>
Você está lendo...
Política

Julgamento do Mensalão – Relembrando 1ª parte

Julgamento do Mensalão

A política brasileira, assim como os seus artífices, vive um momento delicado. O julgamento pelo Supremo Tribunal Federal do Processo do Mensalão, Ação Penal nº 470, com a primeira sessão realizada na última quinta-feira, 02/08/2012, despertou sentimentos de perplexidade, indignação, revolta, comoção e estupor nos quatro cantos do país, mesmo nas camadas menos esclarecidas da população, até porque inevitáveis são os comentários, que acontecem em progressão geométrica. Nenhuma notícia passa despercebida; a indiferença cede lugar à curiosidade normal, pelo menos. A figura do político, por generalidade, fica sobremaneira manchada, ou melhor, emporcalhada, e cai no precipício do descrédito total. Todos, invariavelmente, são jogados na mesma vala comum. Os políticos de hoje são os “vendilhões da pátria”. As instituições estão fragilizadas nas suas bases de sustentação. Separar o joio do trigo, a rigor, não me parece uma tarefa das mais fáceis. A sociedade política carece de radical assepsia, de uma limpeza pesada – na história política do Brasil não há precedentes. Feito isso, necessária se torna a salga do terreno para espantar os maus espíritos. Um eleitor disse a um candidato a Vereador (Eleições/2012) numa passeata da qual participou no domingo, 05/08/2012, com o propósito de angariar votos: “Eu quero que você morra, ou melhor, eu quero que todos os políticos morram”. Será que tal atitude já é influência do julgamento do Mensalão? Não é à toa que o atual governo esteja preocupado com as repercussões do caso, e é bom que vá se preocupando, da mesma forma quanto aos prejuízos contabilizados nas urnas com as eleições municipais. Tenho por hábito dizer que “O verdadeiro cidadão é aquele que pratica as leis da Justiça, ou as estimula”. A seguir, reeditarei trechos de alguns artigos de minha autoria sobre o Mensalão, escritos entre os anos de 2005 e 2006. O enredo não é ficção, tampouco exercício de bruxaria.

01. CORRUPÇÃO. No século XV, Maquiavel já dizia que “Não há lei nem constituição que possa por um freio na corrupção universal”. Esse pensamento existia antes do descobrimento do Brasil, porém, nos cinco séculos que nos separam dele, sofisticaram-se os métodos; a corrupção generalizou-se e proliferou-se; a desfaçatez dos corruptos e dos corruptores é exposta à vista; mudou o perfil das vítimas da corrupção. Como fiscalizar os bens públicos? Como fazer o dinheiro desviado retornar para os cofres públicos? Como aperfeiçoar os mecanismos administrativos do Estado? Como acabar com as falhas nas instituições públicas? A sociedade civil não tem como se organizar visando participar mais ativamente na prevenção da corrupção, unindo-se ao poder público, sobretudo por problemas de acesso. A corrupção no Brasil está tão arraigada no tecido social que já é responsável pela substituição da expressão “Ordem e Progresso” pela locução “Desordem e Atraso”. Um dos princípios fundamentais nas relações humanas é a honestidade, mas, se na frequência social entre as pessoas, prevalecerem o fracasso da moralidade, a conivência, a ganância e o privilégio, jamais, aqueles que adotam a corrupção como procedimento de carreira, sensibilizar-se-ão com o sofrimento de centenas e milhares de outras pessoas – que convivem bem ao lado, impotentes, carentes e clamando por melhores dias. O IV Fórum Global de Combate à Corrupção acontecerá em Brasília no mês que vem. A quarta edição desse encontro mundial não poderia ter melhor lugar para ser realizada. Quarta-feira, 11 de maio de 2005.

