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Política

Eleições 2016.

Eleições 2016.

Os nossos problemas esbarram na formação de conceitos. O Brasil que, em dias de eleições, precisa lançar mão das Forças Armadas e da Força Nacional de Segurança para garantir a ordem pública, a meu sentir, é a confirmação da distorção do sistema em todos os sentidos. Tal fato é preocupante, porque revela claramente que estamos andando na contramão da normalidade democrática, onde as liberdades são respeitadas, pelo menos deveriam ser.

A “democracia representativa” pressupõe participação e inclusão, precisa de votos populares para se consolidar conforme determina o sistema político-eleitoral em vigor no país. Neste domingo, 30 de outubro de 2016, aconteceu o 2º Turno das Eleições Municipais em 57 cidades brasileiras. Sob os holofotes da República, o “poder” continua seduzindo os homens, como a Medusa, atraindo competidores de vários matizes ideológicos, sem, contudo, transformá-los em pedra, mas que num futuro próximo cobrará um preço alto pela sua conquista. Andando na paralela, a “democracia impositiva”, que denota fragmentação social por ser excludente, mas a aceitamos, independente se o cabresto tem o mesmo tamanho para todos – como frutos dessa árvore nós colhemos significativos índices de abstenções, votos em branco e nulos.

O que temos visto a partir das últimas eleições é o banimento da ética pública associado à sistemática prática de crimes eleitorais que, em especial em 2016, descambaram para crimes contra a vida, com o registro por todo o país de assassinatos de candidatos a prefeito e vereador, além de outros atentados orquestrados por milícias armadas e pelo crime organizado que, há algum tempo, está infiltrado na política nacional. Um momento triste para a nossa jovem República. A violência apresenta-se com vertentes, ela entrou oficialmente na política. Nas eleições municipais de 2016 foram 20 candidatos assassinados durante a campanha eleitoral. Um caso que comoveu o país aconteceu na cidade goiana de Itumbiara, na qual, um funcionário público matou a tiros um candidato a prefeito José Gomes da Rocha (PTB) e também baleou o vice-governador goiano José Eliton (PSDB) que estava ao lado dele na carreata.

“Eu roubo, mas não peço propina”. Esta confissão bizarra foi dada pelo candidato a prefeito da cidade de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais, Alexandre Kalil (PHS), num debate de TV, após o seu adversário político o ter acusado de corrupto. Roubar já virou exigência de currículo político (Expertise), e motivo de orgulho descarado diante da opinião pública. Alexandre Kalil (PHS) acabou sendo eleito, hoje, domingo, 30/10/2016, prefeito no segundo turno, derrotando o candidato do PSDB João Leite, que pertence ao grupo político do senador Aécio Neves (PSDB-MG). Restou provado que as escolhas dos candidatos pelos eleitores não se fazem “pelos ouvidos”. Os eleitores estão interessados em baixarias até um determinado ponto.

Se não for feita, com a devida urgência, uma profunda reforma estruturante no sistema político-eleitoral (com maior abrangência, reforma no sistema político-partidário-eleitoral), brevemente veremos os partidos políticos e os políticos que os compõem, se transformarem em casos de Polícia e de Segurança Pública, em detrimento ao exercício dos cargos eletivos com elevado prejuízo para os cidadãos. Os políticos perdem muito mais tempo com CPIs do que legislando, ou na gestão executiva, ou na administração da coisa pública – significativa parcela de tempo também é perdida nos conluios para destruir adversários e, sobretudo, para conceber atos de corrupção, ora sistêmica e endêmica.

Sem entrar no mérito dos números, importante considerar que a cada eleição comprovamos o mesmo expediente empregado pelos candidatos nos debates políticos. Quem quer entrar pela primeira vez no poder ou quem deseja reconquistá-lo, sem a menor modéstia, detona o político que está saindo e desqualifica a sua administração. Quem está saindo do primeiro mandato e tenta a reeleição, detona os candidatos que concorrem diretamente com ele ao cargo eletivo. Discutir os cruciais problemas dos munícipes é pauta deixada de lado. Fazemos por merecer.

