>
Você está lendo...
Política

Janela embaçada

1Todo dia eu pego no trânsito o jornal “metro”, e ontem, terça-feira, 25 de novembro de 2014, não foi diferente, eu peguei a edição nº 167, ano 1. Sobre a Operação Lava-Jato, manchete de primeira página: O último foragido – “Suspeito de transportar dinheiro para Youssef, Adarico Negromonte nega ter relação com o doleiro; diretor de empreiteira apresenta recibos de pagamentos de R$ 8,8 milhões em propinas. Escoltado por um policial, Adarico Negromonte Filho chega à sede da Polícia Federal em Curitiba na manhã de ontem”. Evidentemente que Adarico Negromonte negará todas as acusações de corrupção que pesam contra ele, assim como outros envolvidos no escândalo do Petrolão. Impressionante como esses criminosos, na hora de roubar, estão com a saúde perfeita e depois de presos apresentam doenças das mais diversas. A advogada Joyce Roysen, que defende Adarico Negromonte (irmão do ex-ministro das Cidades Mário Negromonte / PP), disse que o seu cliente, com 68 anos, está com a saúde debilitada e sofre de pneumonia. Outros investigados alegam quadro de hipertensão, como foi o caso do vice-presidente da Construtora Camargo Corrêa, Eduardo Hermelino Leite, que chegou a ser hospitalizado no último fim de semana. Problemas cardíacos também estão no “cardápio de desculpas” usado pelos presos, orientados pelos seus advogados como estratégia para adiar e dificultar os depoimentos. Cambada de filhos das putas – frente à montanha de dinheiro roubado ninguém tem um infarto pelo susto, ou admiração, que possa causar.

Engraçado como tudo na vida tem uma relação. Ao se aproximar de uma viúva, com a intenção de conquistá-la, o indivíduo sabe de antemão que pegará uma família pronta, portanto, não participou do seu crescimento e não tem laços familiares – muito provavelmente não terá. Um estranho no ninho que terá, a cada dia, que provar muita coisa até ser merecedor de confiança, ainda que não por parte de todas as pessoas com as quais conviverá. A desconfiança faz parte do convívio; sempre fez, de modo que é ela que desperta as descobertas. O seguro morreu de velho. Nos ambientes de trabalho acontece a mesma coisa. Um estagiário, por exemplo, não enxerga a empresa da forma como um funcionário efetivo. Comumente o estagiário está de passagem, por vezes, não dedica amor à empresa e por isso não cria maiores vínculos com o empresário que o acolheu temporariamente no seu quadro funcional. De idêntica forma, com o espírito autônomo, o estagiário não se envolve além da conta com os colegas de trabalho. Os objetivos do estagiário são bem claros: conseguir um emprego qualquer para não ficar parado, aprender algo diferente para enriquecer currículo, ganhar dinheiro para custear parte das suas necessidades consideradas indispensáveis. A qualquer momento, sem aviso prévio, parte em busca de melhores oportunidades – sem olhar pra trás e, o que é pior, não se importa com aquilo que os outros possam pensar dele.

Todos os indivíduos que desejam se aventurar no mundo da política, e aqueles que já estão dentro dela, têm a consciência de que o tempo que permanecerão no cargo, no exercício da suas funções, pode ser curto, pode ser por um mandato apenas, por isso, tudo farão para atingir os seus objetivos, dos quais citamos: arrumar a vida, participar de feudo eleitoral de um partido, amealhar verbas públicas em benefício próprio, vender a alma ao Diabo para não perder a “boquinha” – a corrupção não é objetivo, é dever de ofício. A gente sabe que na política não se tem cargos efetivos, se tem cargos eletivos. Estou falando do presidente da República e do seu vice (Executivo federal); estou falando dos senadores, dos deputados federais e dos seus suplentes (Congresso Nacional, formado pelas duas casas Legislativas); estou falando dos governadores e dos seus vices (Executivo estadual); dos deputados estaduais (Legislativo estadual); dos prefeitos e dos seus vices (Executivo municipal); dos vereadores (Legislativo municipal). Todo o resto do pessoal que vem a reboque é cúmplice por indicação política: ministros, secretários, subsecretários, gerentes, bajuladores e gente inútil. A continuidade do “político oficial” no poder dependerá da vontade dos eleitores, e estes, como nós sabemos, são “trabalhados” pelo Marketing político, mais nocivo do que a praga do gafanhoto.

Como aumentar a transparência dos atos públicos? Este é um problema que está sendo banalizado pela incessante discussão. Na paralela, a corrupção virou lugar comum, virou paisagem com foco no horizonte – ninguém percebe os detalhes. Há muito tempo eu venho dizendo, e escrevendo, que a corrupção “Made in Brazil” é sistêmica e endêmica, e como não posso patentear as palavras, nem as frases que as palavras constroem, essa opinião virou jargão na boca dos comentaristas políticos, sobretudo no tempo do Mensalão e agora do Petrolão. Aguardemos a próxima versão do crime político. Para o conquistador da viúva, para o estagiário e para os políticos, o descompromisso é fundamental regra de atividade, fenômeno que afeta diretamente as suas responsabilidades – ambos vêem o futuro por trás da janela embaçada. A rigor, para as empreiteiras, para os intermediários das operações delituosas e para os demais integrantes das quadrilhas estruturadas, a visão da corrupção é bem clara, independentemente de qual lado estejam. O “Poder da República” a tudo assiste, aguardando a sua parte no negócio, com a janela do palácio aberta para não perder ninguém de vista.

Augusto Avlis

Navegue no Blog  opiniaosemfronteiras.com.br e você encontrará 600 artigos publicados em 14 Categorias. Boa leitura.

Anúncios

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

2 comentários sobre “Janela embaçada

  1. Engraçado é o povo brasileiro, por causa de R$0,20 centavos de passagem foram para as ruas, hoje vemos milhões
    sendo surrupiado dos cofres públicos e ninguém faz nada, estão esperando por acaso os políticos fazerem por nós? olha os estouros que estão sendo desvendados, mais um hoje no fantástico, cidades no interior do nordeste, sendo saqueadas nas prefeituras, cada vez mais abusivos e o pior não bate aquele arrependimento, nem ligam se tem gente morrendo, sem comer, ou sem merenda nas escolas.

    Publicado por Nair Santos | 30/11/2014, 22:59
    • Basta acompanhar as manifestações dos LGBT, ou ainda LGBTS (siglas de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros), milhares e milhões de pessoas saem às ruas em defesa dos seus interesses – eu não tenho nada contra, pelo amor de Deus! Um público muito, mas muito superior àquele visto nos protestos anti-corrupção. Um filósofo de origem portuguesa me falou: “Ó pá, aqui no Brasil as pessoas se reúnem às massas para lutar pelo direito de dar a bunda, e ficam com vergonha de ir às ruas reclamar que estão sendo roubadas!”.

      Publicado por augustoavlis | 01/12/2014, 10:52

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts.

Junte-se a 158 outros seguidores

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: