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Esportes

Futebol, paixão e emoção

1O comentarista de arbitragem Arnaldo Cezar Coelho, ex-juiz de futebol, fica irritado e grita com o narrador Cléber Machado numa discussão no programa “Bem, amigos”, transmitido ao vivo pelo Sportv nesta última segunda-feira, 05/05/2014. Quem está certo? Com quem está a razão? Duas perguntas que eu faço, e espero encontrar alguém no mundo esportivo que me responda com a mesma precisão do juiz Marcelo de Lima Henrique que apitou o jogo Vasco e Flamengo na final do Campeonato Carioca deste ano. Está vendo? Polêmicas sempre existirão quando citamos uma informação que contraste com a realidade, que contrarie interesses pessoais e ferem vaidades. Bate-boca que está se tornando comum, não importando o nível dos protagonistas, torcedores desempenhando o mesmo papel ao seu modo. Diz a máxima que para haver um vencedor tem que existir um perdedor, para justificar o primeiro – nem que seja numa simples defesa de tese. A regra do convívio humano também é clara.

Comumente, numa discussão sobre futebol, sobretudo sobre a atuação deste ou daquele juiz, sobre o desempenho deste ou daquele bandeirinha, ninguém se apresenta como mediador do conflito, muito pelo contrário, alguém surge para botar mais lenha na fogueira. No programa “Bem, amigos” Cléber Machado externou a sua indignação pelo fato do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, STJD, ter punido Tiago Alves, jogador do Palmeiras, com suspensão de um jogo, por ele ter cometido um pênalti no jogador do Criciúma, penalidade não marcada pela arbitragem. Nesse jogo, primeira rodada do Campeonato Brasileiro, o Palmeiras venceu o Criciúma pelo placar de 2 a 1. “Beira o absurdo. O juiz não deu a falta, não deu o pênalti e o Tribunal tá apitando o jogo? […] O Tribunal suspender por causa de lance de jogo, pênalti que ele não deu?”, questionou o narrador Cléber Machado. Caio Ribeiro, ex-jogador e atualmente comentarista, apoiou Cléber Machado, deixando o comentarista de arbitragem Arnaldo Cezar Coelho mais puto ainda. Ainda que Tiago Alves tenha assumido publicamente que cometeu a penalidade logo após o jogo, pode o STJD, direta e unilateralmente, interferir numa decisão de dentro do campo? Bem, amigos, muita calma nessa hora!

Arnaldo Cezar Coelho não tirou por menos e, ao vivo e a cores, discordou da posição de Cléber Machado, afirmando que caberia punição tanto ao juiz pelo cometimento de erro na partida, quanto ao jogador que fez a falta. Aproveitando o “gancho”, se houver jurisprudência firmada nesse caso, recorrerei ao STJD para que reveja todas as injustiças cometidas contra o Vasco da Gama, sobretudo nos jogos contra o Flamengo. Voltando à vaca fria, em seguida Arnaldo Cezar Coelho analisou um lance de toque de mão dado pelo atacante Guerrero, do Corinthians, que culminou em gol, decretando a vitória sobre a Chapecoense no último domingo. Arnaldo Cezar Coelho, com isso, rolou a bola na entrada da grande área para Cléber Machado, que aproveitou o passe e chutou, voltando à carga da discussão, iniciando-se um novo bate-boca romântico.

2Cléber Machado: Posso fazer uma pergunta? Tem que suspender o Guerrero?

Arnaldo Cezar: Ô, meu amigo, quê suspender Guerrero. Você já tá exagerando. Você tá querendo justificar.

Cléber Machado: Ah, o Tiago tem que suspender?

Arnaldo Cezar: O Tiago deu uma porrada, rapaz. Você tá querendo me enrolar?

Cléber Machado: Não precisa ficar nervoso.

Arnaldo Cezar: Não tô nervoso, não. É que você, pra fortalecer o seu argumento…

Cléber Machado: Não, não precisa ficar bravo. Não precisa ficar bravo nem ficar gritando. Ei, não precisa gritar, não.

