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Pensamentos

Imaginação Sociológica – 5ª parte

1A vida é um parágrafo único. A dinâmica da leitura é impressionante – da primeira palavra à última o tempo passa com tanta rapidez que não percebemos, e quando damos conta já é tarde demais. O que fizemos evaporou como o éter, o que deixamos de fazer agora não tem a menor importância. As poucas boas lembranças que ficaram atormentam a alma pela insistência da recordação, perdem o valor e não servem como referência. Exemplos? Do quê você está falando? Falar das experiências de vida é cansativo quando os ouvidos alheios são seletivos e tão somente captam os sons em frequência única. Estamos, invariavelmente, desentrosados. A falta de sintonia entre o presente e o passado está incluída no rol dos problemas pelos quais passa a atual sociedade – talvez este seja o maior problema. As novas gerações buscam freneticamente a renovação; é a sociedade do descarte. Se ver livre de tudo que incomoda é dever de ofício da sociedade do consumo compulsivo e sem regras. Jogar fora os cadernos de anotações dos pais é a primeira coisa a fazer quando o indivíduo se considera emancipado, libertado, tornado independente por conveniência velada. É assim a vida, sem arremedos grotescos, sem milagres alcançados, sem direito a voltar no tempo para corrigir desvios, de joelhos confessar arrependimento e achar que merecemos perdão.

As lições não aprendidas jamais serão repetidas pelos professores certos, salvo pela própria vida, que aplicará as provas. A intolerância identifica as pessoas por suas atitudes odiosas, enquanto o excesso de tolerância rotula os indivíduos como fracos e sem personalidade. Como distinguir o certo do errado? De um lado, agressividade ou falta de compreensão para algumas coisas – a paciência deveria fazer o papel de fiel da balança, mas não faz –, e do outro lado, extrema passividade na tomada de atitudes, ainda que impensadas. O fenômeno natural do crescimento populacional é outro aspecto a ser considerado. O inchaço das camadas sociais tem provocado um descontrole muito grande. A discriminação toma enormes proporções e os seus efeitos maléficos estimulam as segregações, sobretudo quando as vítimas das “distâncias sociais” são grupos menos favorecidos, quer economicamente, quer intelectualmente, quer por raça, quer por ideologia. Nesse sentido, parece que a miscigenação veio piorar as coisas, de modo que o cruzamento inter-racial, ou mestiçagem, foi um dos motes da intolerância pelo mundo afora. Por outro lado, convém destacar uma importante variável nas relações sociais, ou seja, “o EU absoluto”, que trás à memória a lembrança da relação entre os porcos e a pocilga. Na medida em que a população do chiqueiro aumenta, mais acirrada será a disputa pela lavagem; ferozmente, os porcos se mordem entre si por um melhor espaço no cocho. Esta é uma situação muito longe de ser comparada com as colônias de formigas, onde a hierarquia, a organização, a distribuição de tarefas e a defesa do território são respeitadas por todos os seus membros – e lutar pela sobrevivência da espécie um dever das sociedades de formigas.

Ah se alguém encontrasse a “Pedra Filosofal do século XXI” e com ela produzíssemos o “Elixir da Longa Vida”. Mas, será que gostaríamos de viver indefinidamente? Considerando as anomalias sociais e as incertezas do futuro quanto ao destino da humanidade eu acho que não, mesmo porque na atual conjuntura não há espaço para alquimistas modernos. Se pelo menos a “bebida mágica” servisse para transmutar as pessoas já teria valido a pena. “Muitas vezes as coisas que me pareceram verdadeiras quando comecei a concebê-las tornaram-se falsas quando quis colocá-las sobre o papel”. Esta frase de René Descartes (Renatus Cartesius – La Haye en Touraine, França, 31 de março de 1596 – Estocolmo, 11 de fevereiro de 1650) resume o meu sentimento de momento. No decorrer dos séculos XVII e XVIII surgiu um movimento intelectual conhecido como “Cartesianismo” inspirado no pensamento filosófico de René Descartes, considerado o pai do “Racionalismo” – focado na “razão humana”, dotada de capacidade para responder questões básicas da vida. No século XVII o “Racionalismo filosófico” colocava o poder da razão (raciocínio dedutivo) num patamar elevado, sobrepujando a “Experiência sensível”, e a ela fazendo oposição direta. No século XVIII o “Racionalismo cultural” descartou a fé e, baseado tão somente na razão, criou uma teoria própria dos seres humanos, seus destinos e caminhos a seguir, ainda que duvidosos. As teorias do Racionalismo influenciaram sobremaneira a organização econômica da época e o entendimento sobre a reprodução/evolução social. Cada movimento que surgia defendia o seu “estatuto de pensar” e se opunha a ideias dissonantes; a conquista de espaço na sociedade era determinante para programar filosofias e decretar estilos de vida, formas de compreensão e estabelecer maneiras de consumo. Sociólogos aproveitaram fragmentos conceituais de todos os movimentos e assim interpretar o ser humano nos diversos grupos sociais – formou-se uma ciência através da observação sistêmica.

Será que René Descartes tinha razão quando disse que “a dúvida era o primeiro passo para se chegar ao conhecimento”? A dúvida motiva a busca pelas respostas? O conhecimento coloca o indivíduo numa posição privilegiada ou o conduz ao campo dos conflitos interiores? O que nos absolve e nos condena? A Imaginação Sociológica é fruto da dúvida ou do conhecimento? Se eu penso, logo existo! Sentença máxima. A dúvida já é desorganizada por natureza, deixa o pensamento embaralhado, daí não se conseguir provar a existência de “verdades absolutas”. Para existir não precisa pensar. A existência está presente e se manifesta nos seres vivos, inanimados ou não, nos animais irracionais, nas coisas e objetos, na natureza, no tudo, no universo real ou abstrato, portanto, não é só o ser humano que existe. Tudo o que pensa pode não existir. Na perspectiva do “Pensar existencial” concebemos todas as coisas, inclusive a materialidade do que é abstrato e damos a definição que melhor julgamos. Se o cachorro não tem o raciocínio lógico do homem, então, como ele concebe a existência de Deus? Por que pensamos Deus existe? Ao longo dos séculos as guerras no mundo ratificaram a missão da humanidade. Até hoje os povos estão se aniquilando por Deuses inexistentes, salvo na crença dos próprios indivíduos, que os concebem diferentes, Deuses com máscaras e formas de gostar próprias – o meu Deus apontou na minha direção e disse proteger-me de todo o mal da Terra. Talvez chegasse a hora de se estabelecer no planeta uma nova ordem social na qual os valores imprescindíveis ao desenvolvimento e ao crescimento humano fossem respeitados e, sobretudo, o norte da convivência pacífica entre todas as nações. Sento no banco da praça e espero por mudanças, que não as verei. Ponto final. Acabou a vida!

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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