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Política

Carta ao presidente Michel Temer

Carta ao presidente Michel Temer

Brasil, terça-feira, 21 de março de 2017.

Caro presidente Michel Temer,

Sou um simples brasileiro, no meio de 207 milhões de habitantes ainda vivos, ocupando uma ínfima fração dos 8,5 milhões de km². O meu nome é o que menos importa, porque o eleitor representa para os políticos apenas possibilidade de voto numérico, e é o que todos nós somos na verdade, números frios para efeito estatístico com todas as suas projeções absurdas, de modo que o poder, no sentido de governo, não nos enxerga como pessoas.

Em primeiro lugar, permita-me chamá-lo de Michel, independente do cargo que ocupa. Sinto-me melhor assim e fico mais à vontade para conversar sem a preocupação com formalidades desnecessárias. Afinal, temos a mesma nacionalidade, muito embora vivamos em mundos completamente diferentes – por natureza, os brasileiros são informais, até na sua capacidade de reação. Quanto à forma de se manifestar, cada brasileiro o faz a seu jeito, por isso, não há como se construir uma força uníssona.

Michel, eu já senti muito ódio da classe política, a ponto de querer matar a todos. Hoje eu tenho por ela grande desprezo, porque pra mim é indiferente, não representa absolutamente nada. Um sentimento que passou do asco para uma profunda rejeição. Prova disso é que não votei nas últimas 08 eleições, considerando as disputas eleitorais para presidente da República, senadores, deputados federais, governadores e deputados estaduais em 2002, 2006, 2010 e 2014, bem como para os poderes municipais, prefeitos e vereadores, nos anos de 2004, 2008, 2012 e 2016. A cada pleito fica difícil escolher a merda menos fedida no meio de tanta bosta!

Michel, 2018 está próximo, e sei que você e o Lula estão de olho nas urnas, muito embora da sua parte haja negativa. E por falar no maldito ex-presidente, você deve ter ficado pau da vida pelo fato do Lula, e a não menos maldita ex-presidente Dilma, terem ido ao município de Monteiro, no sertão da Paraíba, neste último domingo, 19, participar da “inauguração simbólica” da transposição do rio São Francisco, onde foram recebidos por milhares de pessoas que serviram de plateia para os dois petistas discursarem em tom de campanha. Você, quando inaugurou dias antes o mesmo trecho da obra, deve ter se lembrado que Lula deu início ao projeto em 2007, e que as obras foram paralisadas no governo Dilma Rousseff em razão de graves denúncias de corrupção. Você, como vice-presidente, à época, deve ter compactuado com isso, de modo que em matéria de cumplicidade o seu partido, o PMDB, é professor.

Michel, se as tais delações do “Fim do Mundo”, conforme a mídia anuncia publicamente, feitas pelos 77 ex e executivos da Odebrecht não revelarem fatos que provoquem uma incontrolável revolução social, ou, o fechamento do Congresso Nacional (não descartado), eu acho que os dois (você e o viúvo Lula) terão chances em 2018, caso resolvam se unir novamente com a aprovação da mãe Dilma Rousseff, que, a essa altura do campeonato, pensa em perdoá-lo, na medida em que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não casse a chapa Dilma/Temer 2014 por falta de provas. Lembro que Dilma, em razão da manobra do então presidente do STF, ministro Ricardo Lewandowski, não perdeu os direitos políticos quando sofreu o impeachment, portanto, existe sim a real possibilidade de ela mandar vocês dois à merda e se lançar candidata com o discurso do golpe – como sempre expondo as suas ideias de improviso.

Michel, seja como for, eu não abro mão da minha convicção, nada me fará mudar de ideia e ninguém me obrigará a votar daqui pra frente, e reafirmo que a cada pleito fica difícil escolher a merda menos fedida no meio de tanta bosta! Não me pergunte os motivos que me levaram a tomar essa firme decisão. Sem entrar no mérito da questão, eu resumo numa só frase: “O Brasil é um país governado por corruptos eleitos por ignorantes”. Para um bom entendedor acho que meia palavra basta; para quem não entende, que continue burro. Aqui pra nós, nada mudará e será sempre assim. Os eleitores “Made in Brazil” não aprendem com os erros, não evoluem e, o que é pior, a maioria deles se vê nos políticos ladrões e queria ser como eles e estar no lugar deles. A ignorância não pede mais licença, ela chega e se estabelece.