02. MAR DE LAMA. A edição do Jornal Nacional da terça-feira, 17/5/2005, mostrou três deploráveis episódios da política brasileira e o mar de lama no qual está submersa. Temo que uma onda Tsunami negra avassale as nossas instituições. A reportagem exibida pela TV Globo, no programa Fantástico, com a veiculação de fitas com imagens de deputados estaduais da Assembleia Legislativa de Porto Velho, Rondônia, pedindo propina ao governador Ivo Cassol (PSDB-RO), é apenas um elo da corrente de corrupção que aprisiona os homens públicos. O caso, igualmente imoral, revelado pela revista Veja – cujos comparsas são altos funcionários dos Correios em Brasília e a cúpula do partido PTB –, é apenas mais um, entre tantos, como o recente escândalo envolvendo o Ministério da Saúde; já esquecido. A gangue de Alagoas, formada por prefeitos, ex-prefeitos, secretários municipais e funcionários da CEF, todos envolvidos com esquemas de desvios de verbas públicas, sobretudo da área da Educação, não deve nem um pouco estar preocupada com a cadeia. Estamos diante de um iceberg de muitas pontas, no entanto, não posso afirmar que o processo de degelo foi deflagrado. A política brasileira está se transformando numa imensa pocilga, onde os porcos magros querem dividir o espaço com os porcos gordos, que não param de chafurdar. As leis e os princípios ou regras pelas quais se rege uma sociedade, também me parece que foram jogados na lama. Estamos vivendo uma conjuntura de incertezas e dificuldades – a crise é evidente; o momento decisivo. A pulha política só está insuflando o povo brasileiro. Terça-feira, 17 de maio de 2005.

03. PEGA LADRÃO… PEGA. O deputado Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB, não é (era) aquele gordo que defendeu, veementemente, o ex-presidente Fernando Collor de Mello do processo de impeachment instaurado pelo Congresso, inclusive usando os microfones daquela “Casa de Leis” para seus conhecidos discursos comovedores? Não, veja, é só pra saber, longe de mim fazer qualquer correlação. Nos porões do palácio das conveniências políticas, os gatos estão fugindo dos ratos, que mordem os cachorros, que sobem nos telhados. A articulação movida pela oposição para a criação de uma CPI (Coisa Pra Idiota) – já aprovada – para investigar as suspeitas, perdão, as certezas de corrupção envolvendo figurões do PTB que “tomaram de conta” os Correios, deixará o Congresso em estado de profunda morbidez – em paralisia cerebral ele já está não é de hoje. Tenho a informação que só não entrará em coma porque o “Bobo da Corte” foi instruído por FHC para gritar “Pega ladrão… Pega”, se de fato houver esse risco. Corrigindo o valor das trinta moedas que Judas recebeu por ter vendido Jesus, os economistas do Governo concluíram que Maurício Marinho, ex-chefe do Departamento de Contratação e Administração de Material dos Correios, se vendeu muito barato pela bagatela de R$ 3 mil. Conexões lógicas à parte, assim como foi de Collor, o deputado Roberto Jefferson é um dos principais aliados de “Lulaéreo”. Nessa muvuca toda, ninguém, absolutamente ninguém, está a salvo de pedradas – pecados não faltam. Sinto saudades da época em que o parceiro dos Correios, o Telégrafo, atuava mais na repartição. Quarta-feira, 18 de maio de 2005.

04. A MALDITA LINGUAGEM. Assim como as pedras aquáticas, eu me cristalizo, mas sofro mutações. Mudo para a constante melhoria da minha evolução. Prova disso é que, decorridos quase dois anos e meio de Governo, concluo que Lulaéreo tem constantemente se vitimado pela linguagem. Prova da minha evolução é que culpo, e não deixo de culpar, a “linguagem” como a única causadora da metamorfose do presidente. Lulaéreo foi levado a usar a linguagem, não apenas como uma simples e peculiar maneira de se expressar em palavras, mas, sobretudo, como forma totalitária de exprimir suas ideias e sentimentos de sistemas. Na lógica, tudo permitido pela faculdade humana de se comunicar. Na lógica, culpados também são os receptores, que não evoluíram na forma de interpretar o palavreado presidencial. Manipuladores do poder, ao longo da história, utilizaram-se da propaganda como principal arma de conquista. Substantivamente, propaganda é um meio de divulgação de ideias e princípios. Ideologicamente, é um veículo condutor de ideologias baseadas em crenças e convicções que orientam as ações da humanidade. Vamos ver se dessa vez os “Profissionais da Comunicação Subliminar” encontrarão uma linguagem adequada para neutralizar as reações dos cidadãos à resposta dada por Lulaéreo, quando um repórter lhe perguntou se estava preocupado com a CPI dos Correios: “Olhem para minha cara e vejam se estou preocupado”. Mera linguagem. Quinta-feira, 19 de maio de 2005.

