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Política

Julgamento do Mensalão – Relembrando 2ª parte

Julgamento do Mensalão

Tem certas coisas que fizemos no passado que é melhor deixarmos no passado. Relembrá-las é trazer para o presente uma carga de sentimentos por vezes não muito agradáveis. Uma dessas coisas foi escrever sobre política. Dizem que burro velho não aprende mais a ler. Isso é realidade. Deixar registradas opiniões pessoais sobre determinados temas de interesse só passa pela minha cabeça, ainda achar que alguém vá lê-las em futuro próximo. Ledo engano. Os pontos de vista não passam de pontos. Se bem que de vez em quando aparece um filho de Deus que me pergunta sobre o outro escândalo, aquele que provocou a CPI dos Correios e que paralisou o Brasil por praticamente dois anos. Não se falava noutra coisa; quem gostou foi um amigo diretor de escola de samba que deitou e rolou num enredo vencedor: “Roubei sim e daí? Corre e vá pegar o seu”. Pois bem, Sapucaí à parte, dou continuidade à mania incontida de relembrar coisas, já relembrando, reedito, abaixo, mais sete (conta de mentiroso) trechos de artigos escritos nos meses de maio e junho de 2005. Boa leitura. Imploro ao leitor que não fique puto comigo! Não estou disposto a pagar Mensalão para as pessoas retomarem a calma.

7. O TERRÍVEL OURO. A matéria capitaneada pela manchete “Governo e oposição negam crise institucional com CPI” (A GAZETA, 29/5), me leva a acreditar justamente no contrário. A atual conjuntura de incertezas e dificuldades começou na posse de Lulaéreo, em 1º de janeiro de 2003, e até hoje vem sendo administrada aos trambolhões. José Serra, que disputou o segundo turno das eleições com Lulaéreo, disse em período de campanha: “A eleição de Lula seria o maior estelionato eleitoral desde Collor”. Entretanto, sejam quais forem essas “vantagens ilícitas”, elas estão se comprovando e o Governo federal, no decurso de 29 meses, acomodou-se às circunstâncias e tem ratificado a previsível tendência à contemporização. O PT, Partido dos Trapalhões, está vivendo um conflito de identidade – um choque de ideias –, e não há nenhum exagero nisso. São imprevisíveis os destinos da CPI dos Correios, mas, uma coisa é certa, os principais expoentes do PT, José Dirceu e José Genoino, não conseguem remar no mesmo sentido e se guiam pela bússola da execração. Mesmo amaldiçoada, a oposição prevê que Lulaéreo ficará à deriva, ao sabor das correntes, e tudo pode acontecer daqui pra frente. Na mesma matéria, o sociólogo e um dos fundadores do PT, Francisco de Oliveira (O Chico), não vê saída para o presidente Lula e o PT capaz de reduzir o desgaste político com a CPI dos Correios, e ainda antevê um término de governo medíocre e uma reeleição complicada. O Governo federal pode até usar o Orçamento Geral da União como moeda de barganha política, mas, é bom que se recorde da frase de Eça de Queiroz: “Onde aparece o ouro, o terrível ouro, imediatamente os homens em redor se entreolham com rancor e levam as mãos às facas”. Segunda-feira, 30 de maio de 2005.

8. PAPA-DEFUNTOS I. Promessa de mudança – a transformação se deu pra pior. A esperança venceu o medo – a expectativa otimista foi derrotada pelo temor. Dois momentos que exprimem o início e a atualidade da administração do presidente Lulaéreo. A propósito do editorial “Drama político” (A GAZETA 5/6), manifesto formalmente repulsão ao governo federal que, com sua peculiar protérvia, assumiu publicamente o papel de proxeneta, por explorar acintosamente a prostituição no Congresso Nacional, onde parlamentares aliados entregam-se, degradam-se, aviltam-se e prostituem-se pelo maldito dinheiro – não passam de meretrizes de ocasião; cornucópias por merecimento, coroadas pelas mútuas traições, ou simplesmente cornos mitológicos, símbolos da abundância de interesses. O Poder Executivo, travestido de papa-defuntos, só está aguardando a extrema-unção para fechar o caixão e jogar uma pá de cal sobre a CPI dos Correios, numa manifestação de achincalhe e bazófia.  O Governo federal, premeditadamente, entrou no jogo do “Vale-tudo” para se perpetuar no poder; e tem projeto para isso – com uma visão futurista, está contando com os votos dos analfabetos, dos eleitores menores de idade e dos milhões de pessoas “compradas” com o programa Bolsa-família e outros. Segunda-feira, 06 de junho de 2005.

9. PAPA-DEFUNTOS II. A reeleição de Lulaéreo em 2006 é dada como certa, caso não surjam outras certezas no meio do caminho. Dissimulada a crise ética, haverá uma reforma ministerial e certamente Duda Mendonça será convidado para assumir o Ministério do Ilusionismo, pela sua habilidade em produzir ilusões com a força da mente e a ligeireza das mãos, como num simples passe de mágica. Um novo cenário político para a nação só será aberto após o processo de impeachment dessa súcia, desse bando de vagabundos, desses velhacos, que estão no poder, cagando e andando para a opinião pública, para o fato das nossas instituições estarem mergulhadas num mar de lama, e, sobretudo, para o destino escuso dos recursos públicos. O Brasil é uma casa de muitos cômodos – limpar somente um não melhorará a sua imagem. O povo precisa demonstrar a sua força, transcendente ao ato de depositar o sufrágio nas urnas eleitorais – agora digitalizado –, indo para as ruas defender a proposta de CPI dos Correios, impedindo que ela se torne mais uma página virada na história política brasileira. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Antes que aconteça o pior, seguindo recomendação do Lulaéreo, tiremos a bunda da cadeira e façamos o que tiver de ser feito. O dicionário nos ensina que sufrágio também pode ser ou representar “oração pelos mortos”. Segunda-feira, 06 de junho de 2005.

10. MISSA DE CORPO PRESENTE. Jamais devem ser consideradas um diário de previsões, contudo, duas matérias que encaminhei à redação do jornal A GAZETA, coluna Cartas, e até o momento não publicadas, trazem um exame antecipado de alguns fatos. A primeira delas, “CPIG dos Correios”, em um dos seus trechos, revela: “Quando o ventilador estiver ligado, espera-se uma tempestade de excrementos por todos os lados e cantos da Câmara e do Senado. O Diabo é que, tanto o governo federal como a oposição, tem pavor dos desdobramentos decorrentes – e esses serão muitos. Há o premente risco de ‘outras correspondências’ serem violadas, em caráter geral”. Da segunda matéria, “O terrível ouro”, extraio o parágrafo: “José Serra, que disputou o segundo turno das eleições com Lulaéreo, disse em período de campanha: ‘A eleição de Lula seria o maior estelionato eleitoral desde Collor’. Entretanto, sejam quais forem essas ‘vantagens ilícitas’, elas estão se comprovando e o governo federal, no decurso de 29 meses, acomodou-se às circunstâncias e tem ratificado a previsível tendência à contemporização”. Todo mundo sabe quem descobriu o Brasil, mas, o difícil está sendo listar os nomes das pessoas que querem acabar com ele. O deputado federal Roberto Jefferson, e o ainda presidente do PTB, em entrevista concedida ao jornal Folha de São Paulo, nesse último final de semana, agravou a crise política em Brasília. Segundo ele, o PT instituiu o tal “Mensalão”, como forma de comprar os deputados federais do Partido Liberal (PL) e do Partido Progressista (PP), aliados do presidente Lulaéreo, pela quantia mensal de R$ 30 mil (para cada deputado), para que votassem a favor dos projetos do Governo. Quem era contra, agora defende a CPI dos Correios e até a abertura da CPI do Mensalão. Entre choros e velas, a missa de corpo presente já foi encomendada. Denúncias de corrupção abalam a governabilidade e dão sinais de contaminação na combalida economia. Dessa vez Roberto Jefferson incorporou o espírito do Pedro Collor, irmão do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Lulaéreo, mais do que nunca, precisará da ajuda daquela mãe-de-santo que ele deixou a ver navios no aeroporto, para exorcizá-lo. Caso ela não consiga expulsar o mau espírito, talvez se vingue do Lulaéreo, deixando-o ferver no caldeirão da omissão e da prevaricação. Segunda-feira, 06 de junho de 2005.

11. PINTANDO AS PAREDES. No núcleo da crise provocada pela catarata fragorosa de denúncias de corrupção, o petista Lulaéreo defendeu uma urgente Reforma Política – mas não irrestrita –, e já pediu ao Ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que em quarenta e cinco dias apresente uma proposta. Vejo na sua atitude oportunista, uma clara demonstração de querer mostrar serviço; pinçou do mangue um tema polêmico, convocou uma pessoa não habilitada para digeri-lo, sem dar tempo para o bom preparo do prato. Em outubro acaba o prazo de refiliação para quem for candidato em 2006 e tudo parece indicar que o Governo fará tantas manobras quantas necessárias, tramas astuciosas, para não perder o controle do leme. A sociedade civil organizada não se fez presente na Constituinte de 1988 e também estará ausente da construção da Reforma Política, caso esta seja feita por políticos. Nesse trabalho de dupla função, considere-se, prioritariamente, a reforma da sociedade política, e esta não pode ser procrastinada. Ainda que o Governo exercido no Brasil seja oligárquico, a idealidade recomenda a criação de um Comitê de Reforma Política para examinar e propor a matéria com isenção – uma comissão, exclusivamente formada por especialistas não ligados a quaisquer facções políticas, únicos e verdadeiros representantes das aspirações do povo. Tomando para si a responsabilidade da Reforma Política, o governo federal, junto com os seus pares, estará brincando de casinha e, antes de cimentar os cômodos, pintará as paredes com as cores do partido para esconder as “infiltrações”. Sexta-feira, 10 de junho de 2005.

12. CENSURA PRÉVIA. Coexistem na ambivalência, a vontade de fazer a Reforma Política e a incompetência em promovê-la – nasce no Governo a dupla orientação no querer e no sentir. Na atual conjuntura, a ação de governar não significa administrar; reger; exercer o governo; enfim, dirigir como chefe de Estado – governar é ter poder sobre, praticando ações, atos despóticos. Um sistema de governo prepotente que chega às raias do absolutismo. Haja vista o Ministério de o Planejamento ter emitido portaria que prevê o exame prévio das pesquisas do IBGE pelo Governo federal. Com o advento das CPIs, essa censura prévia é regra do autoritarismo, é garantia de sobrevivência política. Na era Lulaéreo, qual o período da vacância presidencial, ou seja, o tempo durante o qual o cargo de presidente ficou desocupado, face ao cumprimento de uma agenda de passeios internacionais? José Alencar, enquanto empresário-vice, só sabia reclamar dos juros altos, talvez porque se sentia diretamente prejudicado. Em decorrência, a política do Governo está decrépita, a credibilidade das instituições comprometida e o PT conferindo a Lulaéreo o título honorífico de títere – se colocar no peito esse emblema saiba o presidente, de antemão, que continuará brincando de casinha; só que do lado de fora da mesma. Acesso negado. Sexta-feira, 10 de junho de 2005.

13. CARA EMPORCALHADA. Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza. Esta máxima se aplica perfeitamente ao episódio vivido pelo PT nos últimos dias, diante das denúncias de corrupção que estarreceram a nação. É pura ingenuidade achar que essa prática é nova nos bastidores da política. O problema é que o PT foi com muita sede ao pote, sem conhecer os meandros dos antigos esquemas palacianos – herdados pelos detentores ou depositários do poder. Naturalmente, com o poder nas mãos – que foram trocadas pelos pés –, os santos ilustres membros do Partido dos Trabalhadores bradaram aos pés da República: “Chegou a nossa vez”. “Vez de quê?”. Perguntaram os inocentes eleitores. Mas, alguém muito próximo do Ali Babá, mandou essa: “Como políticos de esquerda, formamos um conjunto ou coalizão de grupos empenhados na defesa ou instituição de uma ordem social baseada em princípios de igualdade e ampla participação. Portanto, se temos a prerrogativa da igualdade e do ilimitado direito de tomar parte no esquema, chegou a nossa vez de meter a mão na jaca”. E todos meteram ao mesmo tempo. Só que tem dois poréns: o PT deixou de fora do esquema as velhas raposas da oposição e os petistas abusaram do direito de comer melado e deixaram a cara emporcalhada pra todo mundo ver. Sábado, 11 de junho de 2005.

Com a devida vênia, se o leitor permitir, tornarei a lembrar, a recordar, a evocar, a rememorar outros escritos passados – contribuição para a nossa cultura política.

Leitura recomendada: Livro Polítitica

Augusto Avlis

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Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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