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Polícia e Segurança Pública

Hipocrisia, pura hipocrisia – 4ª parte

Hipocrisia, pura hipocrisia – 4ª parte

Qual é o Brasil que queremos? Reafirmo a pergunta feita na terceira parte deste artigo. “Eu não sei”, responderiam sem pestanejar algumas pessoas que eu conheço, independente das suas bases de convicção. Na dúvida, é melhor não responder nada, de modo que é prudente sair pela tangente. Dessa forma, ninguém se compromete e fica tudo em paz. Muitas das coisas que a gente escuta não são merecedoras de serem passadas pra frente, mas, na realidade, são levadas adiante. Assim sendo, as coisas podem se complicar.

A entrevista coletiva concedida hoje pela manhã, quarta-feira, 18 de janeiro de 2017, pelo ministro da Defesa, Raul Jungmann, dá a exata extensão do que acabo de dizer. “[…] Inicialmente 1.000 homens das Forças Armadas vão atuar nos presídios de acordo com demandas dos Estados. […] As Forças Armadas não vão controlar os presídios, mas apenas fazer varreduras e operações em conjunto com os Estados, observando-se o Artigo 142 da Constituição e Lei complementar 97. […] O Ministério Público Militar acompanhará todas as operações. […] O MPM é ligado ao Ministério Público Federal (da República), portanto, não é vinculado às Forças Armadas. […] As Forças Armadas não terão contato com os presos”. – disse Raul Jungmann.

A Ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), quer que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), IBGE e Exército elaborem mapa da população carcerária do Brasil. Esta ideia ela sugeriu logo no início dos massacres nos presídios. O ministro da Defesa Raul Jungmann não falou sobre isso. Certas coisas que a gente escuta são merecedoras de serem passadas pra frente, na realidade, não são levadas adiante por algum motivo.

A crise penitenciária é uma ferida exposta que não fecha. Você ignora essas pessoas (os presos), dá o pior para elas, então, não poderá colher outra coisa, senão revolta, reações de violência, atentados contra a vida, etc. Os presos brasileiros estão conectados com o Inferno. E as vítimas que eles fizeram? E os parentes dessas vítimas? Qual o papel do Estado com relação a todas as vítimas do crime, seja ele organizado ou não? Aos “olhos fechados” da Justiça, criminosos e vítimas estão desconectados.

A reincidência na prática de crimes é fator decisivo para o aumento da violência e das vítimas, nem por isso sensibiliza os julgadores, muitos dos quais estão na folha de pagamento do crime organizado. A venda de sentenças por juízes é apenas um dos problemas com os quais a cega Justiça convive. Causas e efeitos em conflito.

As condições das cadeias são subumanas. Independente da redução da população carcerária, também urge uma reforma física dos prédios, das celas, que hoje podem ser comparados a pocilgas e matadouros de periferia sem fiscalização. A superlotação dos presídios brasileiros e a total falta de controle por parte dos órgãos de administração e, sobretudo do Estado, são as principais causas do acirramento de disputas entre facções criminosas, que se fortalecem com a omissão do poder público. Não foram essas as razões que levaram o governo do Rio Grande do Norte a ordenar, hoje (18/01), a transferência de 200 presos da Penitenciária de Alcaçuz para outros presídios. A verdade é outra.

Reli hoje cedo notícias da sexta-feira, 13 de janeiro de 2017: “Onze detentos morreram no sistema penitenciário do Rio de Janeiro nesses primeiros dias de janeiro”. “Confusão em cela na Penitenciária de Tupi Paulista, no interior de São Paulo, termina com dois presos mortos”. “Governo do Amazonas anuncia exoneração do secretário de administração penitenciária Pedro Florêncio”. Todo dia é a mesma coisa. Qual é o Brasil que queremos?

O que esperar de um país onde corruptos desviam recursos destinados à compra de merenda escolar? Os políticos dessa mui amada terra Brasil têm moral para falarem sobre segurança pública? A desesperança tomou conta da esmagadora maioria dos brasileiros. O nosso “Deus brasileiro” está tirando a cidadania em outro país. Mas, como bons brasileiros sem outra cidadania, não vamos nos desanimar, principalmente agora às vésperas do Carnaval.

O que acontecerá depois que as Forças Armadas terminarem o trabalho de varredura nos presídios? “As administrações penitenciárias dos Estados, através dos seus agentes, permitirão que tudo aquilo que foi retirado pelos militares da União entrem de novo nas penitenciárias” – sem pestanejar, responderiam algumas pessoas que eu conheço e que eu não conheço, independente das suas bases de convicção.

Bola pra frente que atrás vem gente! Daqui a pouco as atuais angústias cederão espaço para futuros tormentos, que ainda não os conhecemos, portanto, não soframos antecipadamente por uma coisa que ainda não aconteceu. Não sabemos se realmente vale a pena qualquer sacrifício pessoal. Quando padecemos em grupo parece que a dor diminui, porque o orgulho e a hipocrisia nos fazem entender que o próximo ao lado está sofrendo mais e que nada nos atinge. Diz a máxima: “O que é ruim só acontece com os outros”.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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