Obviamente que os ânimos iriam se acalmar mais tarde. O interessante é que o Luís Roberto de Múcio, jornalista e narrador esportivo, apresentador do programa “Bem, amigos” (melhor do que o babaca, e estrelinha, do Galvão Bueno), permaneceu o tempo todo com cara de ovelha tosquiada. “Ô Cléber, desculpe-me de eu ter, ao vivo, exagerado numa palavra”, encerrou o assunto Arnaldo Cezar Coelho, que foi apertar a mão de Cléber Machado. E por falar em babaca, quem não se lembra do lamentável episódio ocorrido entre o dito cujo Galvão Bueno e Renato Maurício Prado nas Olimpíadas de Londres há dois anos, também numa transmissão ao vivo pelo Sportv, durante o programa Conexão SporTV, no dia 01 de agosto de 2012. Fato: Deu-se a forte discussão porque Renato Maurício Prado pediu ao Galvão Bueno que repetisse o que havia dito nos bastidores do programa que a seleção brasileira de vôlei ganhou a medalha de prata nas Olimpíadas de 1984 em decorrência do boicote aos jogos feito pela União Soviética e seus países aliados. O bicho pegou feio entre os dois, Galvão Bueno não gostou da brincadeira e repreendeu o colega no ar chamando-o de deselegante. Renato Maurício Prado, depois da considerada ofensa, não apertou a mão do Galvão Bueno. Saiu da emissora e atualmente é comentarista no canal por assinatura FOX Sports.

Partir para as vias de fato, definitivamente, não é a melhor saída. É bom só ficar na troca de palavras, que não arrancam pedaços, apenas machucam os ouvidos – menos mal. Ânimos exaltados são temperos explosivos, já dizia a vovó Thomázia de Jesus Ferreira. Em Direito, leia-se: “Vias de fato, Contravenção Penal, referente à pessoa, consistente em molestar fisicamente alguém. Distingue-se do crime de Lesão Corporal porque não provoca ofensa à integridade física ou à saúde da vítima”. Erros de arbitragem não punidos. Os juízes de futebol, dentro de campo, comportam-se como os “todos poderosos”, porém, demonstram ímpar incompetência quando o assunto é marcar penalidades no perímetro da “zona do agrião”. Foram corrompidos por algum clube? Premeditação? Inocência? Os juízes torcem pelo time favorecido pelos seus “erros”? Os juízes são amadores ou profissionais? Se junta a tudo isso a malandragem do jogador brasileiro, que é useiro e vezeiro na simulação de faltas, especializou-se em jogar a torcida contra os árbitros, enfim, até os dirigentes dos clubes e a sua comissão técnica, com raríssimas exceções, não escondem expedientes espúrios. Nenhum “tira-teima” revelará as más intenções (e as boas) e a índole dos desportistas.

Uma parcela significativa de torcedores vê os jogos, mas não os “assiste” – ver é uma coisa, e, a meu sentir, assistir é outra completamente diferente –, por isso, não consegue identificar importantes detalhes nos lances que fazem a diferença nos resultados. Silvio Luiz Perez Machado de Sousa, radialista, apresentador de televisão e locutor esportivo, atualmente trabalhando na RedeTV, sempre diz quando narra as partidas de futebol “De olho no lance!”. Sua ênfase é tanta que parece colocar um acento circunflexo no “e” de lance: “De olho no lancê!”.  Isso já diz tudo. Torcedores videntes também há, são campeões dos prognósticos, discutem rispidamente e querem ter razão em tudo. O pior é que estamos comemorando o desonesto; esse assunto é tema para outro artigo. Eu já mandei o meu pai à merda quando certa vez ele discordou da minha opinião; afirmei que Garrinha era melhor do que Pelé. Muitos torcedores concordam comigo, enquanto outros tantos concordam com o meu pai. Quantificá-los é que são elas, de modo que só as estatísticas passariam a impressão do lado de quem ficaria a razão. Pensando bem, eu acho que nem esses índices tabulados resolveriam o problema levantado porque os torcedores pesquisados mudam de opinião tanto quanto trocam de cueca ao longo da vida.

