>
Você está lendo...
Polícia e Segurança Pública

Más lembranças IV – “The End”

Más lembranças IV – “The End”

Manhã de quinta-feira, 19 de setembro de 2002. A Secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro anunciou a prisão do traficante de drogas Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, principal suspeito de ter comandado a morte do jornalista da TV Globo, Tim Lopes.

Morro do Alemão, oito horas e trinta minutos, numa casa qualquer, Elias Maluco é localizado e preso sem esboçar a mínima resistência. Contrariando as previsões e as informações da “Inteligência Policial”, Elias Maluco foi encontrado atrás da porta do quarto que ocupava, descalço, de bermuda, sem camisa, mais gordo e com meia dúzia de pelos na cara, aparentando uma barba. Porém, o mais extraordinariamente improvável, foi o fato de ele estar totalmente desarmado, sem aqueles magníficos fuzis que o cantor Belo gosta de colecionar, sem aquelas granadas que todos achavam que fossem lançadas contra os seus perseguidores, enfim, sem aquele aparato bélico e totalmente órfão dos seus militantes seguidores.

Parece incrível, mas é verdade – estava sozinho no seu reduto. Talvez, as únicas coisas que faltaram naquela cena foram uma boneca Bárbie nos seus braços e uma chupeta na boca. De touca, ele não estava; podem ter a certeza. Legal! Tudo estava milimetricamente programado. Num jogo de “tá quente e tá frio”, um soldado raso do seu exército passava, por celular, informações sobre a aproximação dos heróis policiais: “Os meganhas estão chegando, eles estão chegando… já estão em frente da casa… tem macaco no telhado… entraram, entraram”.

Vamos falar baixo para a oposição não escutar: a governadora do Rio, Benedita da Silva, promoveu-os com aumento dos vencimentos porque colaboraram para a sua “campanha à reeleição”. Todavia, seu Marqueteiro não está sabendo capitalizar o assunto, porque ele não dividiu com o Prefeito César Maia os méritos da ação. Inocência pura: os policiais acreditaram.

Fala sério, “Ó meu!”. O pior é que tem gente que ainda acredita na existência de uma ação espetacular da polícia carioca, como foi o desembarque das forças aliadas na Normandia quase no final da Segunda Grande Guerra. Agora que a ficha caiu, podemos tirar algumas conclusões do episódio. Como diria o “Seu Peru”: “Elias Maluco entrou para a ordem; moça, moçoila, mocérrima”. Policial danado aquele que colocou as algemas apertadas nele. Ele até reclamou, lembram? Elias Maluco correu enorme risco de ficar longo tempo sem desmunhecar. Nego-me a acreditar nesta versão dos fatos. Na realidade, Elias Maluco não é covarde; é muito macho. Ninguém consegue ficar 109 (cento e nove) dias foragido da polícia e da justiça após ter cometido um crime tão selvagem, covarde, desumano, cruel e bárbaro que vitimou o jornalista Tim Lopes.

Agora que a ficha caiu, o homem que supostamente comandou o sequestro, o julgamento sumário, a tortura e a execução de Tim Lopes, pode ter sido convencido por outros “Chefões do Tráfico” a se entregar, ou melhor, a se deixar capturar, por dois motivos primários: primeiro, voltaria a conviver social e profissionalmente com seus parceiros iguais, mesmo atrás de frágeis grades, mas com todas as regalias asseguradas por acordos e gozando das benesses das leis brasileiras; segundo, com a sua “meia-prisão” a paz voltaria a reinar novamente nos morros da Zona Norte do Rio. Elias Maluco, solto, representava um enorme problema para o tráfico, vez que o “movimento” estava sofrendo uma queda acentuada no faturamento e no fluxo de caixa. Com a intensificação do policiamento nos morros e demais favelas do Rio – “meganha” por todos os lados, conforme dizem os especialistas da área –, o comércio livre das drogas, sem dúvida, estava sendo afetado, principalmente por falta de consumidores compradores. Ninguém queria ser filmado. Pasmem senhores; até os policiais corruptos, envolvidos com o negócio, pediram uma trégua, sumiram da área.

Agora que a ficha caiu, podemos perfeitamente atribuir o estado geral de mobilização, que se tornaram os órgãos de repressão do Rio, à imprensa em geral, principalmente à Rede Globo, por motivos óbvios, que pressionou incansavelmente (visto claramente nos noticiários) e que soube convocar toda a população para ajudar nesta tarefa. Entretanto, a Globo não deve se sentir vingada com a prisão do Elias Maluco e com isso abrandar os noticiários sobre a violência no Rio e no Brasil. Ela, a Rede Globo, nessa questão exemplo para as demais emissoras, deve continuar implacável no pleno exercício do seu papel social, enquanto veículo de comunicação de massa, valendo-se de um jornalismo investigativo e em tempo real. O momento é de reflexão.

