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Política

Julgamento do Mensalão – Frutos podres no quintal da pátria

Um dia histórico para a Justiça brasileira e o recomeço do Inferno astral para a política. Quinta-feira, 02 de agosto de 2012, 14h00min, o STF começou a julgar o Processo do Mensalão, no qual 38 Réus terão os seus destinos traçados.  Vendo esta charge do cartunista Alpino, um saudosista amigo, e também jornalista, que estava sentado ao meu lado como atento espectador voluntário do evento, recordou uma pergunta feita por um jornal de grande circulação, na coluna Fórum do Leitor (domingo, 12 de junho de 2005), por época do estouro do escândalo: “Você concorda com uma CPI para investigar também as acusações de compra de votos para a aprovação da emenda constitucional que permitiu a reeleição de FHC?”. Como eu me declaro mais saudosista do que esse meu amigo, tratei logo de abrir o meu notebook e o obriguei a ler um artigo de minha autoria escrito exatamente naquele dia, 12/06/2005, sob o título “Frutos podres no quintal da pátria”. Impressionante, bastava apenas trocar a data da sua criação, colocando 02/08/2012, para vermos como o enredo desenvolvido não perde a perspectiva de atualidade; tudo é substantivamente atual. Leia abaixo.

Frutos podres no quintal da pátria

Águas passadas não movem moinho, mas voltam em forma de tempestade. Se São Pedro atender ao pedido de mais vento, quem está dentro do barco é quem sofrerá as consequências – e a embarcação pode afundar. Nesse momento, deixar o passado em paz é atitude sensata, mesmo porque as verdades e mentiras foram compartilhadas, e os prejudicados, com o menor quinhão, não se manifestaram. Aquilo que se fez ou se disse anteriormente deve servir como referência para que se trabalhe o presente com honradez e que se projete o futuro com responsabilidade. Omissão é crime, quando se trata da coisa pública – os parlamentares que se omitiram provavelmente deveriam ter motivos bem fortes. O Brasil está parado; essa é a verdade. O Governo entrou num processo de entorpecimento e se asfixia a cada nuvem de poeira criada pelo estouro da boiada. O corpo do Estado está enfermo – não se legisla; não se executa projetos de interesse do país. Os políticos mais parecem um bando de crianças do colégio maternal.

No Brasil, a corrupção é endêmica, e o povo deve estar se perguntando qual e quando será a próxima CPI. Nesse contexto, tudo o que serve de norma para julgar deveria ser questionado, até porque não concebo a ideia de políticos investigando políticos, ou mesmo a Reforma Política ser feita por eles próprios. No quintal de Brasília, se alguém sacudir a árvore da corrupção, cai todo mundo de maduro. A banda podre da política é bem maior do que se pressupõe, ou melhor, só tem ela – os que a tornam matizada são as oportunidades e os agentes. Não vislumbro ações lenitivas, enquanto a ganância política não for totalmente cerceada – procedimento que só a índole dos homens pode definir. A antropofagia é condição da política, e o político não assumidamente canibal só é devorado; não come. No caso das CPIs dos Correios e do Mensalão, e por aí adiante, quem atirará a primeira pedra é o de menos; passa a ser mais importante quem empurrará o outro no precipício. Ninguém, absolutamente ninguém, poderá dizer: “Lavo as minhas mãos”, se não tiver a certeza de que o desinfetante está ao lado e bem disponível.

Urubus, abutres, hienas, chacais e outros rapinadores e predadores estão de plantão – como o Garotinho –, na espreita, aguardando a hora certa para atacar. Os políticos se esforçam para que a sua imagem refletida seja outra, e mandam apagar as luzes para que a sombra projetada desapareça. Ao entrar no palácio, calçar sapato velho pra não fazer barulho é estratégico e recomendável. Talvez por isso Lulaéreo não tenha percebido que a atual gangue da corrupção usou a sala ao lado do gabinete de José Dirceu, no Palácio do Planalto – com ele dentro –, para planejar a “arrecadação de recursos”. Ah, o amaldiçoado dinheiro que se tornou o pungente problema da República dos nordestinos. A fácil acessibilidade fez com que castos políticos entrassem na CTI (Corrupção por Tempo Indeterminado). Não deveria ser deles a prerrogativa de administrar orçamentos vultosos, sobretudo quando se sabe como o cálculo das despesas é feito e a forma de liberação do dinheiro público – dinheiro que sai de um lado e entra no outro; movimentação sem contabilidade formal; sem auditoria; devidamente lavado como manda a boa regra de higiene parlamentar. Quer conhecer o homem, então dê poder a ele, perdão, dê a chave do cofre.

O presidente Lulaéreo está predisposto a cortar o dedo mindinho da mão direita em troca do apoio dos analfabetos, dos menores de idade, dos desinformados, enfim, dos cegos e surdos, cujos votos poderão ser decisivos para a sua reeleição em 2006. Destarte, o bruxo Duda Mendonça criará uma nova embalagem para o produto pirata, produzirá a campanha de lançamento no estilo nababesco e já tem definido o mercado consumidor. Nos discursos de palanque, Lulaéreo está liberado para o uso de metáforas. Por analogia mental, acho que “o voto deveria ser seletivo” em prol da qualidade da sociedade política brasileira. Vota quem estiver preparado, intelectual e culturalmente. Num sistema ou num tipo de cultura como o nosso, defendo o predomínio da inteligência e da razão. Os políticos atuais não sabem o que é isso e dão graças a Deus por não saber. Busquei na filosofia o sentido de intelectualismo, e descobri que é a doutrina segundo a qual tudo no universo pode ser reduzido a elementos intelectuais, inclusive os sentidos e a vontade. Estamos o tempo todo nos nivelando por baixo, por vontade explícita; não dispomos, porque não queremos, de mecanismos para regulares avaliações da competência política; não temos o “poder de polícia” para a imediata substituição dos políticos desqualificados, porque não interessa, e continuamos colhendo frutos podres no quintal da pátria. Não que os eleitores não tenham a devida aptidão; fato é que nunca foram preparados para o exercício da cidadania.

A desinformação é a arma da dominação. Uma rede de alta voltagem é formada por políticos, estatais e empresas privadas – fios desencapados, que uma vez entrelaçados, causam curto-circuito, deixando os palácios ministeriais de Brasília totalmente às escuras, e é chegada a hora dos atores principais entrarem no palco dos obscuros interesses; sem a necessária, mas dispensável maquiagem. Também o são as comparações e as especulações. 2006 é o ano da Copa do Mundo – queira Deus que o Brasil não seja campeão. Já temos um, Lulaéreo – que faz jus a esse cognome –, campeão de horas de vôo; campeão de propagandas. Nessa história toda, quem sai goleado é o povo, ou melhor, chamuscado por inteiro, ao tentar colocar as mãos nos fios desencapados; despencados dos postes.

Leitura recomendada: Livro Polítitica

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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