05. CUPINS DO ERÁRIO. É dele, Arnaldo Jabor, a manchete: “Floresce no país uma primavera de ladrões”. A Reforma do Judiciário não acabará com a corrupção costumeira, ao contrário do que apregoa o brilhante colunista, porque depende de decisão política – esta tem o mando da mesa; dá as cartas e é exímia na arte de blefar. Uma qualidade típica dos três Poderes da República, a conivência assistida, estampilha o pacto de silêncio. Se o intento firmado é fingir não ver ou encobrir uma má ação praticada por outrem; nesse caso, não temos nada a fazer senão pedir o boné. A corrupção meditativa; a corrupção cronogramada e a corrupção estratégico-compartilhada-liberal correm à revelia de qualquer proposta de reformulação de sistemas. Ladrão não é tão somente aquele que rouba, que furta; o indivíduo desonesto; larápio – é também aquele que deixa fazer; permite que seja feito, por exigência implícita da passividade. Antigamente, quando a moralidade primazia era, para ser ladrão o cara tinha que ter talento congênito. Mas hoje, nas entranhas do poder, se ouve a mais decantada frase palaciana: “A ocasião faz o ladrão, basta ganhar a eleição”. E por ‘idiotas falsos patriotas’ passam aqueles que se insurgem, sublevam-se, contra esta premissa genuína, mas, que de soslaio, admitem que “Ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de poupança” – basta colocar um vigiando o outro. Nesses 505 anos de saques e rapinas, o povo só fez esculpir os santos do pau oco, virtuosos, dentro dos quais os políticos guardam o nosso dinheiro, seguros de que não serão apanhados em flagrante assalto. Ao longo dos tempos, a desesperança levou o povo a “conviver” com a roubalheira manifesta dos políticos, o que tornou procedimento comum esta máxima: “Todo o político rouba; se ao menos roubasse e fizesse alguma coisa pelo povo!”. Experiências em maracutaias são exigências de currículo – rotina operacional da profissão de político brasileiro. Da empresa Brasil, somos apenas sócios inapetentes – que não a deixam levar à falência porque comparecem religiosamente com o dinheiro dos seus impostos e tributos –, e concordamos que os nossos representantes sejam legais extorsionários, chantagistas e que jamais percam o apetite como cupins do erário. Quinta-feira, 26 de maio de 2005.

06. CPIG dos CORREIOS. Quarta-feira, 25 de maio de 2005, um verdadeiro dia de cão para o governo federal, acumulando mais uma derrota no Congresso Nacional. Vitória inconteste da oposição vigilante, que mantendo firmes as assinaturas de 254 deputados federais e 51 senadores, criou a “CPIG” (Comissão Parlamentar de Inquérito Genérico), que investigará “com isenção”, e “sem sangria”, as contundentes denúncias de corrupção na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Quando o ventilador estiver ligado, espera-se uma tempestade de excrementos por todos os lados e cantos da Câmara e do Senado. O Diabo é que, tanto o governo federal como a oposição, tem pavor dos desdobramentos decorrentes – e esses serão muitos. Há o premente risco de “outras correspondências” serem violadas, em caráter geral. Precisando do emprego, os carteiros farão vistas grossas. Num jogo de “tá quente, tá frio”, a oposição fez questão de assumir o papel daquele garotinho (não é o da Rosinha) que participou do famoso “troca-troca” com o coleguinha mais íntimo e depois veio a público dizer que só ele comeu e o outro só deu a bunda – por hábito. Com a bunda de fora está o povo, que não sabe como vai pedir o seu dinheiro de volta, surrupiado pelos larápios travestidos de bons, salvadores e honestos políticos – gatunos engravatados. R$ 75 bilhões; este é o montante médio anual do rombo da grana pública, segundo fontes prejudicadas. Perto disso, Ronald Biggs e o juiz Lalau são fichinhas. Verdade é que com a “CPIG” dos Correios instaurada, muitas pedras preciosas vão ser arrancadas da coroa do Rei do Brasil para presentear os amotinados. Os exemplos sucedâneos de corrupção na política estão decretando a derrocada dessa geração que aí está, totalmente desmotivada pela falta de oportunidades e completamente carente de referências éticas e morais. A água e o sabão, necessários para a lavagem da política brasileira, estão nas mãos do povo – só a ele cabe a condição de usá-los e quando. Enquanto isso, torçamos para que algum ícone da moralidade promova a salga do terreno, afastando o fantasma da crise institucional – já tão perto de nós e que muitos fingem não vê-la. Sábado, 28 de maio de 2005.

Leitura recomendada: Livro Polítitica

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts.

Junte-se aos outros seguidores de 160

%d blogueiros gostam disto: