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Política

Com a broxa na mão!

1A política brasileira pode ser comparada a muitas coisas. Agora mesmo, a forma de fazer política está sendo confrontada com uma oficina de desmanche de carros roubados, cujo dono é o próprio aliado dos proprietários desses veículos. E, o que é pior, as companhias de seguro privado não dispõem de mecanismos capazes de identificar as fraudes. Os chassis recebem outras carcaças sem a necessidade da raspagem da numeração de fábrica; a documentação já está esquentada, assim como as placas e periféricos. É só ligar o carro e sair andando por aí – em caso de atropelamento a culpa é do pedestre.

Principalmente nos dois últimos anos do governo, o ano pré-eleitoral e o ano das eleições, os políticos não trabalham, não fazem outra coisa senão costurar alianças que, teoricamente, lhe darão sustentabilidade necessária para a permanência no poder. Estabelecer paralelo entre a política e a oficina de desmanche de carros roubados / furtados foi fácil. Partidos da base aliada do governo têm fornecido subsídios para melhor compreensão do paralelo comparativo – eles ameaçam desmanchar a “aliança” que orbita a candidatura à reeleição da presidanta Dilma Rousseff em 2014, como se arranca o pára-choque de um carro na literal operação de desmanche.

Por tudo aquilo que está ocorrendo no país, sobretudo as manifestações populares pra todo lado, cobranças das mais diversas, queda acentuada no índice de popularidade da chefa do Poder Executivo, a população instituindo vários sábados de Aleluia só pra ter o prazer de malhar os Judas políticos, enfim, o governo federal teve as suas vísceras expostas e agora a base de apoio não quer dar-se ao trabalho de colocar as tripas dentro do corpo e suturar a incisão. Obviamente que a debandada será geral – sou teu amigo só nos momentos felizes. É claro que ao abrir a janela do Palácio do Planalto Dilma vê risco de desmanche das estruturas políticas neste ano pré-eleitoral. Outra miragem não é oferecida aos seus olhos como alternativa, mas o fantasma de Lula continua assombrando as suas noites de insônia.

As mudanças esperadas no sistema político, uma vez acontecendo, não evitarão novos roubos e furtos de carros, tampouco os desmanches encomendados e já autorizados. A petista, Dilmanta – herdeira política de Lula e importante caixa-preta do partido –, foi eleita em 2010 por uma chapa composta por 10 partidos, o que lhe garantiu a formação da maior e mais representativa base de apoio político no Congresso Nacional, desde o Congresso Constituinte de 1987. A Ditadura Militar acabara em 1985, dois anos antes.

Crises ideológicas nortearão as contendas políticas independentemente da seara onde forem realizadas. O fato é que nenhum partido político quererá abrir mão das suas ideologias, ainda mais se figurarem na cartilha da sigla partidária. Puxar as brasas para as suas sardinhas é ação obrigatória. Com um olho na divisão do tempo da propaganda eleitoral de TV, e com o outro na possibilidade da perda de visibilidade junto ao eleitorado, é inevitável que os políticos entrem num processo de canibalismo, ou, na melhor das hipóteses, de vampirismo. A ordem do dia é eliminar empecilhos.

O maior partido da base aliada, o PMDB, sempre se comportou como “merda n’água” – deixa-se levar pelas ondas, e, de vez em quando, surfa nas marolas das conveniências, porém, sempre com o objetivo de tirar o máximo do proveito de todas as situações que lhe surjam pela frente, algumas criadas por ele próprio. O PMDB gruda no poder constituído como carrapato de boi. O vice-presidente da República, Michel Temer, o presidente do Senado, Renan Calheiros, e o presidente da Câmara de Deputados, Henrique Eduardo Alves, juntos com outros membros ilustres do PMDB, roerão a corda que os une ao governo federal, e ao próprio PT, na mínima possibilidade de derrota (anunciada) da situação no pleito de 2014.

Dilma Rousseff que se prepare para passar por muitas “saias justas”, constrangimentos, mal-estares e desestabilizações, situações essas criadas pelo PMDB. A própria Dilma Rousseff, na tentativa de tirar o corpo fora, culpou abertamente o Congresso Nacional pela crise institucional que assola o país, simplesmente tirou o macaquinho dos seus ombros e colocou-o nos ombros dos deputados e senadores. Segura que o filho é vosso. O PMDB jamais reconhecerá a dita paternidade de filho feio e dirá que a crise de representatividade é problema do Executivo.

