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Política

Indústria da morte – 2ª parte

1“Armas por si não matam, quem provoca as mortes são as pessoas que as acionam. Armas não funcionam sozinhas, mesmo aquelas controladas remotamente, portanto, tem sempre seres humanos por trás dos disparos. Se alguém irá morrer é problema única e exclusivamente dessa pessoa que não soube se salvar, que não soube prever o acontecido, que não deu valor à vida no momento do perigo”. Estas afirmativas parecem soar “românticas” aos ouvidos daqueles que têm posicionamentos simplistas, opiniões firmadas à luz de entendimentos parciais, obtusos e tendenciosos acerca de um problema mundial da mais alta complexidade, o crescimento vertiginoso das exportações de armamentos, que acontecem regularmente sem o devido controle internacional e, sobretudo, sob estímulos governamentais que fomentam o negócio extremamente lucrativo para quem vende e catastrófico para quem compra – os impactos são geralmente irreversíveis; ao longo da história, a humanidade tem testemunhado verdadeiros horrores de guerra. Posições ideológicas, integridade territorial, perpetuação de poderes e novas conquistas são ingredientes explosivos que afetam diretamente a pauta de negociações entre determinadas nações, que costumam sair do campo diplomático para o bélico, e, nesse sentido, o país que detiver a maior disponibilidade de equipamentos militares terá melhores condições de mudar o rumo da história, ainda que provoque milhares ou milhões de vítimas. A rigor, agressores e agredidos, culpados e inocentes, invariavelmente, todos se tornam vítimas de um processo amedrontador provocado pelo próprio homem. No campo político muitas das vezes essas questões não são resolvidas, de tal modo que o emprego da força é a saída mais fácil, ou, a opção disponível.

O International Peace Research Institute (SIPRI) publicou na segunda-feira, 16 de março de 2015, o ranking dos países maiores exportadores mundiais de armas no período de 2010/2014. Segundo o relatório, a China se tornou o terceiro maior exportador de armas no mundo com uma participação de 5% do mercado total, ultrapassando a França e a Alemanha. O comércio mundial de armas cresceu 16% nos últimos cinco anos, em comparação ao período de 2005 a 2009. Os Estados Unidos continuam na liderança, respondendo por 31% das exportações; Rússia vem em 2º lugar com 27%. A França perdeu o 3º lugar porque, devido ao conflito no leste da Ucrânia, cancelou a entrega à Rússia de um navio Classe Mistral no final de 2014. A Classe Mistral é uma classe de três navios de assalto anfíbio da Marinha Francesa, também conhecido como Porta-helicópteros. A China vem se destacando no cenário mundial de armas e possui uma lista de importantes clientes como Paquistão (41%), Bangladesh, Mianmar e mais 18 países africanos. O principal comprador da Rússia é a Índia, com 70% do comércio russo. Os Estados Unidos, por estratégia, mantêm clientes mais diversificados, o primeiro importador de armas americanas é a Coreia do Sul, com 9% do volume total Made in USA. Depois da Segunda Grande Guerra, o topo das exportações de armas aconteceu no início da década de 1980, em plena “Guerra Fria” (Período de acirradas disputas estratégicas, conflitos indiretos e espionagens entre os EUA e a União Soviética, que vai desde o final da Segunda Guerra Mundial em 1945 até 1991, quando a União Soviética foi extinta). A propósito de as exportações de armas no mundo estarem em ascensão na última década, ainda assim o volume é bem menor do verificado nos anos 80 – este fator pode indicar que boa parte dos países historicamente importadores podem ter atingido a auto-suficiência com o desenvolvimento de tecnologias próprias, tanto para a produção de armas leves quanto para equipamentos pesados, como navios, submarinos, aviões, tanques, mísseis, etc.

Benjamin Franklin (Boston, 17/01/1706 – Filadélfia, 17/04/1790), com a sua famosa citação, estaria defendendo o direito da população estadunidense de possuir armas? Em que pese a cultura armamentista dos norte-americanos, há um entendimento firmado sobre o emprego de armas de fogo: para salvar a própria vida, a vida de terceiros e defender a propriedade privada. O que está em discussão não é o direito à compra e à posse de armas, é o nível de preparo do cidadão, se está psicologicamente apto, se recebeu instruções básicas para manipular os armamentos. A problemática transcende limites nacionais de fronteiras, ela é global. Nos países em que os sistemas de governo, subliminarmente, incitam a violência quando estabelecem graves distorções nas divisões de classes baseadas em políticas excludentes, as crises armadas dão-se de forma mais abrangente. Obviamente que essa não é regra geral, todavia, nota-se uma tendência das sociedades sob flagelo econômico – cujas oportunidades deixam de ser seletivas e se tornam exíguas, abrindo abismos de diferenciações entre os indivíduos – em adotar o emprego de armas de fogo, entre outras finalidades, para impor a “Lei da sobrevivência”, cuja recomendação vem de líderes localizados que não pregam a paz.