No Brasil questiona-se a obrigatoriedade do voto, ainda que obrigatória seja a presença do eleitor na seção eleitoral. A meu sentir, deveriam ser facultativos, o voto e a presença. Tudo aquilo que se impõe “obrigação” para o cidadão deveria ser revisto. Defendo a tese de que o indivíduo deveria exercer a espontaneidade nos seus atos, provavelmente isso o tornaria mais participativo e responsável – essa, portanto, é a base da “democracia representativa”. Como construir e demonstrar um razoável juízo de valor sob pressão? Não há como.

Verdade é que os brasileiros não estão preparados para votar com consciência plena porque lhes falta a educação política necessária para o cumprimento da cidadania participativa, porque lhes faltam conceitos básicos do sistema político-eleitoral e seu funcionamento. O “voto quantitativo” prevalecendo sobre o “voto qualitativo”; nessa linha, as eleições por todo o país são definidas, e a massa de eleitores elegendo candidatos da pior espécie. Por isso, vivemos eternamente a reclamar e não mudamos quando temos a oportunidade de fazê-lo. A falta de Recall é outra questão que precisa ser abordada com isenção. Trocar seis por meia dúzia, deixar o velho político onde está por medo do novo, na dúvida vou seguir a opinião dos outros, enfim, o eleitor terá e dará sempre uma desculpa para justificar os seus desacertos e a falta de conhecimento do sistema. Em geral, os brasileiros não escondem a sua inapetência política.

O Marketing político, como ciência subliminar, ilude o eleitor, convoca-o a apostar no pior e depois o joga num profundo sentimento de desencanto. A estratégia acaba sendo a mesma em todos os sentidos, o que muda é só o tempo num quadro de piora das circunstâncias. Aumenta a intenção dos eleitores em anular o voto, cidadãos que não se sentem representados, por isso protestam dessa forma. Vimos candidatos fugindo dos questionamentos nas entrevistas e nos debates, muita polarização, desconstrução de campanhas, enfim, nada de novo sob o sol de primavera. Duas realidades: o descaso dos políticos com o dinheiro público em decorrência da apresentação de propostas mirabolantes; o aumento da rejeição da classe política por parte dos eleitores com inteligência mediana.

Eu não morro de amores pelo presidente da República Michel Temer (PMDB-SP), porém, tenho que concordar com ele numa frase que disse na quinta-feira, 27/10/2016, numa entrevista coletiva à imprensa no Palácio do Planalto: “Nós precisamos, mais do que nunca, mudar a cultura política do país. Nós precisamos ter ciência e consciência de que as Instituições hão de ser preservadas e respeitadas”. Julgo coerente a sua afirmativa, entretanto, no entendimento dos maus políticos isso não é regra. De todo modo, segue quem quiser.

As eleições municipais de 2016 sinalizaram como ficará o mapa político e servem de avaliação para as disputas de 2018. A partir de agora os partidos líderes iniciam os seus trabalhos, enquanto os partidos coadjuvantes ajustam as suas tabelas de preços para a venda de apoio. Regra geral o povo continuará não sabendo separar o joio do trigo. Por cultura, há décadas, a política tem sido usada pelos políticos demagogos como trampolim para defesa de interesses próprios e dos grupos aos quais pertencem, para se perpetuarem no poder e, na grande maioria dos casos, para o enriquecimento ilícito. Estamos caminhando a passos de tartaruga rumo à construção de um novo Brasil – não será na minha geração que ficará pronto! A Operação Lava-Jato entra nesse cenário como um divisor de águas. Seja em qualquer eleição, a dúvida é saber quanto tempo levará um candidato eleito “quase honesto” para se transformar em político de carreira “totalmente desonesto”. Por experiência, O PT pagou pra ver. Em 2012 conquistou 638 prefeituras municipais, em 2016 caiu para 254, perdendo 384. A corrupção deixa marcas terríveis e, sendo combatida com o devido rigor pelos órgãos competentes, faz brotar a esperança.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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