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Falar bem ou mal? Eis a questão.

Falar bem ou mal? Eis a questão.

“Falar de alguém é difícil, é complicado”. Na rua, cruzei com duas pessoas conversando e ouvi de uma delas esta afirmativa. Não imagino qual o tema principal da conversa, entretanto, achei interessante trazer a opinião para o dia a dia de uma organização, para o mundo corporativo. A reflexão é importante para tentarmos compreender o comportamento das pessoas, aliás, a gestão empresarial é feita por gente que administra e gente que operacionaliza – enquanto as máquinas não assumirem definitivamente o papel do homem no processo produtivo o modelo será este. Por suas limitações, os seres humanos “são” e “estão” suscetíveis a erros e acertos, sobretudo no processo de comunicação pela sua dinâmica, interativa e viva na essência. O que não acontece com os materiais que podem ser percebidos pelos sentidos (objetos e coisas, mercadorias e artigos, bens de consumo, o que é palpável), de modo que, nessa perspectiva, limitamo-nos a dizer “gostei” ou “não gostei”, disso ou daquilo, por um motivo qualquer.  Na medida em que pessoas são envolvidas na mútua relação, em que haja correspondência, todo o cuidado deve ser tomado nessa interatividade na questão da “opinião falada”.

Certamente você já deve ter ouvido esta máxima: “Errar é humano, por isso, errei por ter falado sem pensar”. Independente do reconhecimento, é raro alguém enfatizar: “Da próxima vez vou pensar três vezes antes de abrir a boca”. Agora, fazer voltar à boca as palavras que dela saíram é missão impossível de cumprir. Acho que ninguém tentou antes. Vovó sempre me falava que existem quatro coisas que a gente nunca recupera: a oportunidade perdida, porque foi desprezada; o tempo, que passou despercebido e não se viu; a pedra, quando a lançamos de olhos fechados; a palavra dita. Dependendo da nossa ótica, podem existir mais coisas que a gente jamais recupera, como a confiança perdida, porém, vamos ficar nos quatro exemplos da vovó Thomázia. Destes, a “palavra dita” se destaca pelos estragos que pode causar.

Os sete “colegas” João, Hugo, Pedro, Guilherme, Lúcia, Janete e Marcela estão reunidos num bar curtindo momentos de descontração. Os homens começam a falar de Maurício, que não está presente. As mulheres comentam sobre Sílvia, que não foi convidada. Hugo se despede e vai embora. João, Pedro e Guilherme começam a criticar Hugo. Lúcia vai ao toalete e as duas que ficaram na mesa, Janete e Marcela, levantam suspeitas sobre a fidelidade de Lúcia. Lúcia volta e é a vez de Marcela ir ao toalete. Janete e Lúcia concordam que Marcela está mal vestida. Janete prende a urina, permanecendo na mesa até o fim do encontro. Ao encontrar o namorado no próximo bar, Janete continua falando mal das amigas e o seu namorado mal dos amigos. Foi a vez de o terceiro “colega” ir embora, o João. Restaram na mesa do bar, Pedro, Guilherme, Lúcia e Marcela. Começou, portanto, uma nova rodada de críticas e diz-que-diz-que à medida que um deles se afastava do reduzido grupo. Nenhum queria ser o próximo a ir embora para não virar o “Judas” da vez, por isso, resolveram sair juntos. Quando Maurício encontrou Sílvia mandou essa: “Filhos de uma boa mãe aqueles caras que não me convidaram para o encontro. Eles não perdem por esperar, vão ver só. Pensando bem, antes sozinho do que mal acompanhado”. Sílvia, por sua vez, não se fez de rogada: “Eu também não fui convidada, amigas da onça, com certeza falaram mal da gente. Vou espalhar pra todo mundo alguns segredinhos delas”. “Vamos tomar um chope” – convidou Maurício. “Não, obrigada, preciso acionar já o meu WhatsApp para começar a vingança” – respondeu Sílvia.

O cérebro humano parece que está preparado para identificar mais defeitos do que qualidades. De todo modo, não são estímulos inatos, mas impulsos aprendidos no decorrer da vida – copiamos exemplos e quase sempre os modificamos pra pior. Fato é que temos uma imensa capacidade de nos influenciarmos pelos outros, por isso, passamos a assumir riscos, ainda que inconscientes sejam os perigos. Esses frequentes comportamentos, comuns na nossa vida cotidiana, viram prática nos ambientes empresariais, e até os chefes diretos, bem como os demais superiores, não são poupados de críticas e de comentários depreciativos. Se eu não gosto de alguém farei de tudo para que os “colegas” mais próximos de mim também não gostem e passem a desvalorizar a sua importância, ou seja, daquele (s) que não guardo simpatia e afeto.

A fala com B que leva pra C que fala de D que critica A B e C que se queixa com E que ameaça B que reclama com F. Ao final das conversas fiadas (fofocas) um deles acaba se ferrando, tendo que assumir responsabilidades perante os superiores e também responder pelos seus atos de alguma forma – a maioria das vezes perde o emprego pela reincidência. Se os WCs, corredores, salas de reunião, áreas para fumantes e os refeitórios das empresas tivessem “ouvidos”, e não olhos mecânicos, seria um problemão para muita gente que se “acha boa”, que se julga importante perante os colegas de trabalho. Para a felicidade de muitos, colegas ou não, as câmeras de vigilância não captam sussurros ao pé de orelha. Como “dominar” a conduta humana, já que ela é manipulável? Não há como. Ações repetitivas e reações influenciadas pelas circunstâncias aparentes. Como entender o que fazemos uns com os outros gratuitamente? Por quê? O que verdadeiramente somos? As hierarquias sociais existem para que o indivíduo se sobressaia no grupo de convívio, natural e espontaneamente. As críticas pessoais se tornam elos de compartilhamento, desde que “olho no olho” e que se processem com sinceridade. A franqueza não é hábito dos covardes.

Falar é o ato de se expressar através de palavras sonoras; quem detém o dom da fala passa a vida toda falando. Como temos dois ouvidos deveríamos ouvir mais do que falar, ter disposição para escutar, porém, não é isso que acontece na prática. Gente há que abra bem os dois ouvidos, não para escutar com detalhes o que os outros têm a dizer, mas para deixar as palavras saírem com a mesma rapidez que entraram. “As palavras entram por um ouvido e saem pelo outro”. Importante ressaltar que os gestos, dependendo dos movimentos do corpo, podem comprometer sobremaneira a comunicação (no seu todo ou parte), ainda que sejam, esses gestos, outra modalidade de transmissão e recepção de ideias/mensagens – simples gestos expressam os mais enigmáticos pensamentos. Mãos, dedos, braços, cabeça, olhos, semblante também falam. Falar pelas costas é condição imperativa para aqueles que não têm respeito e personalidade – a partir daí tudo foge ao controle. O que vemos são verdades e mentiras brincando juntas num carrossel de cavalos de madeira, e pagamos pra ver qual delas, a verdade ou a mentira, pedirá para desligar o disjuntor do parque.

“Falem mal, mas falem de mim”. Tal frase não deveria fazer mais sentido na nossa sociedade. Os contatos virtuais têm permitido que as pessoas se maltratem sistematicamente porque elas não se entreolham. Nas redes sociais as pessoas falam mais “mal” do que “bem” quando se trata do semelhante. Essa é uma tendência perigosa, contudo, o anonimato, como “escudo de defesa” dos agressores, está acabando pela revelação desses autores. Felizmente. Cada um pode se tornar estímulo do outro. Pense nisso.

Quando se pede opinião sobre alguém, sobretudo num processo de avaliação profissional, é importante que as perguntas se fixem estritamente ao campo de trabalho, de modo que os aspectos pessoais devem ficar de lado. Há quem defenda a tese: “Quando se fala bem das outras pessoas, repetidamente, dá a impressão de ‘diminuição’ de si próprio, e o elogiado acaba se sobressaindo a tudo e a todos”. Seria isso, uma falsa preservação da imagem, que leva as pessoas a denegrir o semelhante? Seja qual for o motivo, as estatísticas não enganam. Ao longo da vida, devidamente acordado, o indivíduo gasta 70% do seu tempo disponível falando dos outros e sobre eles, 25% sobre coisas fúteis e 5% de si próprio. O pior é que as pessoas, de um modo geral, não se dão conta disso. Você sacou? Que tal inverter o processo?

Enquanto seres pensantes, nós deveríamos saber a hora certa para nos pronunciarmos, saber identificar o público ouvinte, deveríamos saber empregar a mensagem certa, evitando o uso de palavras chulas, enfim, saber o momento certo de parar de falar e passar a ouvir com a devida atenção o que os outros têm a dizer. Ser direto não quer dizer, necessariamente, ser rude ou grosseiro; interromper a comunicação não quer dizer, necessariamente, falta de educação; usar palavras de baixo calão, preferencialmente, em piadas e em locais apropriados. Vale lembrar que toda a comunicação tem o seu processo realimentado. É o famoso “bate e volta” conceituado pelo Feedback. O Feedback pressupõe uma via de duas mãos; toda “ação verbal” estimula “reação verbal”, esta podendo se dar com menor, na mesma intensidade, ou com maior energia. Agressões físicas ficam, portanto, descartadas neste fórum de discussões.

O grande problema da atualidade é o indivíduo não ser compreendido na origem da comunicação. As razões são muitas, inclusive formação de nova cultura. Para reflexão: “Quem fala o que quer, ouve o que não quer”. Para ambos, emissor e receptor, talvez falte uma análise crítica. O direito de resposta nem sempre é acatado; a reparação e a retratação questionáveis na inexistência de mediadores. De tudo o que foi dito, destaco atitudes importantíssimas: “Saber quando falar, quando calar e, sobretudo, a ocasião de ouvir”. Há pessoas que “só falam bem quando estão caladas”, por outro lado, fazer “ouvidos de mercador” às vezes é necessário. Esta premissa tem a sua validade comprovada quando você está diante de pessoas reconhecidamente cavalgaduras, mas, não se aplica ao mercado nos contatos com os seus clientes – estes têm o direito de falarem o que quiserem, e, por dever de ofício, a você cabe ouvi-los, interpretá-los, compreendê-los e superar as suas expectativas. Eis a questão.

Frase do dia:

“As palavras têm poder, são armadilhas e podem ferir mais do que punhais afiados”.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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