>
Você está lendo...
Naturismo

Normal ou natural?

Normal ou natural?

Recentemente, em eventos distintos, duas pessoas me fizeram comentários que cabem perfeitamente no tema ora discutido. A primeira pessoa disse: ”Tenho que permanecer de roupa para receber os novos casais que estão chegando ao sítio”. A segunda pessoa não mediu palavras: “A fulana de tal (disse o nome) foi chamada à atenção por um grupo de mulheres que estava presente na praia pelo fato de não se comportar com o devido cuidado, com o exigido pudor, expondo as suas partes íntimas para quem quisesse vê-las”. Eu logo deduzi, nesse caso, que se referia à parte externa da vulva, denominada vestíbulo da vagina.

Com relação ao que falou a primeira pessoa, seria normal ter permanecido de roupa para receber os novos casais em sua própria casa, não num sítio alugado para encontro naturista. Quem foi convidado para ir àquele sítio sabia de antemão que iria encontrar pessoas naturalmente nuas, de modo que o melhor cartão de visita seria os corpos nus, não só para os nudistas experientes na prática, como, sobretudo, para os iniciantes, que sempre esperam uma “recepção a caráter”. Quanto às palavras da segunda pessoa, seria plenamente normal chamar a atenção da suposta despudorada se ela exibisse o vestíbulo da vagina no interior de uma igreja no momento da missa, não numa praia oficial de nudismo. A parte externa da vulva faz parte do corpo feminino, compondo-o, não há como arrancá-la – escondê-la o tempo todo é tarefa impossível. Dentro dessa esteira de raciocínio, pergunto: No ambiente naturista, como praticar esportes como vôlei, por exemplo, quando nas cortadas, nos saques, nas manchetes e defesas as jogadoras se arreganham todas?

O instinto sexual é realmente bestial. O homem ficará de pênis ereto quando provocado pela visão da parte externa da vulva. Já a mulher não terá provas contra ela quando se excitar com a visão de um pênis que lhe agrada, estando ela ou não de óculos escuros. Então é isso? A meu sentir, quem age de maneira espontânea, simples e desafetada não deveria sofrer críticas inapropriadas. O naturista que age ou se comporta de maneira artificial não faz por merecer conviver no grupo de “nudistas naturais”. Nudistas “normais” existem? Um rápido filme me passou pela cabeça e recordei da peça teatral escrita por Nelson Rodrigues em 1965, “Toda nudez será castigada”. Em algumas reuniões sociais, com ou sem roupa, eu vejo em alguns rostos masculinos a figura do Serginho, filho de Herculano, personagem que possui fortes tendências homossexuais e oscila entre o chamado conservadorismo das tias e o declarado liberalismo do tio. Outra personagem que vejo no rosto maquiado de algumas mulheres trata-se da Geni, uma prostituta que vive a obsessão de morrer de câncer no seio. Restou configurado que a ficção estimula os instintos, por isso, as mentes são brilhantemente fantasiosas.

Por que os animais não são chamados à atenção por exporem os seus órgãos genitais? Os bichos domesticados, como cães, gatos, macacos, cavalos e demais equinos (e outros bichos) são até acariciados, sem qualquer preocupação por parte dos seus donos, lembrando que eles (os animais) também se masturbam e são hábeis na auto-felação, ou seja, fazem sexo oral com o próprio pênis. O macaco que o diga. E por falar em animal… Os animais são mais sábios do que os humanos, por isso praticam a auto-felação na presença destes. O que significa agir normalmente e proceder naturalmente? É considerado normal um homem matar outro homem? A violência é condição natural do homem moderno, porém, quando ele agride o seu próximo, indiretamente está ferindo a si próprio. O que diferencia os humanos dos animais na questão do cometimento da violência são as motivações. Os animais não matam outros animais por vingança ou ódio. Segundo o filósofo Arthur Schopenhauer (Dantzig – 1788, Frankfurt – 1860) “O homem é o único ser capaz de fazer mal a seu semelhante pelo simples prazer de fazê-lo”. Matar a vontade da experimentação pessoal, inibir comportamentos naturais e forçar atitudes perante o grupo de convivência são outras formas de violência.

Muitas das teses acadêmicas têm a sua comprovação prejudicada porque a prática mostra outra coisa, de modo que impor ideias por simples ideias não quer dizer, necessariamente, a possibilidade de se patentear conceitos pessoais e limitadores. São muitas essas proposições que se fazem para serem defendidas em campos onde “não haja” contestação. Estamos caindo numa seara perigosa quando, nos discursos, queremos impor falsas filosofias naturistas dentro de normas engessadas e ortodoxas, que se desfazem como flocos de neve em sol de primavera. Isso espanta quem quer abraçar o natural estilo de vida em plena liberdade com a natureza nesse universo de desencantos constantes. Se não conseguimos enxergar o próximo com naturalidade há algo de muito errado. Eu não posso me refletir no espelho dos outros. A mim me parece ser tudo natural. Tudo que é julgado normal obrigatoriamente tem que estar de acordo com a norma, com a regra. Aquilo que se nos impõe obrigado, na amplitude desejada, deturpa os resultados.

Outra pergunta se faz necessária, mostra-se importante: Somos presunçosos normal ou naturalmente? A hipocrisia não combina com o naturismo – falei sobre isso no artigo que escrevi neste Blog no dia 26/08/2014, de título “Naturismo e a hipocrisia”. Dele extraio o seguinte excerto: “O espírito hipócrita demonstra pretensão ou fingimento de ser o que não é; pessoas escondendo-se atrás de uma máscara de aparência. Fingir qualidades, sentimentos, significa não aceitar a realidade. Não possuo, mas demonstro; não sou, mas afirmo o contrário. Pessoas separadas por superficialidades. Há décadas ouvi de uma mulher Naturista: ‘Cruzo as pernas para ninguém ver o meu útero’. Enquanto isso o seu marido dizia: ‘Não me abaixo para que ninguém veja os meus testículos pendurados, ou, na pior das hipóteses, o meu ânus’. Preocupações pessoais que deveriam ser descartadas no mundo Naturista. Normalmente o auto-engano é desfeito numa mesa de cirurgia, ou, em último caso, no Departamento Médico Legal – dois lugares românticos que mostram verdadeiramente o quanto vale o monte de carne fresca ou morta que é constituído o corpo humano. Liberta-te da casca e verás a beleza da alma. A falsidade quando se volta contra nós tem um cheiro de enxofre. Vícios e virtudes são como água e óleo, jamais se misturam, ainda que se aumente a temperatura das relações”.

Augusto Avlis

Navegue no Blog  opiniaosemfronteiras.com.br e você encontrará 718 artigos publicados em 14 Categorias. Boa leitura.

Anúncios

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts.

Junte-se a 145 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: