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Política

Sintomas da crise

1A crise está instalada no Brasil. Ponto. Qual a sua magnitude o cidadão comum não saberia avaliar, de tal sorte as consequências, se haveriam desdobramentos e, sobretudo, qual fim seria dado. Em todos os momentos de crise, seja de caráter econômico-financeiro, político, de ordem social, de relacionamento, trabalho, existencial ou emocional, sejam como forem essas fases difíceis da vida, precisamos nos colocar num patamar que permita o pleno exercício da consciência e que facilite a formulação de um plano de ideias comuns. Mas, esta faculdade nem todos a têm, ou seja, pensar em soluções. Tudo tem um lado conceitual. Quando não nos identificamos com o processo de entendimento, sofremos; quando encontramos a porta de saída, reagimos instintivamente, de modo positivo, ou negativamente, dependendo da ótica. O brasileiro é marcado pela tolerância, pela “aceitação”, sem reclamar, mas, as suas ações tornam-se imprevisíveis quando chega ao seu limite – que o faz desviar da direção original tomando outros caminhos; passa a se comportar impulsivamente, de forma imprudente, muitas das vezes em desacordo com o bom senso. Vêm as críticas, interpretações diversas dos fatos, sensações de desânimo tomam conta dos cidadãos, aqueles considerados comuns – os sintomas caracterizam-se pela subjetividade, nesse sentido, ninguém consegue interpretá-los, senão a própria pessoa. Por outro lado, a adaptação à nova realidade, que geralmente foge ao seu controle, só faz agravar o quadro de incertezas. Dúvidas se acumulam, as cobranças se multiplicam, e o indivíduo se vê novamente numa sinuca de bico.

Por cultura, o brasileiro encara com tranquilidade as crises e os problemas que estão fora do seu perímetro. O tamanho e a gravidade dos problemas são medidos pela distância percebida entre essas questões e as pessoas; quando estão perto são vistos de uma forma, quando estão longe, de outra. Enquanto os problemas estiverem residindo na casa do vizinho tudo bem, mas, quando batem na nossa porta, aí a coisa muda de figura. A Operação Lava-Jato tem produzido uma infinidade de notícias, algumas mais surpreendentes do que outras. A toda hora fatos novos são revelados pela imprensa para a nossa perplexidade, dando a dimensão dos desdobramentos das investigações. Na paralela, a crise econômica está nos afetando sem piedade, sem qualquer espaço para previsibilidades, tudo acontece muito rápido. De repente a nossa sala de estar ficou cheia de visitantes indesejáveis e somos obrigados a conviver com eles – a crise política disputa o melhor lugar no sofá. Os invasores têm frase pronta: “Os incomodados que se mudem”.

A má gestão da presidente Dilma Rousseff (PT) está gerando crises institucionais graves com reflexos de toda ordem, muito embora alguns especialistas de plantão, comentaristas políticos, neguem a sua existência – o governo federal faz vistas grossas. Em disputa emocionante, decidida voto a voto, a presidente da República foi reeleita no 2º turno das eleições com 54,5 milhões de votos, equivalendo a 51,64% dos votos válidos. O seu rival, Aécio Neves (PSDB), obteve 51,04 milhões de votos, correspondendo a 48,36% dos votos válidos. Como, Dilma Rousseff, de 27 de outubro de 2014 a 1º de julho de 2015, ou seja, em apenas 08 meses, chegou ao fundo do poço com apenas 9% de avaliação positiva do seu governo, segundo levantamento feito pelo IBOPE e divulgado na quarta-feira, 01/07/2015? Uma pergunta que precisa de resposta. Nessa mesma pesquisa, o IBOPE apurou que 82% dos entrevistados consideraram que o segundo mandato da presidente é pior do que o primeiro, e que a avaliação negativa do governo chegou a 68% dos entrevistados, que o consideraram ruim ou péssimo.

