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Naturismo

Nu na portaria

Nu na portaria

Sábado, 10 de outubro de 2015, uma data para não ser esquecida, sobretudo pela ocorrência de um evento inusitado. Nele estão envolvidos o autor deste artigo (diretamente), minha mulher, meu cunhado, minha sogra e o meu vizinho (personagens secundários). Por motivo de “segurança corporal” desqualifiquei o meu vizinho como testemunha na suspeita de impetração de processo criminal.

– Mara, o seu Augusto está com algum problema?

– Elson, que eu saiba não, por quê?

– Hoje, por volta das duas horas da tarde, ele foi totalmente nu abrir a porta do prédio. Pode acreditar Mara, eu não estou mentindo!

– Depois desse comportamento do Augusto fica realmente comprovado que o diagnóstico do doutor está correto, o meu marido está com Alzheimer, infelizmente ele se juntou ao grupo de mais de um milhão de pessoas aqui no Brasil que sofrem com alguma forma de demência.

– Mas, Mara, quando eu vi o Augusto nu (pela primeira vez) fiquei muito preocupado porque a minha sogra vinha logo atrás de mim para entrar no prédio. Sorte dela que eu tive tempo de impedi-la, imagina se ela visse aquela cena!

– Elson, eu acho que serei obrigada a internar o Augusto num hospício naturista. Lá, com certeza ele não será criticado, e muito provavelmente encontrará outros nudistas por condição imposta.

– Mara, o seu Augusto age sempre assim?

– Não Elson, de vez em quando ele tem um lampejo de racionalidade.

– Mara, será que ele tirou a roupa com a intenção de se mostrar, de se exibir, ele estava bêbado?

– Não Elson, ele vem passando por uma crise de saúde que deve ser resolvida urgentemente. Coitado, o Augusto está em crise crônica, ele está enfrentando sozinho a doença de Alzheimer, ou qualquer outro tipo de demência, por isso, precisamos ajudá-lo. Na cabeça dele é um eterno conflito: isso pode, isso não pode, isso pode, isso não pode.

– E você Jailson, como cunhado dele, o que você acha disso tudo?

– Elson, existe muita maldade na cabeça das pessoas. Pode ficar despreocupado porque o Augusto é naturista, ele curte o nudismo, gosta de andar nu o dia inteiro dentro de casa.

– Jailson, na frente da sua mãe? Você não se importa?

– Elson, a minha mãe já está acostumada a ver o Augusto pelado, com aquele saco murcho, desprovido de vida, pinto escondido como uma lagarta no casulo aguardando o momento da transformação. Quanto a mim eu não olho para não me assustar!

– Meu Deus do céu!

Exclamara atônito o meu vizinho Elson (do ap 301) após tomar pé da situação, contudo, o meu drama estava longe de acabar. Eu sabia que em alguma hora do dia a minha mulher tiraria satisfações comigo. Tratei de vestir uma bermuda, difícil de ser arrancada na primeira tentativa, para me proteger de uma possível castração.

– Augusto, como você foi capaz de ir à portaria do prédio totalmente nu? Você me envergonha. Olha aqui, eu vou dizer pra todo mundo que eu estou separada de você e que age assim para se vingar, para me comprometer.

– Mara, meu amor…

– Não me chame de meu amor!

– Deixa só eu explicar, por favor, meu benzinho! O reclamante do nosso vizinho é muito crítico. Sei lá, eu esqueci que estava sem roupa, ouvi alguém chamar lá fora e pensei que fosse um amigo, mas foi o próprio Elson interfonando.

– Augusto, se você fizer isso novamente eu prometo que o interno. Que situação hein!

– Mara, meu amor, a prática do nudismo para mim é uma missão confiada por Deus, ele me elegeu para mostrar às pessoas como somos iguais quando queremos nos nivelar através do corpo nu.

– Poupa-me Augusto, não me venha com filosofias baratas.

– Mara, o Jailson, seu irmão, foi o único que me defendeu, você deveria se inspirar na atitude dele.

– Augusto, toma vergonha na sua cara!

– Meu benzinho, andar nu é tão natural que eu esqueci momentaneamente que estava pelado. A gente não se dá conta disso quando se é verdadeiramente naturista. Andar nu se tornou um hábito tão natural para mim que às vezes não me dou conta que estou pelado no mundo dos vestidos, que me tacham de maluco, um cara chegado a estroinices. A pele do meu corpo é a minha roupa.

– Hum…

– Mara, vamos inverter as coisas. E se o fato ocorresse com você, minha mulher, indo à portaria nua. Qual seria a reação do vizinho? Ficaria perplexo, entraria em transe ou admiraria o quadro com cara de idiota?

– Hum…

– Você só fala “Hum”, meu amor?

– Tá bom Augusto, você está perdoado!

– Assim fica melhor, um perdão sincero, de modo que me deixa mais à vontade para a nossa festa naturista de Helloween que acontecerá no final do mês. Com ou sem máscara no rosto todos nós somos iguais na filosofia naturista.

– Pois é Augusto, amoreco, todos nós nos nivelamos.

– Valeu!

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

4 comentários sobre “Nu na portaria

  1. Isso já estava demorando a acontecer. Sabia que um dia você ia escrever algo parecido. achei um barato.

    Publicado por nair | 12/10/2015, 18:50
  2. Se for para me defender de uma possível prisão, tudo bem.

    Publicado por augustoavlis | 12/10/2015, 20:55

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