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Política

Maldito verbo

Maldito verbo

O dicionário é claro, não é à toa que é considerado o “Pai dos burros”. Mas os burros existem; comprovada a existência quando insistem no emprego de determinadas palavras fora de contexto. O velho dicionário me orienta: Contexto é a relação de dependência entre as situações que estão ligadas a um fato ou circunstância. Exemplo: O contexto social da ditadura. O que compõe o texto na sua totalidade; a reunião dos elementos do texto que estão relacionados com uma palavra ou frase e contribuem para a modificação ou esclarecimento de seus significados. Encadeamento do que compõe o discurso; contextura. Linguística: Ordenação sequencial extralinguística que, durante um ato comunicativo, determina as circunstâncias de utilização da língua.

Pois bem, estou tendo crises existenciais todas as vezes que a mídia em geral me “obriga” a escutar e a ler o verbo “supor”, o adjetivo “suposto” (a) e o substantivo “suposição” nas matérias jornalísticas, sobretudo nas pautas políticas. Qual a razão de tanta preocupação e até mesmo ira? Normal e naturalmente os meus leitores me perguntariam. São muitos os motivos que não me cabe aqui relatar. Uma coisa me deixa em idêntico “estado de putez aguda”, a boçalidade dos políticos. Vamos direto ao assunto. O velho dicionário me orienta: Supor é basear em hipótese – suponhamos que você tenha razão. Julgar; achar ou considerar de certa forma; afirmar sem certeza – supunha conseguir o emprego; supunha-o falido; supõe-se inteligente. Conjecturar, presumir, imaginar – supõe-se que os corruptos sejam desonestos. Exigir a necessidade ou a existência de – os benefícios supõem trabalho. São sinônimos de supor: adivinhar, conjecturar, imaginar, julgar, pressentir, pressupor, presumir e prognosticar. Suposto é tudo aquilo que é falso; desprovido de verdade – um suposto filho. Que se admitiu através de hipóteses; proposição usada para se deduzir alguma coisa – foi condenado por supostas provas. São sinônimos de suposto: fictício, figurado, hipotético, imaginário. Suposição é aquilo que se supõe.

“Supõe-se que os corruptos sejam desonestos”. É o que eu queria provar na minha teoria. Tá vendo como a gente aprende recorrendo ao dicionário, o conhecido “Pai dos burros”? Outro dia eu li no ESTADÃO Conteúdo: “O ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou na noite desta quarta-feira, 06, habeas corpus ao ex-diretor da Petrobras Renato Duque, em prisão preventiva desde março por “suposta” participação no esquema de corrupção envolvendo a Petrobras, deflagrado pela Operação Lava Jato”. É desprezível saber em que mês se deu isso, o importante é saber: por que a expressão “suposta” está escrita entre aspas, em negrito e sublinhada? Seria o sinal de um novo tempo no processo de comunicação, (um protesto velado), ou seria mais uma afirmação do veículo de que tudo não passa de falso, desprovido de verdade? Nós também podemos achar que o próprio Renato Duque é falso, desprovido de verdade, aliás, ele não existe. O suposto induz à negação. Não há provas… Mesmo que elas existam de fato e de direito. No futuro próximo os advogados de defesa do corrupto Renato Duque dirão à Justiça: “Foi condenado por supostas provas”. O pior é que vai ter gente que acreditará nas palavras dos advogados, mesmo porque a opinião pública também é formada com base em hipóteses, de um modo geral as pessoas fecham os olhos à realidade e desprezam os fatos e de nada adianta ter o “Pai dos burros” nas mãos para consultas. Prevalecem as interpretações nas ilhas de sabedoria popular. Nada é o que parece ser, e quando é, deturpa-se o fato.