O povo não quer saber disso, as pessoas querem que o país funcione, que as instituições cumpram o seu papel constitucional, que o Estado Democrático de Direito seja respeitado, que a corrupção seja banida da prática política, que as oportunidades sejam criadas para o bem estar dos brasileiros. São direitos de todos nós, acho que não é pedir muito! Ora, se essas questões não forem atendidas, o grito das manifestações será ouvido em outros continentes.

A alta popularidade dos governantes é considerada “ouro de tolo”, porque a qualquer momento alguém descobre que o mineral é pirita. Apesar de a base de sustentação do governo Dilma se mostrar aparentemente grande, há riscos de o castelo desmoronar no próximo vendaval. As relações entre os Poderes da República são complicadíssimas, sobretudo entre Executivo e Legislativo. Provas há. De um lado, o governo federal diz “eu tenho o povo nas mãos”, e de outro, os parlamentares respondem “queremos tanto para que você continue com ele sob seu domínio”. É fato. Governo sem povo não existe. Manter a coalizão é um grande desafio, ainda que as articulações políticas se façam com a liberação das emendas dos parlamentares – na calada da noite e sem a obrigatoriedade de juramentos ao pé da cruz sobre o destino dado ao dinheiro público.

No XIX Encontro do Foro de São Paulo, evento aberto ontem, sexta-feira, 02/08/2013, Dilma Rousseff foi a atriz principal de um vídeo apresentado aos “esquerdistas” presentes. Lula não poderia faltar ao evento pelo seu histórico de medidas revolucionárias que tomou ao longo da sua vida pessoal e política. Lula também discursou aos presentes, mas prefiro descartar o que disse por razões de foro íntimo. Trechos da fala de Dilma Rousseff:

“As manifestações demandam mudanças que contribuam para dar maior representatividade e credibilidade a governos e partidos. […] Meu governo e meu partido entenderam rapidamente os recados das ruas. Saudamos essas manifestações. […] Estamos conscientes que as manifestações são parte indissociável de nosso processo de inclusão social. Inclusão provoca cobrança de mais inclusão. […] Os líderes de esquerda que chegaram ao poder nos países latino americanos conquistaram o governo por meio de eleições livres e foram condutores de grandes transformações em nossa região. Os líderes não se refugiaram em um nacionalismo estreito e impulsionaram como nunca a integração continental. […] Nós não nos conformamos com os avanços alcançados, ainda há muitos desafios pela frente. […] Ao mesmo tempo os efeitos da crise global em nossos países vem cobrando de nós um grande esforço para o crescimento. Vamos enfrentar juntos esses desafios”.

Até quando a forjada “Crise Global” será amuleto dos políticos brasileiros? Discurso ao léu, palavras ao vento. Exercício de falácia. Vai começar tudo de novo! O PT prometerá virar uma página lamacenta da atual história política escrita pelos seus opositores – a meu sentir, apagar os erros com borracha engordurada pelos dedos sujos, ou com líquido corretivo não lavável e extremamente tóxico. A sordidez demonstrada pelos políticos deixa um gosto amargo em nossa boca. O povo, definitivamente, não sabe o poder que tem; é hora de descobri-lo.

“O povo tem que puxar a escada e deixar esses políticos imundos com a broxa na mão”.

Eleitor, nem de direita, nem de esquerda. Apenas um brasileiro.

Augusto Avlis

Post Scriptum – Leia-se: “A ideia do ‘Foro de São Paulo’ surgiu em julho de 1990 durante uma visita feita por Fidel Castro a Lula, em São Bernardo do Campo, e foi formalizada quando 48 organizações, partidos e frentes de esquerda da América Latina e do Caribe – atendendo a convite do Partido dos Trabalhadores –, reuniram-se na cidade de São Paulo visando debater a nova conjuntura internacional pós-queda do Muro de Berlim (1989), elaborar estratégias para fazer face ao embargo dos Estados Unidos a Cuba e unir as forças de esquerda latino-americanas no debate das consequências da adoção de políticas supostamente neoliberais pela maioria dos governos latino-americanos da época”.

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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