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Política

Julgamento do Mensalão – Cabra-cega

Esses jornalistas “sem diploma de curso superior” precisam parar de brincar de noticiar, de fazer fofocas desmedidas, de achincalhar os fatos. Chega! O que se passou na última quinta-feira, dia 23/08/2012, no Supremo Tribunal Federal, no final de mais uma sessão do julgamento do famigerado Mensalão, é motivo suficiente para os “reconhecidos profissionais da isenta informação” levantar o que realmente está por trás daquilo tudo.

Não podemos achar simplesmente que tudo faz parte da normalidade democrática. Tudo bem, os Ministros da Suprema Corte são humanos; e nós os babacas. Senhores jornalistas, parem de fazer intrigas; reproduzir frases capturadas nos momentos românticos de bate-boca entre 2 ou 3 Ministros não leva absolutamente a nada. O julgamento está transcorrendo em tempo real, quem se interessa está assistindo. E quem não se interessa por essas coisas não lerá de efeito. Quem de fato deveria tomar conhecimento desta discussão de meretrizes está bebendo cachaça. Foda-se se Joaquim Barbosa disse depois do voto de Ricardo Lewandowski: “Tudo isto está respondido no meu voto. Hoje já está tarde, mas na segunda-feira responderei a todos esses pontos”. Dane-se se Ricardo Lewandowski rebateu o presidente Carlos Ayres Britto depois de ter negada a sua tréplica : “Se for assim, adianto que vou me ausentar do plenário durante a réplica do relator”. Caros jornalistas, deixemos os mexericos para a novela “Avenida Brasil” (agora das 9:00 horas, não mais das 8:00). Boa dica de tema para os escritores-autores de novelas: “Avenida STFSão Todos Fanfarrões”. Enquanto isso, o povo está “Lewandowski” na bunda.

Tem mamutes passeando no nosso quintal e a gente dá plantão na boca do formigueiro. Está tudo errado, ou melhor, são verdadeiras as mentiras quando todos dizem as verdades. A máfia tupiniquim nunca existiu; o Banco do Brasil jamais sangrou R$ 73 milhões dos seus cofres; os bancos BMG e Rural não passam de instituições filantrópicas (A filantropia vem do grego φίλος (amor) e άνθρωπος (homem), e significa “amor à humanidade”), portanto, perfil ideal e aplicável a estas instituições financeiras; os ratos palacianos são lindas borboletas disfarçadas; o ignorante presidente Lula se manteve no poder com a inteligência da massa; a governabilidade foi comprada com promessas e não com dinheiro público; Marcos Valério e seus asseclas foram meras damas de companhia sexual, com seus deslumbrantes vestidos vermelhos; os honestos, castos e nobres políticos que formavam a “base aliada” de sustentação política do governo nunca foram corrompidos, apenas convidados para algumas rodadas da pura caninha Made in Brazil na Gruta Central. Portanto, queridinhos jornalistas não diplomados, entrevistem o Lobo Mau, que comeu várias vezes a “Chapeuzinho Vermelho” e não a vovozinha. Eu disse e repito com todas as letras e pingos de sangue: “São verdadeiras as mentiras quando todos dizem as verdades”.

Já que o povo brasileiro está de boca calada, como efeito anestésico do vitorioso programa de compra de votos Bolsa Família, vamos então entrar na dele e também seguir como estratégia a filosofia daquele esperto macaquinho: “Não vi, não ouvi e não falo”. Vamos parar de baboseiras inúteis; estamos construindo a indústria das futilidades comunicacionais – com habitualidade arrostamos satisfações virtuais e aceitamos jogar bosta na Geni errada e pedra na Cruz dos outros. Perdão por exorbitar no uso do verbo “estar” – às vezes precisamos sair da nossa própria órbita –, mas sou obrigado pelo diploma, de modo que “estamos” desqualificando todas as provas do Mensalão. A imprensa, na qual felizmente me incluo, é comprovadamente a maior responsável por isso. As provas reunidas no decurso da Instrução Processual da Ação Penal nº 470 são inquestionáveis, robustas, consistentes e não deixam dúvidas quanto à comprovação do escabroso, inconveniente, indecoroso e indecente escândalo político auriverde, cujos seus autores, co-autores e partícipes há uma década vêm desafiando a ordem jurídica na sua plenitude. “Obtivemos todas as provas possíveis. […] O Ministério Público só não conseguiu provas impossíveis. […] Jamais um delito foi tão fartamente comprovado. O julgamento é histórico”. Disse Roberto Gurgel, Procurador-Geral da República, no plenário do STF quando fazia a leitura da peça de acusação.

