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Política

Julgamento do Mensalão – Teia da corrupção

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Corrupção é um tema recorrente. Imaginemos uma enorme teia de aranha. Tecê-la requer habilidade, tempo, conhecimento, ainda que uma produção solitária. Cada linha, cada curva e cada ponto têm uma função específica. Está tudo milimetricamente conectado, e tudo leva ao centro nevrálgico, ao elemento crucial. É assim a corrupção no governo.

468. Inocente corrupção. – Em todas as instituições em que não sopra o ar cortante da crítica pública, uma inocente corrupção brota como um fungo (por exemplo, nas associações eruditas e senados).

Friedrich Nietzsche – Humano, demasiado humano (de Ecce homo, 1888).

Passaram-se 124 anos, mas o aforismo de Nietzsche continua bem atual. Imutáveis são as filosofias, mutáveis são as leis humanas – mudam facilmente em decorrência, em decurso das oportunidades e das conveniências. É sabido que ditos populares trazem uma carga filosófica, fazem parte do cardápio diário das interações sociais e são passados de geração a geração. Lembrando-me de um deles: “Se queres conhecer o homem, então concedas poder a ele”. Poder que seduz, com capacidade suficiente de encantar os eleitores, com fins de atingir objetivos espúrios, inconfessáveis; poder que transforma; poder que autoriza o cometimento de barbaridades, de crimes contra o sistema financeiro nacional, contra a ordem pública.

Apostando na ignorância do povo, discursos rocambolescos proferidos por governantes devassos também conduzem considerável peso filosófico que o leva, o povo, ao êxtase, ao mais completo estado de catarse coletiva e é subliminarmente induzido a embarcar em aventuras inverossímeis. “Eu acredito que estamos no caminho certo. Eu estou convencido que o Brasil resgatou dívidas passadas. Estou empenhado na resolução de todos os problemas do país, sobretudo sociais. Nenhum governo trabalhou mais pela nação do que o meu governo. Estou pessoalmente acompanhando o cumprimento das metas estabelecidas. Quem promete cumpre. Nada de ruim tem passado despercebido no meu governo. Estou acabando com a miséria do povo. Em meu governo ninguém fica impune por ter roubado. Em meu governo a Polícia nunca cumpriu tanto mandado de prisão”. Etc, etc, etc.

470. O lobo por trás da ovelha. – Em determinadas circunstâncias, quase todo político tem tal necessidade de um homem honesto, que como um lobo faminto irrompe num redil: não para devorar o cordeiro que rapta, porém, mas para se esconder atrás de seu dorso lanoso.

Friedrich Nietzsche – Humano, demasiado humano (de Ecce homo, 1888).

Recentemente a ONG (Organização não governamental) Transparency International – The global coalition against corruption divulgou um estudo denominado “Percepções da Corrupção Index 2012”, onde foram analisados 176 países. No ranking da corrupção, o Brasil desponta em 69ª posição. Dos países da América Latina, segundo a pesquisa, apenas o Chile e o Uruguai se posicionaram na frente do Brasil ocupando o 20º lugar. Não há absolutamente motivos para frustrações ou comemorações na tentativa de se estabelecer comparações com os melhores e os piores colocados da lista de países. Aprendi nos cursos de Administração que, antes de qualquer coisa, se você não conhece em detalhes a metodologia empregada nas pesquisas, desconfie dos seus resultados. A “percepção da corrupção” é estabelecida pelo povo ou pelos intelectuais responsáveis pela tabulação dos números? Se for por um ou pelo outro tenho lá as minhas dúvidas. Se for pelos dois aí a coisa piora. Deixo claro que estou me referindo exclusivamente ao caso do Brasil. Na possibilidade de outros nichos de entrevistados serem considerados na pesquisa, certamente nela serão refletidos os diferentes graus de interesse, então, a confiabilidade é um processo que decorre da integral transparência, não da parcialidade demonstrada.

Nessa perspectiva, ressalto que a sociedade brasileira carece de maiores espaços junto aos poderes públicos, de sorte que pergunto: Como participar ativamente da vida pública se os degraus a serem transpostos, galgados, encontram-se na maioria obstruídos? O abuso de poder, status quo imperante por aqui, embaça o vidro da transparência e por ele só passam as imagens projetadas pelo poder constituído. Um sonho distante termos instituições públicas eficientes se o governo as transforma em cabides de emprego para a acomodação dos amigos do rei ou da rainha, aliados partidários que sustentarão o vício da corrupção em escalada geométrica. O acesso aos sistemas de informações é algo para inglês ver, na medida em que o papel aceita tudo. Explico: você fica diante de uma parafernália de números que não sabe para que servem, como foram construídos e quais ações praticadas para a sua consecução. Isso é o mesmo que analisar as contas de campanhas políticas, ou seja, em determinada despesa como material de divulgação vê-se o valor de R$ 2 milhões, mas ninguém vai conferir se as Notas Fiscais dos fornecedores são frias, forjadas, em duplicidade, ou de valores adulterados. A atuação das instituições públicas, em qualquer escala de representação popular, não é respaldada em exemplos de lisura e de honestidade, salvo raríssimas exceções – são quase imperceptíveis. Como cobrar dos gestores governantes a tão deseja responsabilidade com a coisa pública? O voto não corrige distorções comportamentais, apenas substitui os infratores.

No último dia 09 tivemos a comemoração do “Dia Internacional de Combate à Corrupção”, criado no ano de 2003 pela ONU – Organização das Nações Unidas, cuja Convenção foi assinada por diversos países no dia 09 de dezembro daquele ano, na cidade de Mérida, México. A proposta baseou-se na necessidade de cooperação internacional para ampliar a prevenção e o combate à doença diagnosticada como corrupção. Como festa foi legal, agora, do ponto de vista da efetividade dos combates deixou muito a desejar, assim como todos os eventos que buscam o engajamento popular. Há pouco tempo tivemos o evento Rio + 20. Alguém se lembra? Quando aconteceu? Como está o andamento das ações pactuadas para a salvação do planeta Terra? Então, como podemos observar, o mundo está cheio de festas, ele precisa de atitudes concretas, caso contrário ficaremos contabilizando mazelas. Em Brasília, toca das ratazanas, cerca de 1200 atletas participaram de uma corrida comemorativa, além de tantos outros não inscritos. Ao invés de escolherem o Eixo Monumental como local da corrida festiva, os corredores poderiam transferir o evento para o Salão Branco do STF e lá exigirem punição para a quadrilha do Mensalão. No Brasil, os problemas de corrupção são gravíssimos, são sistêmicos e endêmicos. Essa geração que aí está já era, está dominada! Soluções só em longo prazo com investimentos maciços em “Educação Inclusiva” – se houver vontade política talvez possamos salvar a geração que está por vir.

Leitura recomendada (clique em): Livro Polítitica

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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