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Política

Brasil inconsertável – 10ª parte

Brasil inconsertável – 10ª parte

Amigos leitores, o mar de lama que está alagando Brasília chegou ao plenário do Supremo Tribunal Federal na tarde de ontem, quarta-feira, 07 de dezembro de 2016, de modo que seis (dos nove) membros que estavam reunidos naquela sessão ficaram com as mãos e os pés sujos e, portanto, terão dificuldades para limpá-los. Algum dia, quando a maré negra baixar, nós veremos que as suas marcas permanecerão indeléveis.

Quem sou eu para discordar de uma decisão tomada pela Tertúlia do STF. Sou apenas um simples mortal, como muitos, que fica na expectativa que a Justiça seja feita, agradando ou não quem um dia acreditava nela. Homens de capa preta, simples mortais, sobrevoando o espectro da insensatez.

Manchete de primeira capa do principal jornal do Estado do Espírito Santo, Vitória, A GAZETA, edição de quinta-feira, 08 de dezembro de 2016, justamente quando se comemora o “Dia da Justiça”. O BRASIL TERÁ QUE ENGOLIR RENAN? Um dia após descumprir uma liminar do Supremo que determinava seu afastamento, Renan Calheiros consegue reverter a decisão no plenário do próprio tribunal. Ele poderá continuar no comando do Senado mesmo sendo réu em ação penal por desvio de dinheiro. Uma fotografia da cara porca de Renan Calheiros ocupava grande parte do espaço da primeira página do jornal; uma expressão de típica bazófia.

Eu cheguei a escrever no artigo “Brasil inconsertável – 9ª parte”, publicado ontem, 07/11, aqui no meu Blog, o seguinte: “De duas uma, ou o plenário desautoriza Marco Aurélio e dá razão ao senador Renan Calheiros, ou os ministros concordarão, em maioria, com a emissão da Liminar, afastando definitivamente o réu Renan Calheiros da presidência daquela casa de Leis, independente do prazo que ainda tem a cumprir antes do recesso, ou da agenda de votações. Eu fico com a segunda opinião. Nesse caso, não se trata de interferência de um poder noutro poder, de questionar a sua independência, trata-se de defender a imagem da Suprema Corte como o principal Poder da República, porque ela é a guardiã da Carta Magna e maior expressão de Justiça”. Peço perdão aos meus leitores por ter me enganado, eu não esperava pelo desfecho que houve.

O resultado do julgamento da Liminar concedida pelo ministro Marco Aurélio Mello ao partido REDE Sustentabilidade – que pedia o afastamento de Renan Calheiros da presidência do Senado pelo fato de ter se tornado réu, por 08 votos a 03, num processo que corria no próprio STF –, deixou o mundo jurídico perplexo e, sobretudo os pobres mortais que desconhecem os meandros da Justiça de 4º grau de jurisdição.

O placar foi de 06 x 03, favorável ao, permitam-me falar assim, ao calhorda Renan Calheiros. Depois do voto do relator, ministro Marco Aurélio, houve uma inversão de ritual, ocasião em que o ministro Celso de Mello pediu para proferir o seu voto antes dos demais pares, quando de praxe é o último a se pronunciar. Isso foi prova de que algo fora orquestrado longe dos holofotes. No seu voto, o decano da Corte, abrindo a divergência, referendou a Liminar em menor extensão, ou seja, manteve Renan Calheiros no cargo de presidente do Senado e o impossibilitou de exercer o ofício de presidente da República. Seguiram Celso de Mello os ministros Teori Zavascki, Dias Toffoli, Luiz Fux, Ricardo Lewandowski, e, pasmem senhores, a presidente do STF Cármen Lúcia, sobre a qual depositávamos confiança numa possível moralização da Justiça brasileira. Sublinho os nomes. Mais detalhes sobre o comportamento desses seis mercadores de coisas morais (i) a atenta mídia já cumpriu o seu papel tecendo comentários suficientes, por isso, desobrigo-me dessa tarefa.

Marco Aurélio Mello não ficou sozinho no deserto, Edson Fachin e Rosa Weber deram as mãos a ele e serviram um cantil de água. Dois ministros não votaram, Luís Roberto Barroso declarou-se impedido porque foi sócio de um dos advogados da REDE Sustentabilidade e o ministro Gilmar Mendes porque estava em viagem pela Europa. O fato é que o clima no STF não está dos melhores, os seis ministros que se aliaram ao calhorda do Renan Calheiros devem estar se perguntando: Por que eu fiz isso? De repente o arrependimento não os atinge, e, como estratégia de defesa, basta engambelar o povo com discursos rocambolescos e ininteligíveis.

Nessa vida, tudo é um processo. Houve, sim, um ACORDÃO, uma costura política com fios de ouro, longe do olhar da sociedade. O presidente Michel Temer e a sua base aliada articularam “acordos” junto ao Supremo Tribunal Federal para preservar Renan Calheiros, em nome da suposta governabilidade do país e em defesa de uma frágil agenda positiva, de projetos de interesse do Executivo, prestes a serem votados, como a PEC dos Gastos no próximo dia 13. São esforços em vão porque o Brasil está literalmente quebrado e necessita de intervenção.

Mané essa de linha sucessória da presidência da República. O povo não está interessado nisso, aliás, nunca esteve. O que ele não aceita é ladrão corrupto comandando uma das casas legislativas e o Congresso Nacional. Agora, quando o governo chega a esse ponto de precisar de um ladrão para ajudá-lo a aprovar os seus projetos é extremamente preocupante, é sinal de que muita coisa está errada e precisa ser mudada o quanto antes. Justiça, política e opinião pública são mundos completamente diferentes. O clamor de meio milhão de cidadãos visto nas manifestações do último domingo (04/12) foi jogado às ravinas. No final de tudo isso, fica a impressão que o Brasil não vive sem injustiça, sem impunidade, sem crime e sem corrupção.

Renan Calheiros é aquele rato que rouba sem medo e que desafia o dono do queijo, sempre.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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