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Fatos em Foco, Política

Pau de galinheiro

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Da esquerda para a direita, Senador José Sarney (PMDB-AP), Senadora Ana Amélia (PP-RS), diretora-geral do Senado, Dóris Peixoto, Senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) e a diretora da Biblioteca do Senado, Simone Bastos. Mais uma foto, entre tantas outras, que mostra sorrisos comportados, superficialidades e que revela a verdadeira face dos nossos políticos, que não se importam com a falta de senso crítico, com a quebra do decoro parlamentar e com a total inexistência de postura de estadista. Para eles uma cena comum que se incorpora ao cotidiano da política; para nós eleitores, fica a triste sensação do mau uso do dinheiro público, que subsidiou a referida Exposição (gastos não revelados), com a única finalidade de “embalsamar” a imagem do político José Sarney. O capital político no Brasil não é construído com competência e bons serviços públicos, muito pelo contrário, é edificado com falácias, promessas não cumpridas, eventos faraônicos, festivais lúgubres e circo. Em 2011 José Sarney havia contratado uma singular empresa de consultoria especializada em “revitalização de imagem” com o propósito de “limpar” determinados pontos da sua história biográfica. Esse trabalho também foi pago com verba do Senado Federal – dinheiro público pra variar, sem a necessidade da formal, correta e legal prestação de contas, aliás, rotina nos órgãos públicos. Os Tribunais de Contas estão atolados até o pescoço com auditorias.

Jos.é Sarney é homenageado em exposição sobre seus mandatos à frente do Senado. Foto: André Borges/Folhapress

José Sarney é homenageado em exposição sobre seus mandatos à frente do Senado. Foto: André Borges/Folhapress.

A “Exposição da Vaidade” começou no dia 18 de dezembro de 2012 e acabou no dia 25 de janeiro de 2013, sexta-feira última, portanto, ainda está dentro da data de validade concedida a críticas, de modo que as farei com todas as honras. No total, 23 diretorias e secretarias foram envolvidas na produção de 76 imponentes painéis, pagos com dinheiro dos contribuintes – pagos com dinheiro dos contribuintes –, repito. Experiência curricular que dá a Sarney a admiração dos parlamentares, sobretudo daqueles que se iniciam na profissão de desonestos, perdão, de políticos. Com a aprovação de Sarney, a “Exposição Ficha Limpa” foi instalada na Biblioteca do Senado, local de grande visibilidade – os funcionários da casa foram obrigados a visitá-la para reforçar as estatísticas, que servirão como plataforma política, muito embora o “enaltecido” tenha dito aos correligionários que não disputará eleições para presidente do Senado após o fim do atual mandato, em 02 de fevereiro de 2013. A eleição que definirá o novo presidente do Senado pelos próximos 02 anos acontecerá em 01 de fevereiro próximo.

Como toda exposição que se preza, ela tem que mostrar os dois lados, ou seja, o bom e o ruim do que está sendo exposto, nesse caso, estamos falando do coronel José Sarney de Araújo Costa, nascido na cidade de Pinheiro, Maranhão, em 24 de abril de 1930. À boca pequena, ficamos sabendo que Sarney é parente bastardo do Capitão-Mor Inácio José Pinheiro, o cara que fundou a cidade. O lado ruim da história é que Sarney foi o 31º Presidente do Brasil por 05 anos (15/03/1985 – 15/03/1990); não teve Vice-presidente (ele era o próprio). O seu antecessor foi o falecido Tancredo Neves, e o seu sucessor Fernando Affonso Collor de Mello, hoje Senador da República. No mesmo ano que José Sarney deixou a presidência da República (1990), foi eleito Senador pelo Estado do Amapá (PMDB), sendo reeleito em 1998 e 2006, já que o mandato de Senador da República é por 08 (oito) anos, de sorte que temos que aguentá-lo até 2014 – se vivo estará com 84 anos e 08 meses. Nesses longos 23 anos (até hoje) como Senador, Sarney foi Presidente do Senado Federal do Brasil, eleito por 04 vezes, sendo o último mandato de 02 de fevereiro de 2009 até a atualidade – José Sarney não larga o osso nem para tomar banho no Rio Pericumã (Rio que banha a cidade de Pinheiro/MA, localizada na baixada maranhense).