Substantivamente empregamos o termo “suposto” sempre que nos referimos aos comprovados crimes praticados pelos réus do Mensalão. Isso é um erro capital. São sinônimos de “suposto”: fictício, imaginário, hipotético, figurado. Por definições, Classes Gramaticais: Adjetivo – Admitido por hipótese, falso; Substantivo masculino – Suposição, conjectura, hipótese; Locução Conj. – Suposto que, na suposição de que, dado o caso que. A imprensa tem dado a sua contribuição aos réus e ajudado os advogados de defesa. Data máxima venia, note-se: A suposta formação de quadrilha; a suposta corrupção ativa; a suposta corrupção passiva; o suposto peculato; a suposta gestão fraudulenta de empresas e instituições financeiras; o suposto desvio de dinheiro público; a suposta evasão de divisas; a suposta lavagem de dinheiro (branqueamento de capitais); a suposta organização criminosa; a suposta compra de votos de parlamentares; a suposta cooptação de políticos no Congresso Nacional; o suposto ato de ofício; a suposta culpabilidade; o suposto pagamento de vantagens à base aliada; as supostas práticas ilícitas; a suposta propina; a suposta prova; o suposto delito; o suposto crime; os supostos criminosos; os supostos bandidos; o suposto desvio de conduta; o suposto esquema de desvios de recursos públicos para a compra de apoio parlamentar ao governo (coisa que o Collor não fez e por isso se fodeu); o suposto isso; o suposto aquilo; o suposto Mensalão. A coisa julgada formal (Trânsito em julgado) só se admite nos casos “não supostos” de “roubo qualificado” de um pote de margarina da prateleira de supermercado, de pedaços de cascas de árvores nativas para fazer chá medicinal, de pesca em épocas de defeso nem que seja para matar a fome do pescador, etc; daí a corretíssima preocupação por parte da Justiça e da mídia em se preservar a imagem das supostas ratazanas do Mensalão.

Na incerteza, na possibilidade, na eventualidade se algo acontecerá ou não nesse julgamento é pura contingência da aparente realidade. Suposição apenas. Com asseveração, tudo aquilo não aconteceu do ponto de vista da ilegalidade, porque o Brasil autorizou que assim fosse feito e dessa forma não há cometimento de crimes. Aprendemos a criar bichos de sete cabeças, a fazer tempestade em copo d’água, inventamos coisas, potencializamos o absurdo, adoradores de ilusões, desmoralizamos a moral. Como gado de carga pastamos na pior fazenda, capim seco ruminamos, lambemos o sal das mãos sujas dos fazendeiros da impunidade. A suposta Justiça continua cega e confinada. Desta cegueira também padecemos na medida em que não encontramos a porteira certa para fugir do campo lamacento. Estamos pagando penitência ao Diabo.

A imprensa alardeou nesta semana a ação da AGU – Advocacia-Geral da União que conseguiu fechar o maior acordo judicial num caso de desvio de dinheiro público da história do país. O dito acordo foi assinado pelo advogado do ex-senador Luiz Estevão e do Grupo OK, Marcelo Luiz Ávila de Bessa, com isso o governo federal recupera R$ 468 milhões, resultantes da correção dos R$ 170 milhões desviados do TRT/SP. O ex-senador Luiz Estevão foi o primeiro parlamentar da história do Senado Federal a ser cassado, no dia 28 de junho de 2000, 08 dias antes de completar 51 anos de idade, acusado pela CPI do Judiciário de envolvimento no desvio de verbas públicas destinadas à construção do TRT – Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo. Neste episódio o Juiz Nicolau dos Santos Neto (o Juiz Lalau) teve uma participação direta. Importante ressaltar que Luiz Estevão foi condenado pela Justiça a 31 (trinta e um) anos de prisão, mas goza de total liberdade dentro e fora do país porque recorreu da decisão. Mesmo com o acordo pactuado com a AGU nenhum processo contra Luiz Estevão será extinto, contudo, a prescrição um fato. O seu advogado, Marcelo Luiz Ávila de Bessa, disse em tom um tanto quanto FDP: “Essa dívida corresponde a uma parcela ínfima hoje desse patrimônio, então por uma questão pragmática resolvemos então sentar com a Advocacia-Geral da União para tentar um acordo para que o grupo possa agora retornar e retomar o seu caminho natural no mercado, de atuação no mercado”. “O valor a ser pago corresponde a apenas 10% do patrimônio do empresário. O Grupo OK não reconhece a dívida nem qualquer responsabilidade nos desvios de dinheiro da obra do tribunal. Só assinei o acordo para desbloquear contas bancárias”. Completou Marcelo Bessa. Quando chamo a atenção dos colegas jornalistas é por uma causa justa, movido por sentimento patriota. Farei algumas perguntas como exemplo: Por que o Estado não confiscou (tomar os bens do particular) os imóveis de Luiz Estevão pela força ou autoridade, sem que fosse oferecida ao “prejudicado” qualquer contraprestação em troca, e em seguida promovesse a transferência de titularidade/propriedade dos mesmos? A Justiça decretou a indisponibilidade dos bens de Luiz Estevão, mas continuam de sua propriedade, não é? Alguém sabe que o advogado de Luiz Estevão e do Grupo Ok, Marcelo Luiz Ávila de Bessa, é o mesmo que defende o réu Valdemar Costa Neto (Deputado Federal PR/SP) na Ação Penal nº 470 – Processo Mensalão? O advogado Marcelo Bessa tem Know How jurídico quando se trata de defender clientes desse naipe. Outra pergunta: Será que está sendo pago com dinheiro “supostamente” desviado de algum organismo público nesses dois casos?

O julgamento do Mensalão é um divisor de águas. Nenhum dos réus, através dos seus renomados advogados, está mais preocupado em acusar o outro para salvar a própria pele, de modo que todos estão abrigados sob o mesmo guarda-chuva – só saem de lá pra catarem mais dinheiro sem dono caído do céu. O Ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello, disse: “Não saberia dizer o que é pior, se a patológica corrupção ou o tráfico de drogas”. Da minha parte eu reforçaria outra tese; “O pior é a nossa incapacidade de reação”. Isso não é suposição. Encontramo-nos submissos ao abstrato; a indignação cedeu a vez ao conformismo; decretamos a falência da dignidade. Os cara-pintadas desta era pintam a cara com o produto da chafurda dos porcos políticos e não conseguem distinguir os maus odores. Estamos vivendo momentos difíceis; não se trata da questão de “salvar a República” conforme sugeriu Arnaldo Jabor. Vou mais longe, o grande desafio está em “salvar os cidadãos” porque estes elegem o Chefe do Estado e, uma vez salvos, podem promover as mudanças necessárias de que tanto almejamos. A República, do latim ‘res publica’ que quer dizer “coisa pública”, é uma forma de governo onde o seu presidente permanece no poder por tempo limitado. E é justamente essa limitação que tem levado muitos líderes tresloucados a praticar crimes políticos a favor do maldito continuísmo. A diversidade de partidos políticos e de candidatos deixou, há muito tempo, de ser uma forma democrática de evitar o continuísmo na política, porque a corrupção sistêmica avassalou sistemas, tornando a nação dominada, oprimida, escravizada e refém de ideologias ultrapassadas. Destarte, não é motivo para suicídio coletivo. É tempo de virar o jogo.

Acho que demorará um pouco porque todos, invariavelmente, estão trabalhando a seu modo. O escritor Diogo Mainardi durante uma entrevista concedida especialmente ao programa “Roda Viva” da TV Cultura (20/08/2012) foi infeliz ao dizer que “Na Internet só tem otário”. O colunista Arnaldo Jabor deu pra elogiar a Dilma Rousseff; no passado fez a mesma coisa com Lula e se ferrou. A Justiça está cometendo injustiças. O Legislativo legisla defendendo os desinteresses do Brasil. O Executivo está dormindo em berço esplêndido com os olhos bem fechados. Os réus do Mensalão pagando pra ver. Os advogados de defesa desses réus estão fundando cooperativas da impunidade. O povo brasileiro, aparvalhado, mandou um recado ao Supremo Tribunal Federal dando conta que patenteou a brincadeira “Cabra-cega”, com um detalhe, todos com venda nos olhos tentando agarrar a democracia, a liberdade e a Justiça.

Nota de rodapé: Cabra-cega é um jogo recreativo; no Brasil considerado uma brincadeira, onde não há um número definido de participantes, sendo colocada num deles uma venda nos olhos para que nada enxergue, por isso é chamado de cabra-cega. A brincadeira para começar tem um ritual, contemplando frases de efeito e regras específicas, dependendo da região do país. O certo é que a cabra-cega, de olhos vendados, tentará não só a sorte de agarrar alguém como de adivinhar quem é. O agarrado fará a vez da cabra-cega e aí tudo começa de novo. Na idade média, o “jogo recreativo” cabra-cega, foi um passatempo palaciano.

Os eminentes Ministros da Suprema Corte estão brincando de cabra-cega no julgamento da Ação Penal nº 470 e seguem à risca o ritual palaciano: “Cabra-cega, cabra-cega! Tudo ri, mãos no ar, a apalpar, a tatear, por aqui, por ali. Tudo ri, cabra-cega, cabra-cega, mãos no ar, apalpando, tateando, por aqui, por ali, agarrando no ar, tudo ri”. Quando o Ministro relator Joaquim Barbosa se ausenta da sessão, o Ministro revisor Ricardo Lewandowski pergunta-lhe: “Cabra-cega o que perdeste?”. Joaquim Barbosa devolve a pergunta: “Fina ou grossa?”. Como tréplica, Ricardo Lewandowski responde: “Depende, fina ou grossa segundo seu gosto!”. Com a oportuna Data máxima venia, Joaquim Barbosa fecha o diálogo: “Então anda achá-la”.

Leitura recomendada: Livro Polítitica

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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