Michel, certa vez o João da Silva me falou que se fosse político também roubaria do mesmo jeito, ou melhor, tentaria roubar mais, porque dinheiro público não tem dono, não identifica a cara do contribuinte, do pagador de impostos. Nesse caso, não é a oportunidade que faz o ladrão, é o ladrão criando as oportunidades. Não é só o desonesto João da Silva que pensa desse modo; a cada grupo de 10 (dez) brasileiros, com os quais eu converso, 08 (oito) afirmam categoricamente que meteriam a mão na grana, ou seja, formariam quadrilha junto com o João da Silva. Temos um DNA maldito! O brasileiro não sossega enquanto não sacanear o próximo.

Michel, esse é o triste retrato do Brasil, onde a percepção da corrupção não é percebida – os poucos que a percebem não formam massa crítica. Olho a bandeira do Brasil sem aquele orgulho de outrora, leio a frase “Desordem e Atraso” no lugar de “Ordem e Progresso”. Uma bandeira matizada de vermelho, desrespeitada pela nossa gente. Nem por isso sentimos vergonha! Sei lá o quê nos levou a isso; só sei que somos todos órfãos do patriotismo. Uns querendo foder os outros. Quando a farinha é pouca, meu pirão primeiro. Entendeu?

Michel, motivos para nos envergonhar não faltam. O Brasil permaneceu estagnado na 79ª posição entre 188 países no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), segundo o PNUD, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, em relatório apresentado pela ONU, hoje, 21 de março. Ficamos empatados com a ilha de Granada, localizada no Caribe. Caro presidente, as desigualdades ainda são brutais entre os brasileiros; poucos com muito e muitos com tão pouco. Não me venha dizer que inauguramos no Brasil uma nova democracia com a derrocada da ditadura militar. Que nova democracia é essa que autoriza os políticos a assaltarem os cofres públicos, que manipula eleições, que corrompe as Instituições, que forma ilhas de poder, que implanta o caos, que empobrece os cidadãos, que rouba a boa fé do povo? Meu caro presidente, você deveria ser o primeiro a sentir vergonha disso tudo que está acontecendo no Brasil, na pátria que um dia foi amada pelos muitos desafortunados, marcados pelas frustrações.

Michel, você lembra, enquanto vice-presidente, daquela sua carta destinada a então presidente Dilma Rousseff? Melancólica, não? Você mais me pareceu um bebê que perdeu o seio da mãe. Refrescando a sua memória, a missiva tem data de São Paulo, 07 de Dezembro de 2.015, encaminhada com carimbo “Confidencial” e recebida pela presidente Dilma Rousseff às 17h20min da segunda-feira, no mesmo dia da sua emissão. Transcrevo um trecho: “Verba volant, scripta manent (As palavras voam, os escritos permanecem). […] Jamais eu ou o PMDB fomos chamados para discutir formulações econômicas ou políticas do país; éramos meros acessórios, secundários, subsidiários. A senhora, no segundo mandato, à última hora, não renovou o Ministério da Aviação Civil onde o Moreira Franco fez belíssimo trabalho elogiado durante a Copa do Mundo. Sabia que ele era uma indicação minha. Quis, portanto, desvalorizar-me. Cheguei a registrar este fato no dia seguinte, ao telefone. No episódio Eliseu Padilha, mais recente, ele deixou o Ministério em razão de muitas “desfeitas”, culminando com o que o governo fez a ele, Ministro, retirando sem nenhum aviso prévio, nome com perfil técnico que ele, Ministro da área, indicara para a ANAC. Alardeou-se que fora retaliação a mim; que ele saiu porque faz parte de uma suposta conspiração”. É, meu caro presidente, continua fazendo merda com relação a Moreira Franco e Eliseu Padilha! Você é cúmplice dos dois.

Michel, o impeachment da presidente Dilma Rousseff até agora não provocou mudanças de comportamentos, muito pelo contrário, você no poder está fazendo igual ou pior. O fisiologismo é prática continuada de gestão, o “toma lá, dá cá” recrudesce e o loteamento da administração pública ganha nova versão da tradicional troca de moeda. Se você acha que no Brasil estamos vivendo sob o regime de semiparlamentarismo, engana-se totalmente, ou se faz de bobo. Na verdade, assim como os dois últimos presidentes que o antecederam, você virou refém do Congresso Nacional, que vem dando sinais de que exigirá vantagens ilícitas em troca da aprovação das reformas estruturantes, de que tanto precisa o Brasil, propostas pelo Executivo, sobretudo a da Previdência. Em toca de rato gato não entra.