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Voltando ao assunto da “Exposição da Exaltação” dedicada a José Sarney, tentou-se borrifar com perfume francês os seus quatro mandatos como presidente do Senado. Sob o título “Modernidade no Senado Federal – Presidências de José Sarney”, a exposição buscou reunir o histórico de suas ações, sobretudo com a proposta de passar para o público a preocupação com a chamada “transparência na administração do Senado”. Leia-se: “Desde 2009, iniciativas de maior transparência possibilitam a consulta aos atos administrativos do Senado e aos dados sobre gastos e prestações de contas da Casa, publicados no Diário Oficial”. Quem promoveu este evento bizarro exagerou nas ideias, nos sentimentos e nas atitudes – certamente o estado de excitação fugiu ao controle. José Sarney elevado a um grau de mérito mais alto do que o merecido, de sorte que no balanço geral as suas virtudes não superam os seus defeitos – nada pessoal, mas a sua Ficha Corrida (Antecedentes Criminais) está aí pra quem quiser tomar conhecimento.

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Senado patrocina exposição para exaltar feitos de Sarney.

Então, era de se esperar que a inoportuna exposição omitisse os escândalos de autoria de José Sarney, que marcaram profundamente as suas gestões no Senado Federal. Dentre eles, a crise dos “Atos Secretos” (2009), que abriram as porteiras para a contratação de parentes, seus e de correligionários – segundo a sua assessoria encabrestada, tratou-se de uma “ficção inventada pela imprensa”. O lado ruim de Sarney permitiu passar tanta luz na “Exposição da Transparência” que ninguém viu ou percebeu! Outros interessantes casos de que é acusado, como pagamentos de horas extras para servidores no recesso; pagamento de auxílio-moradia para senadores que moravam em imóveis próprios e do Senado (dentre eles o próprio Sarney, que acabou devolvendo a verba, só pra não pegar mal); inúmeras medidas administrativas que não eram publicadas oficialmente, como exemplo uma que desaguou no pagamento de benefícios financeiros a servidores; enfim, um monte de irregularidades cometidas que ainda deixam um rastro de “problemas insolúveis” e muita sujeira espalhada pelos corredores da casa. Ninguém mais se preocupa em varrer o lixo para debaixo do tapete, tanto que o Conselho de Ética do Senado Federal arquivou cerca de 10 (dez) representações contra José Sarney ao longo de todo esse tempo.

Com tanta merda jogada no ventilador, lama saindo pelo ladrão, e pouco caso, como resgatar a credibilidade do Poder Legislativo, sobretudo do Senado Federal, como quer um grupo de Senadores? A apresentação de uma plataforma com sugestões de mudanças (enxugar a máquina administrativa; melhoria da eficácia dos trabalhos internos da casa; a rápida votação dos milhares de vetos presidenciais; o fim do “Voto de Corpo”, ou seja, aquele que dispensa a votação nominal, quando os Senadores, simbolicamente, aprovam ou rejeitam um projeto; a alteração na sistemática da criação das Comissões Parlamentares de Inquérito – CPIs –, que só são criadas por decisão exclusiva do presidente do Senado, mesmo colhidas as assinaturas necessárias dos parlamentares; a necessária redução do número de Comissões Temáticas, entre outras sugestões), segundo proposta desse grupo, não será suficiente para maquiar a cara do Senado. Dar banho em porcos não os desestimulará a voltar para a chafurda.