A sociedade clama por justiça e por segurança pública. A população anônima, como pode e quando pode, tem colaborado através do “Disque Denúncia”, sobretudo, orientando e facilitando o trabalho da polícia, e, espera em troca, a diminuição da sua dor, da sua indignação, angústia e medo. O suspiro de alívio e a consciência tranquila pelo dever cumprido são momentâneos e efêmeros. Tivemos lampejos de felicidade, nada mais que isso. A apreensão e a dúvida persistem. Admitir que pudesse existir um policiamento integrado com a população dá a sensação de, num breve espaço de tempo, termos que assumir o engano e sermos obrigados pelas circunstâncias a “bancar” a nossa própria segurança, procedimento totalmente na contramão do que se apregoa, ou seja, desarmamento civil. Bíblia e crucifixo por si não bastam!

A prisão de Elias Maluco jamais pode ser considerada um golpe no “Poder Paralelo” do Rio, foi sim, uma pancada no “Poder Principal”. A esta altura do campeonato, “Poder Paralelo” é o da polícia, que simplesmente permitiu que os bandidos responsáveis pela recente rebelião em Bangu I – que tirou definitivamente de cena quatro perigosos traficantes, inclusive o UÊ –, agora com a companhia do Elias Maluco, transformassem o Quartel Central da Polícia Militar, onde estão presos, em um verdadeiro bordel, onde tudo é aceito. Foram flagrados pela imprensa cantando e dançando num gesto de zombaria aos policiais, e quando notaram a presença dos cinegrafistas, fizeram um brinde, como se estivessem selando o acordo para uma nova fuga. Aliás, real possibilidade esta, já prevista pela justiça, porém, contestada pelo coronel comandante geral da própria Polícia Militar, por razões de fragilidade do sistema carcerário daquele quartel. Tem gente pagando pra ver.

Os problemas estão aí para todos verem, e não são poucos. As soluções são de longo prazo. O matagal foi roçado, não obstante, o capim deixou na terra pedaços de raízes que proliferarão e trarão à superfície seus descendentes. O mal deixa herdeiros, substitutos na sua prática. A transferência de poder quanto ao seu mando torna-se inequívoca. No começo deste terceiro milênio, o mal parece sobrepujar o bem e em algum lugar nas estrelas isto deve estar escrito. Somos respingos de um mundo em conflito – humanidade desorientada, descrente, impotente e falida nos seus valores.

O saudoso Deputado Amaral Neto sempre defendeu, fervorosamente, a pena de morte. Se vivo fosse, continuaria frustrado por não ver aprovado e sancionado o seu projeto pela inépcia dos poderes constituídos. Amaral Neto, já naquele tempo, convicto nos seus propósitos, dedicou-se a antever as chagas nos direitos humanos e a dificuldade de cicatrização. Defendia a contenção dos elevados índices de violência da mesma forma que se combate fogo com fogo. Aquela coisa de dente por dente e olho por olho. A vítima, esta continuará sempre vítima. A bem da verdade estamos falando em medidas radicais. O radicalismo prevê transformações completas dos sistemas, mas, sobretudo, é um comportamento inflexível de quem possui condicionamentos intempestivos. Todavia, não podemos fugir de um fato: para o resgate do respeito urge a imperiosa necessidade da volta da intimidação pela força. Caso contrário, o capim crescerá mais rápido do que se espera e espalhará insegurança, horror, ódio e pânico indiscriminadamente. A impunidade só alimenta a violência.

A “sociedade desorganizada” não está mais produzindo bandidos como antigamente, tipo bandido romântico, que dava a vida pela profissão. Os mais velhos se lembram do “Cara-de-Cavalo”, facínora que aterrorizou a população do Rio de Janeiro em décadas passadas e que morreu em confronto com a polícia, crivado com dezenas de balas. Eu era pequeno, de tenra idade, mas lembro de uma frase dita pelo “Cara-de-Cavalo” antes de morrer e que foi relembrada por alguns repórteres de radio há pouco tempo: “Bandido que se preza não se entrega, morre!”.

Como esta cena rara, assim como a luta pela pena de morte, ficou no passado, somos obrigados a ouvir outras frases completamente adaptadas ao quotidiano informatizado: “Perdi chefe. Não me esculacha!”. Elias Maluco sabia o que estava dizendo. Só não teve a coragem de dizer “Vou ganhar as próximas!” – com certeza Cara-de-Cavalo o faria. Não sei até quando Elias Maluco vai dividir o IBOPE com o Fernandinho Beira-Mar. Contudo, posso afirmar que a “bola da vez” é o traficante Linho.

Creio em Deus Pai, todo poderoso; creio na Santa Igreja Católica; creio na remissão dos pecados; creio na vida eterna; só não creio, até este momento, na justiça dos homens. “The End”. Escrevi este artigo há mais de 10 anos.

Augusto Avlis

Anúncios

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts.

Junte-se a 158 outros seguidores

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: