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Política

Câmara elege ficha suja!

tituloHenrique Alves

Parece uma síndrome infecciosa, tóxica. E é, sem sombra de dúvida. A patologia é específica e tem causa determinada. O exercício da política no Brasil nos últimos tempos, ou melhor, na última década, tem apresentado algumas particularidades que nos remetem a um estado de medo – a debilidade mental passa a ser consequência direta. O corpo do Estado está doente e segundo diagnóstico não há muito que fazer, senão pedir a Deus uma sobrevida para ele. Postados junto ao leito do enfermo, aguardamos o desenlace. A autópsia está descartada, assim com a missa de corpo presente.

A conexão política se completa com a eleição do deputado federal Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) para presidente da Câmara dos Deputados, em votação secreta ocorrida nesta segunda-feira, 04 de fevereiro de 2013. Quatro candidatos disputaram a presidência da Casa para o biênio 2013/2014: Henrique Eduardo Alves recebeu 271 votos (54,53%), Júlio Delgado (PSB-MG) obteve 165 votos (33,20%), Rose de Freitas (PMDB-ES) 47 votos (9,46%) e Chico Alencar (PSOL-RJ) apenas 11 votos (2,21%). Foram três votos em branco (0,60%). Participaram da votação eletrônica 497 (96,88%) dos 513 deputados, portanto, 16 (3,12%) não votaram. Para se eleger em primeiro turno, o deputado precisaria de 249 votos dos 497, ou seja, 50% + 01. Se todos os demais votos migrassem para a chapa de Júlio Delgado, mesmo assim ele não sairia vitorioso no pleito, porque somaria 242 votos (incluídos os 16 faltantes, considerando que todos votassem nele, mais os 03 em branco). A maioria, portanto, optou pelo candidato peemedebista, como já era esperado, assim como a derrota do deputado Júlio Delgado anunciada. Henrique Eduardo Alves é o 2º na linha sucessória de Dilma Rousseff.

Henrique Alves2

Henrique Eduardo Alves tem assento cativo na Câmara dos Deputados há 42 anos e está em pleno gozo do seu 11º mandato consecutivo como parlamentar. Parabéns aos eleitores do Rio Grande do Norte pela bela e coerente escolha feita há décadas. O novo presidente da Câmara dos Deputados tem Currículo de bom nível para comandar as sessões plenárias da Casa, escolher as pautas de votação e presidir a Mesa Diretora, que delibera matérias de cunho administrativo. Pelo menos os picaretas que atuam na Câmara terão um comandante à altura, da mesma forma que no Senado Federal. Lula errou por pouco quando disse que o Congresso Nacional abrigava 300 picaretas; em rápido levantamento chegamos ao número de 327, sendo 271 que votaram em Henrique Alves e 56 que votaram em Renan Calheiros – esse número poderia ter sido mais significativo se os 19 (16 + 03) parlamentares que faltaram àquelas sessões tivessem votado.

Há um buraco negro no Congresso Nacional e os poucos bons políticos não ousam chegar perto dele para não serem tragados. De certo tem algo de muito estranho acontecendo nas entranhas do poder. O sentimento de mudança há, mas como pode ser mensurado, qual a sua intensidade de força? As nossas instituições estão à beira do colapso, colocando a credibilidade do país penhorada sem direito ao resgate do patrimônio. Essa plêiade de políticos está solidificando a corrupção no governo e para tanto vem ocupando as posições mais estratégicas do ponto de vista da representação política. Cria-se um escudo de defesa, um cinturão de proteção, em torno daqueles que compõem a tropa de choque do sistema do mal.

Uma dupla da pesada, Renan Calheiros e Henrique Eduardo Alves, batendo uma bolinha legal até fevereiro de 2015, se os ventos soprarem a favor. Senado Federal e Câmara dos Deputados, sempre com mando de campo, jogando juntos de um lado, contra o povo do outro. O governo federal, fazendo o papel do juiz intruso, saberá usar o apito quando o assunto for definir a pauta de votações no Congresso Nacional. A presidente Dilma Rousseff está certa da conquista do campeonato tendo os eminentes peemedebistas à frente das duas Casas de Leis. De nada adianta Dilma ameaçar dizendo ser dona da bola, ou porque deu apoio total junto com o PT, porque o PMDB, com a vitória desses dois “aliados”, construída nos esgotos palacianos, somente reforça a sua posição quanto à sucessão presidencial em 2014. Ora, o partido já tem a vice-presidência da República, na figura do presidente de honra do partido, Michel Temer, ocupou o comando do Congresso, agora, é só esperar que o PMDB lance mão às facas. Dono de todo esse capital humano e poder político, o PMDB estuda a possibilidade de negociá-los com quem oferecer mais dinheiro no próximo leilão das conveniências políticas.

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Semanas antes de ser eleito presidente da Câmara, o deputado Henrique Alves foi alvo de graves denúncias. Reportagem da revista Veja trouxe a público que o parlamentar destinou verbas de gabinete para contratar serviços de uma locadora de carros “de fachada” e para tanto usou nome de uma laranja. Outras matérias divulgadas pela imprensa revelaram que também teria beneficiado diretamente a empresa de propriedade do seu ex-assessor com emendas parlamentares destinadas a obras no Rio Grande do Norte. Em janeiro de 2013, Aloizio Dutra de Almeida, há treze anos trabalhando no gabinete do deputado federal Henrique Alves, pediu demissão. Por que será? Impressionante como a desonestidade virou coisa normal na vida política, praticada às claras, a céu aberto. Roubar diretamente, ou através de terceiros, é dever de ofício da maioria dos políticos brasileiros. Uma publicação (vide capa na foto de abertura desta matéria), com o resumo das sentenças judiciais e matérias jornalísticas das denúncias veiculadas contra Henrique Alves, foi distribuída nos gabinetes de todos os deputados federais antes do início da votação para presidente da Casa, ou seja, na manhã do dia 04/02/2013. Entretanto, esse dossiê com detalhes da sua “ficha suja” não influenciou negativamente quem votou a favor dele, muito pelo contrário, parece que estimulou. A meu sentir, o tiro saiu pela culatra.

Em mensagem ao Congresso, Dilma Rousseff disse que a classe política é vilipendiada. Vilipendiado é o povo brasileiro, desrespeitado pelos políticos que elegeu. Melhor ela ter dito que a classe política é desonesta, desonrosa, desmoralizadora, ímproba. Por que ela defende tanto os políticos, sobretudo da base aliada? Não bastam os escândalos de corrupção que pipocam diariamente na mídia para fazê-la mudar de ideia? Quem se junta aos porcos, farelo come. O PMDB exigirá mais espaço no governo – isso é um fato –, que se verá na obrigação de entregar cargos estratégicos ao partido aliado, não só em Brasília como direções de estatais, por onde a sangria do dinheiro público é intensa, dificultando o seu estancamento. Está tudo loteado. Esse é o preço que todos nós brasileiros pagamos pela inércia, falta de ação e total incompetência na hora de votar. Não é novidade a afirmação que o povo não participa da vida política, portanto, não tem a devida percepção quando o assunto é identificar “produtos” de má qualidade – políticos com condutas desagradáveis que acabam se misturando aos bons, prejudicando-os. Na nova safra de trigo o joio terá cara de grão saudável. Quando a ficha cair, quando dermos conta, será tarde demais para recuperarmos o mando do jogo, ou salvar a colheita.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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