O Senador Renan Calheiros (PMDB – AL), um dos principais aliados de José Sarney, é agora favorito a sucedê-lo, provavelmente o próximo político a ter patrocinada uma exposição para exaltar os seus feitos. O Palácio do Planalto torce para que isso aconteça. Assistam ao filme “A volta de Renan”, em cartaz no Senado Federal. O famoso político, Renan Calheiros, foi gentilmente acusado de ter as suas despesas pessoais (aluguel de um apartamento; pensão alimentícia de uma sua filha com a jornalista Mônica Veloso, etc.) pagas por famosos lobistas ligados a honestas empreiteiras/construtoras com declarados interesses no governo federal, acusação esta que lhe custou um inquérito criminal nas costas – ainda em curso no Supremo Tribunal Federal – tendo a quebra do seu sigilo bancário como consequência. O Senador Renan Calheiros, em dezembro de 2007, renunciou ao cargo de presidente do Senado após escapar totalmente ileso de dois processos de cassação, sendo que no dia 11 de outubro daquele mesmo ano solicitara licença de 45 dias para esfriar a cabeça – sair de cena foi estratégico. O escândalo de corrupção, no qual estava envolvido até o pescoço o Senador alagoano Renan Calheiros, foi apelidado de “Renangate”. Se Renan Calheiros for realmente eleito o novo presidente do Senado estará substituindo à altura o jurássico José Sarney, de sorte que, de patifarias, os dois entendem muito bem. Para os meus 20 leitores: Alana Rizzo, de O Estado de São Paulo (23 de janeiro de 2013 | 00h30min). “Renan turbina Minha Casa em Alagoas e ‘empreiteira amiga’ fatura R$ 70 milhões. Senador alagoano, que deve comandar o Senado a partir de fevereiro, utiliza sua influência na Caixa e entre os correligionários para transformar o Estado natal numa máquina de contratações do programa habitacional do governo federal. MACEIÓ (AL) – A combinação de influência na Caixa Econômica Federal (CEF) e o comando político de 80% dos municípios fez do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), favorito para assumir o controle do Senado, o “Midas” do programa ‘Minha Casa, Minha Vida’ em Alagoas com pelo menos um resultado notável: a Construtora Uchôa, do irmão de Tito Uchôa, apontado como laranja do peemedebista, faturou mais de R$ 70 milhões do programa nos últimos dois anos”. […] A matéria de Alana Rizzo continua. Na verdade, eu continuo achando que o Brasil merece tudo isso – errados somos nós que não paramos de escrever coisas bobas, maluquices como esta. Para a massa de ignorantes, que define eleições, tudo não passa de conversa fiada. A relação promíscua de Renan Calheiros com empreiteiras vem de há muito tempo.

O Senado Federal está mais sujo do que pau de galinheiro, os seus odores fétidos vão muito além das cercanias de Brasília. A Câmara dos Deputados não fica atrás, fábrica produtora de excrementos, com funcionamento a todo vapor. Os motivos de tanta porcaria são sobejamente conhecidos por uma diminuta parcela da população que se interessa pelos rumos do país, infelizmente traçados pela política abjeta e por políticos devassos. Mergulhada num estado de profunda ignorância, a esmagadora maioria dos brasileiros não se dá conta dos crimes que são cometidos diuturnamente em seu nome, com o seu aval. Desmandos, desrespeito à coisa pública, desgovernos, roubos generalizados, falcatruas, conchavos, quebra de acordos, são apenas alguns expedientes empregados pelos grupos de fanfarrões que habitam os Poderes da República e juram exercê-los segundo ditames constitucionais. O papel do Congresso Nacional vai muito além de criar e aprovar Leis, de fiscalizar o Estado Brasileiro, de administrar e julgar atos, os seus integrantes (81 Senadores e 513 Deputados Federais) deveriam ser os primeiros a dar o exemplo como representantes do povo e fazer por merecer a confiança que lhes foi depositada através das urnas. O que temos visto são práticas contrárias a tudo isso. A Exposição “Modernidade no Senado Federal – Presidências de José Sarney” não deixa a menor dúvida de que os nossos políticos estão onde estão para defenderem os interesses pessoais e legislarem em causa própria. Infelizmente, deixam herdeiros.

Comunico ao público em geral que estou elaborando um Anteprojeto (uma redação, conhecimento ou análise preparatória de um Projeto de Lei) no qual sugiro a troca do nome, ou seja, da expressão composta “Congresso Nacional” por outro título que melhor e bem defina a atual conjuntura política brasileira, de modo que considero aberta a temporada de sugestões. Algumas ideias já estão chegando ao nosso conhecimento, das quais adianto: AB&C – Associação de Bandidos & Cia, CAL – Centro Acolhedor de Ladrões, LR – Lapa das Ratazanas, EPA – Esgoto Parlamentar Aberto, CMN – Casa de Meretrizes Nacionais, TRE – Toca dos Ratos Eleitos, ESB – Escória da Sociedade Brasileira, CDP – Casa de Delitos Públicos, ME – Mercado do Erário, TCI – Templo de Crimes Impunes. O autor da sigla vencedora ganhará um prêmio ainda a ser definido pela banca organizadora do evento, que será presidida por José Sarney – justa homenagem. A assessoria de Sarney adiantou que a compra superfaturada do prêmio será feita com dinheiro público, e parte desse valor desviada para campanhas políticas de 2014. Salve Jorge!

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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