Matar pode se transformar em ato contínuo; armas não são bens de consumo, mas objetos de intimidação. Sempre, o aspecto educacional-cultural será determinante no estabelecimento de divisores de águas. Temos nas mãos uma bomba de efeito moral; decisões governamentais não surtem os efeitos morais esperados. Aqui no Brasil, o governo federal achou que tirando as armas de fogo das mãos dos “cidadãos de bem” resolveria quase que totalmente o problema da violência, diminuiria o índice de homicídios por armas de fogo, aproximaria os brasileiros da crença em Deus, tornando-os menos vulneráveis. Esta decisão do governo Lula, esta sim, é um romance digno de Best Seller. Dois pesos e duas medidas, um tiro no pé, outro na testa. Que se dane a violência dos outros. Aliás, os militares deveriam ter questionado o governo federal sobre os Programas de Desarmamento da população, deveriam levantar o que estava por trás dos programas, quais as razões, quais as suas reais intenções, de modo que é sabido, o governo brasileiro (PT) está alinhado politicamente com Cuba e Venezuela e outros territórios bolivarianos, onde a democracia é questionável e um sonho distante, por serem países ditatoriais e por promoverem abertamente uma política de exceção, ameaçando a liberdade e os direitos civis. Liberdade? Direitos civis? A população virou refém de si mesma. Volto à citação de Benjamin Franklin.

Documento divulgado pela entidade Small Arms Survey em 2010 relata que o Brasil ocupava a 4ª posição no ranking dos países maiores exportadores de armas leves do mundo (revólveres, pistolas, fuzis, escopetas e munições diversas) – os seus maiores compradores foram os EUA, Malásia, Alemanha, Estônia e Cingapura. À época, os Estados Unidos lideravam a lista dos exportadores, seguidos da Alemanha e Itália. Muitos dos armamentos (armas e munições) exportados pelo Brasil “retornam” ao país pelas frágeis fronteiras, acabam caindo nas mãos dos bandidos e das facções criminosas. Nessa perspectiva, não há vontade política para se resolver o problema, que se arrasta há mais de uma década – passa a impressão que o crime move parte da economia brasileira. A facilidade de acesso às armas de fogo de várias origens aumenta a sua circulação e coloca o Brasil na marca da violência homicida. Segundo o “Estudo Global sobre o Homicídio 2013”, divulgado pelo Escritório sobre Drogas e Crime das Nações Unidas – UNODC, duas, em cada grupo de três pessoas assassinadas nos países das Américas, são mortas com armas de fogo. De acordo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (Referência da ONU para o estudo), aqui no Brasil, essa proporção aumenta, chegando a 70% do total dos homicídios. As estatísticas da ONU de 2013 revelaram que cerca de 50.000 pessoas foram assassinadas no Brasil naquele ano, dessas, 35.000 foram em decorrência do uso de armas de fogo. Em 2012, as armas de fogo mataram 41% do total de 450.000 homicídios praticados no mundo. As vítimas das guerras não foram consideradas nessas estatísticas.

“Armamentos convencionais são, por natureza, letais. […] É um pouco difícil culpar qualquer fabricante por seus produtos serem revendidos a terceiros. […] Estamos mais do que quarenta anos atrasados em relação a outras potências. […] Se há mesmo alguma verdade na acusação de exportação indiscriminada de armamento brasileiro para clientes de agenda duvidosa ou repreensível, posso afirmar que boa parte da culpa desses atos é da própria sociedade brasileira e da mídia, que não se esforçam para entender quão estrategicamente são vitais e importantes para o país são essas indústrias” – afirmou um leitor, com sua ótica simplista, com palavras próprias ou copiadas parcialmente de alguém tão maluco quanto ele, sobretudo quando atribui boa parte da culpa desses atos (exportação indiscriminada de armamento brasileiro para clientes de agenda duvidosa) à sociedade brasileira e à mídia. Pelo menos numa coisa concordamos: Armamentos convencionais são, por natureza, letais. Cheiro de pólvora queimada e do sangue das vítimas, corpos caídos, desespero, pedidos por socorro estão incorporados ao nosso cotidiano. Todas as opiniões sobre a matéria cairão por terra na medida em que se tornar popular a impressão de armas em 3D (3D printed guns) daqui a poucos anos no âmbito doméstico – hoje já é uma realidade. A vida passará a não ter sentido.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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