Prova disso é o jornalismo da Rede Globo, que parece não ter evoluído, ou está orientado a agir de acordo normas impostas por uma “suposta” diretoria “supostamente” obtusa, porém, com propósitos bem específicos que satisfazem determinados interesses não especificados. A essência da comunicação está passando por um perigoso processo de transformação. Para me fazer entender precisarei entrar no mérito da análise, de modo que este artigo não é o fórum adequado pra isso. Em síntese, o que eu quero dizer é o seguinte: Notícia é aquilo que a gente ainda não sabe. Será? Ou notícia é aquilo que a mídia quer que você saiba? O que aconteceu vira notícia; nem sempre os acontecimentos são colocados à opinião pública refletindo a realidade, apenas as aparências. Eu me lembro perfeitamente, lá no início da década de 80 do século passado quando cursava jornalismo, numa grave enchente que houve no Rio de Janeiro provocando enormes prejuízos com vítimas fatais, ainda estagiário, eu fui cobrir o evento junto com uma equipe profissional de reportagem de uma rede de TV. Quando chegamos ao local determinado, verificamos que o cenário não apresentava mais sinais de ter ocorrido uma desgraça que pudesse chocar os telespectadores, mas chovia e o canal ainda estava cheio com forte correnteza. Foi aí que um cinegrafista daquela “equipe profissional de reportagem de uma famosa rede de TV”, ao constatar que havia na área uma carcaça de carro abandonada, sugeriu jogá-la dentro do canal. Sugestão atendida, o carro desceu canal abaixo e a cobertura cinematográfica realizada nos moldes Hollywoodianos – com sucesso garantindo, boa audiência no horário nobre. Alguém da equipe ainda comentou: “Pena que na hora não passou um corpo boiando”. Como bom estagiário eu perguntei: “Por que a gente não mata um cavalo e joga dentro do canal para completar a cena?”.

“Fulano não foi encontrado”. “A nossa equipe de reportagem tentou contato, mas não obteve sucesso”. “Fizemos contato, mas fulano, beltrano e sicrano não retornaram às nossas ligações”. “Fulano nega seu envolvimento no esquema de propinas”. “O presidente do PT, Rui Falcão, afirmou que as doações são legais, contabilizadas e aprovadas pelo TSE”. Blá, blá, blá… O mesmo de anteontem, o mesmo de ontem, o mesmo de hoje, o mesmo de amanhã. Todo mundo já sabe as respostas. Perde-se um tempo danado e a informação se dá em gotas, como gozo de menino imberbe. Todos os “procurados” pela imprensa negarão os crimes praticados sob orientação dos seus advogados de defesa que, na maioria das vezes, são pagos com o dinheiro dos próprios crimes. Somos idiotas ou o quê?

O ainda presidente da Câmara dos Deputados, deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ), insiste em afirmar que os US$ 05 milhões estão sendo administrados via “Truste”, ou seja, por uma coligação econômica ou financeira que controla “impessoalmente” grupos de empresas e/ou grupos de investidores com o objetivo de monopolizar atividades específicas. Desse modo, Eduardo Cunha bate pé dizendo que os dólares não estão diretamente depositados em suas contas na Suíça (muito embora tenha confirmado que a fortuna é sua), portanto, não tendo controle sobre as suas movimentações. De onde veio essa fortuna? Para onde ela vai a gente sabe. Por ser inútil nesse momento para o país, sem préstimo algum, e por ser uma pessoa totalmente desclassificada, Eduardo Cunha poderia ser chamado de “Traste”, com letra maiúscula como “Truste”, mudando-se apenas uma letra. “U” de usurpador para “A” de acusado. Maldito o verbo “supor”, maldito o adjetivo “suposto” (a) e maldito o substantivo “suposição”. A propósito, bendito o termo “Traste”. A imprensa diria: “Suposto traste”.

Assisti à entrevista de Roberto D’Ávila com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nesta quarta-feira, 18 de novembro de 2015, 19h30min, na Globo NEWS. Lula concedeu a entrevista no Instituto que leva o seu nome, em São Paulo. Perguntas avulsas, sem pauta definida previamente, giraram em torno de assuntos conhecidos: governo Dilma, economia, Congresso, Petrobras, Lava-Jato, investigação do seu filho na Operação Zelotes (Meu filho tem que provar que fez a coisa certa), enfim, nada que tirasse o Lula do sério ou que acabasse com o brilho da sua cara de pau. Lula está em outro país, em outro planeta. Parece que nada de preocupante está acontecendo à sua volta e que ele não fez ou não faz parte disso. A sua consciência de normalidade causa espanto. Retórica, simplesmente retórica. Como sempre, Lula não perdeu a oportunidade de alfinetar a imprensa. Quanto ao governo Dilma, ele acredita que chegará a 2018, talvez já saiba, antes da imprensa, que os ânimos no Tribunal de Contas da União (TCU) e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já estão “acomodados”. A essa altura, o Impeachment da presidente Dilma não terá base de sustentação, salvo se a criticada imprensa brasileira deixar de usar os malditos verbos.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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