza e vontade de chorar), já é uma indecência, uma falta de respeito ao trabalhador assalariado e, sobretudo, à massa desassistida. Pelo que fazem no desempenho do mandato, ou deixam de fazer, deveriam devolver os seus vencimentos aos cofres públicos; e não fariam favor algum.

Infelizmente, no Brasil, o conceito de político não é o indivíduo que se dedica à política (no sentido da ciência do governo dos povos e dos negócios públicos); não é um estadista, por excelência. No Brasil, o político é aquele que age habilmente, com sordidez e voracidade; é sagaz, astuto, velhaco, ladino, etc, etc… Os políticos brasileiros são amadores na prática da política verdadeira e consideram-se profissionais, com canudo de doutorado, em cambalachos e maracutaias; talvez por isso – olhando para o próprio umbigo – sentem-se no direito de fechar os olhos à apropriação indébita de verbas públicas, até que algum prejudicado na partilha venha por a boca no trombone, na maior cara-de-pau, como se estivesse salvando a pátria.

Não nos enganemos; a corrupção praticada pelos políticos não acabará, ou diminuirá como queiram, com a triplicação dos seus salários, até porque já são quadruplicados em pouco tempo de mandato. Os índices de reajustes anuais – aprovados por eles mesmos, numa prova de corporativismo – nunca são inferiores a 50%, sem contar com os aumentos das verbas de gabinete e com outras vantagens financeiras para cobrir “eventuais custeios”; atos maquinados pelos presidentes das “Casas de Leis”, com o apoio geral e irrestrito de todas as bancadas. Só de pensar que o dinheiro, para o pagamento desses salafrários, sai do nosso bolso, me dá um sentimento de repugnância. Se o Estado quiser reduzir consideravelmente a corrupção na política, só tem duas saídas: ou muda o sistema de Governo ou, então, que decrete pena de morte para punir esse tipo de crime – no meu entender, tipificado como hediondo, porque é imperdoável o desvio de dinheiro público para benefício de um grupo de políticos cínicos, desonestos, caraduras e irresponsáveis, em detrimento da realização de serviços essenciais para a população, como saúde, educação, moradia, emprego, saneamento básico, entre outros.

Não adianta podar a árvore da corrupção, tem que ser aplicado um poderoso veneno na sua raiz, antes que ela dê nova safra de frutos. Goya disse: “O adormecer da razão gera monstros”. Eu li num outdoor: “Otimismo contagia”. Pensei comigo mesmo: “Corrupção contamina”. Como agora a ordem do dia e a tendência da hora é ver tudo sob o aspecto negativo, eu completo: “O pessimismo nos derrota”. Para os políticos, ter o salário triplicado é um prêmio, em troca da promessa de honestidade com a coisa pública – juramento em vão, também não há a garantia de que cessará a roubalheira compartilhada; muito pelo contrário, sentir-se-ão estimulados a subtrair fraudulentamente o dinheiro público cada vez mais, achando que foi criado um novo mercado, o do decoro parlamentar. Na vigília, permanecem as empresas privadas que fazem parte do esquema, entendendo que pode pintar uma isenção total de impostos, ou incentivos fiscais como forma de oficializar a corrupção. Para nós cidadãos, únicos pagadores dos salários e dos tributos, tal proposta é um desatino. Ao aceitá-la, estaremos assumindo a condição de corruptores, quando não de corrompidos.

A todo o momento pipocam na imprensa novos casos de corrupção, tendo políticos como mentores. A sociedade não aguenta mais tanto descalabro. Constantemente a opinião pública é afrontada. Atolado em vícios e torpezas o Governo está, e não sinaliza que sairá da chafurda. Para o resgate de parte da credibilidade, respostas convincentes são necessárias, assim como imprescindível a adoção de estratégias que deflagrem guerra aberta à corrupção. Não adianta podar a árvore da corrupção, tem que ser aplicado um poderoso veneno na sua raiz, antes que ela dê nova safra de frutos. Mas, enquanto a estrela do PT, em forma de canteiro, não for tirada dos jardins do Palácio do Planalto, o povo continuará ímpio. A corrupção é uma doença incurável, mas não terminal para aqueles atingidos por ela.

Nota de rodapé: Esta minha resposta tem data de segunda-feira, 11 de julho de 2005. De lá pra cá nada mudou, a não ser a retirada da estrela do PT dos canteiros do Palácio do Planalto. Já ia me esquecendo, um detalhe que também mudou, a Justiça alastrou seu manto protetor sobre as cabeças dos criminosos poderosos de colarinho branco, sobretudo políticos.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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