A rejeição à presidente Dilma Rousseff está ligada diretamente às suas mentiras, ditas em período de campanha à reeleição, por isso ela é acusada de ter cometido estelionato eleitoral – ambas, rejeição e mentiras, têm o mesmo peso, são do mesmo tamanho, portanto, estão unidas pelo mesmo cordão umbilical. Não há o que se discutir. Em primeiro lugar, a crise do país começa pela falta de credibilidade – uma espécie de doença crônica –, de modo que a população não acredita mais no que o governo fala ou no que promete. Em segundo lugar, a incompetência administrativa de Dilma, aliada à inoperância política, coloca o governo em nível de inferioridade perante o Congresso Nacional. A maré não está pra peixe. O maior aliado do governo, o PMDB, está prestes a pedir o boné. Aprendi na vida que o amor é conveniência, quando os interesses e as utilidades acabam ocorre a inevitável deterioração dos sentimentos e dá-se início ao processo do ódio numa escalada brutal. A insegurança tem abalado os mercados.

Lembro-me de uma máxima que emprego em determinadas situações: “Casa que não tem pão, todos gritam, e ninguém tem razão”. No quesito cidadania, numa escala de zero a dez, qual a nota que atribuímos a nós próprios? Será que nós estamos tranquilos com relação ao dever cumprido? Será que cada um de nós fez ou está fazendo a sua parte segundo regras de conduta? Estão sendo organizadas manifestações populares em todo o Brasil para o dia 16 de agosto de 2015, que cairá num domingo de inverno. Grupos que se opõem ao PT e ao governo Dilma Rousseff (MBL – Movimento Brasil Livre, VPR – Vem Pra Rua e RO – Revoltados Online) desenvolveram o tema central das manifestações: “Não vamos pagar a conta do PT”. De certa forma já estamos pagando. Estão aí a inflação e o desemprego. Quando a rotina é alterada normalmente nos acomodamos, evitamos participar dos novos movimentos e criamos resistências, damos com os ombros. O futuro fica cada vez mais distante, as perspectivas nebulosas, o descrédito se sobressai às garantias da retomada de confiança. O Partido dos Trabalhadores sempre teve obsessão pelo poder, que o conquistou com promessas de mudança, porém, faltou-lhe a competência necessária para mudar o que considerou de errado. O PT apegou-se excessivamente a ideologias ultrapassadas, a filosofias doutrinadoras como forma de dominação das massas. Exagerou na dose e no conteúdo, virou neurose quando sentiu o gosto pelo dinheiro fácil que serviu para a compra da cumplicidade dos companheiros. Aos pobres mortais sobraram as promessas, as desilusões, o sentimento de engano.

Limitamo-nos a viver o hoje como se não houvesse o amanhã. A falta de interesse e o descompromisso com as coisas norteiam comportamentos. Não respeitamos o passado, não valorizamos o presente, por isso, não construímos o futuro. Continuamos achando que as novas gerações terão a oportunidade de se preocupar com isso. Um olhar para dentro de si para que se perceba a necessidade de “mudanças internas” e não esperar que eventuais “mudanças externas” contribuam para o nosso crescimento, para o nosso desenvolvimento ou bem-estar. Aprendemos a esperar pelos outros ao tempo que tolhemos a iniciativa própria. A servidão traz algum tipo de benefício às pessoas que não querem (ou se negam) arregaçar as mangas e trabalhar para ver satisfeitas as suas necessidades, sejam quais forem. Pardais no ninho à espera de minhocas no bico – condição atribuída aos que têm medo de dar o vôo solo. A intolerância nasce da nossa incapacidade e incompetência em não resolver os problemas e de não querer aceitar os fatos. Soluções por vezes em nossas mãos, e por simples comodidade, não agimos; por outro lado, realidades mal interpretadas porque pintamos um mundo cor de rosa com céu azul claro, sob um chão de desgraças. Não dá mais para julgar os outros quando nos omitimos sob uma atmosfera de egocentrismos. “Não venha me encher o saco porque eu não ajudei a construir a crise, de modo que eu não tenho, absolutamente, culpa no cartório, nada a ver com isso”. Diria a maioria das pessoas. Cada qual que carregue a sua cruz, até onde e quando as forças aguentarem – se não há confiável mapa de navegação, então que os instintos orientem o percurso.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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