Michel, eu não acredito na Justiça dos homens, aliás, nunca acreditei, de modo que a segunda lista do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, citando dezenas de políticos envolvidos no Petrolão, virará jornal velho. A operação Lava-Jato, por si, não lavará o enlameado mundo político e não mudará consciências políticas, apenas deixará expostas as vísceras purulentas dos corpos – da política e dos políticos que a compõem. Como o poder não é pra sempre e um dia ele acaba, o que veremos é a substituição de velhos políticos ladrões por novos larápios, que se comprometerão com essas práticas espúrias. Infeliz é aquele que pensa o contrário. O atual sistema de poder, dilapidando o processo educacional, demonstra o firme propósito de produzir novas gerações de desinformados, que formarão futuras “massas de manobra” nos diversos setores da sociedade considerados politicamente corretos. Sem essa condição os maus políticos jamais se criariam – a ignorância continuará sendo um campo fértil para os agricultores partidários se estabelecerem com suas sementes e máquinas mortíferas.

Michel, como amigo de Deus e do Diabo, me diga uma coisa: quem matou ou mandou matar o ministro Teori Zavascki, relator da Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal (STF)? Responda-me duas outras perguntas: O Lula é realmente o chefe da máfia? Outras “mortes políticas” acontecerão? Já sei, não pode dizer. Tá bom. Tem medo de morrer, não é? Mas, você pode confirmar que o PMDB – partido do qual pertence – sempre esteve no poder, de uma forma ou de outra, por isso é conivente com os macabros fatos, apoiando-os, e co-autor de maracutaias. Não me venha agora assumir a pecha de paladino da honestidade, de modo que não fica bem para um velhaco. A propósito, você já viu algum petista fazer delação premiada? Por quê?

Michel, não me queira mal, até porque você não me conhece como eu o conheço, aproveito este espaço para dizer a você que os políticos – e desse balaio eu não excluo ninguém – estão defecando e andando para os cidadãos comuns (filosofia da vaca), porque têm à disposição duas Instituições que lhes dão total proteção; a primeira, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a maior lavanderia de dinheiro sujo com matriz brasileira, porque aprova praticamente todas as contas de campanha sem questionamentos, e, a segunda Instituição, o Supremo Tribunal Federal (STF), Justiça seletiva estimuladora da cruel e perversa impunidade, porque deixa os crimes prescreverem por atos processuais muitas das vezes premeditados para favorecer os criminosos (políticos ou de colarinho branco). Não bastassem esses dois escudos de defesa, TSE e STF, os políticos com mandato nadam de braçada no Foro Privilegiado, outra indecente aberração. Para os canalhas políticos corruptos a pena de morte ainda é pouca.

Michel, por falar em pena de morte, ela nunca deixou de existir no Brasil. Vocês políticos condenaram o povo à pena capital quando destruíram as bases da educação e do ensino, quando vocês faliram o sistema nacional de saúde, quando limitaram drasticamente as oportunidades de emprego e trabalho, quando roubaram a esperança das pessoas de bem. No dia 17 deste mês a operação Lava-Jato completou 03 anos. Somente ela, se concluída, será a responsável por resgatar a dignidade do povo brasileiro, por lhe devolver a crença na Justiça, por reconstruir um Brasil diferente para as novas gerações.

Michel, por fim, não leve a sério, ao pé da letra, o que os internautas estão divulgando sobre a sua bela esposa (3ª), Marcela Temer. Quem mandou você casar com uma exuberante mulher? O meu avô (português) já dizia: “É melhor você dividir um filé com dois do que comer bucho sozinho”. Pense nisso. Diminua a sua raiva alegando que se trata simplesmente de uma sósia. Pronto. Coloquei esse tema para diminuir um pouco a rigidez e a acidez do texto político. Às vezes entrar no campo pessoal é bom e distrai as “mentes brilhantes”, como a sua, portanto, lembre-se: “a carne é fraca”.

Assinado, um simples brasileiro.

Nota de rodapé: Um senhor, naturalmente aposentado, deixou cair a presente carta no chão de uma agência bancária, na qual eu estava. Ao tentar devolvê-la (três folhas manuscritas), ele me disse: “Fique com ela e prometa-me divulgá-la”. O velho, além de sábio, não é surdo, porque escutou a minha conversa com outra pessoa na fila do caixa, numa parte que comentei que sou jornalista.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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