Futebol é pura paixão, é só emoção. Papo de botequim que acontece a cada final de jogo. Conversas inflamadas dão o toque romântico entre uma cerveja e outra – para quem gosta da “mardita” cachaça, nada contra, muito pelo contrário, apenas alerto para o seu efeito rápido, o álcool sobe de elevador para as cabeças vazias e desce de escada para os corações machucados. Difícil é segurar a onda das indispensáveis gozações da galera contrária. Isso também faz parte. Acabam todos gritando e ninguém com razão, exceto o dono da espelunca na hora de cobrar a conta, sempre a maior – português que se preza não diz para qual time torce e ainda expõe na parede os escudos dos 10 melhores times posicionados no principal campeonato. Botequim de torcedor possui uma atmosfera poética, os tradicionais recados no mictório fétido são fundamentais: “Não mije no chão”“Se espirrar como chafariz, sente no vaso”. Onde se localiza o vaso sanitário entupido uma célebre frase se destaca: “Aqui é onde todo preguiçoso faz força e onde todo valente se caga”.

Paixão e emoção. Quando esses dois sentimentos entram em campo na hora de uma discussão não dá para prever o final dela, mas, certamente ficará mais acalorada. “Entre tapas e beijos, é ódio, é desejo, é sonho, é ternura. Um casal que se ama, até mesmo na cama provoca loucuras”, já dizia o cantor Leonardo. O futebol tem tudo isso, pensar diferente não há como. Na verdade, a palavra final sempre fica com o torcedor, este sim sabe das coisas, porque vive o momento, acompanha os lances bem ou mal, sofre, sente alegria, chora, ri, xinga, elogia, condena, absolve, briga, confraterniza, bate, apanha, opina e não quer ouvir opiniões, está sempre certo e todos os outros errados. Essa é a beleza do futebol, esporte das massas, que une e separa, concede os louros da vitória e pune com a derrota. Mas, na realidade, tem gente que ainda se diz o dono da bola.

Post-Scriptum: Julgo necessário acrescentar três pontos após o encerramento deste artigo, mas informo que não é para corrigir um eventual lapso de memória ou para alterar texto depois de assente. Escrevo depois por estratégia pensada. Primeiro: Arnaldo David Cezar Coelho é também um corretor autônomo de investimentos. Um torcedor, fã do Cléber Machado, disse que Arnaldo Cezar Coelho empresta dinheiro a juros, seu melhor investimento. Segundo: O nome completo de Cléber Machado é Cléber Tadeu Machado. Ele também é jornalista esportivo. Terceiro: globoesporte.com/futebol2014. Site da Rede Globo que virou “portal do besteirol” anda provocando terríveis estragos na formação das pessoas. As interações da Globo “causam” nas redes sociais, diriam os jovens. Internauta fez a seguinte pergunta exibida numa transmissão de futebol: “Quais as pretenções de Flamengo e Palmeiras neste Brasileirão?”. O corretor de texto da Globo não funcionou e o operador da telinha “ignorou sentença” e também não confiou no seu Português. Preservei o nome do internauta que escreveu isso, porque a culpa não dele, é do sistema educacional que o ensinou desse modo, sistema que privilegia culturas acéfalas em detrimento da Língua Portuguesa. Escrever “caxorro” com “x” não é ignorância ou falta de cultura (status quo que interessa ao governo, sua clara pretensão, um desejo ambicioso do governo), escrever e falar errado é modismo. Os comunicadores de rádio e televisão assassinam o coitado do Português (Língua pátria) com frequência, de modo que não sei quantas vidas ele já perdeu. Erros de concordância, verbal e nominal, são comuns – nessa questão, o Lula é um exemplo cabal.

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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