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Política

Polítitica – 54ª Crônica

Era domingo, primeiro dia da semana. A humanidade aprendeu a descansar no primeiro dia e não no sétimo. Se bem que o desempregado repousa da fadiga do ócio todos os sete dias da semana. Sentado à beira do caminho, um demitido do emprego, faz dez anos, lia e relia dois amarfanhados papéis. Por obra do destino, da sina, da fatalidade, do fado, enfim, seja lá do que for, o fato é que o “fim último” estava previamente estabelecido para mim. Ia passando, como todo mundo passa, no instante que aquele desgraçado, infeliz, desfavorecido da sorte, desafortunado (posso colocar centenas de adjetivos que nenhum deles comoverá político filho da puta) me pediu para corrigir os erros de português, eventualmente contidos naquela sua mensagem.

A Carta

Ao Congresso Nacional.

Excelentíssimos Senhores Senadores e Deputados Federais.

No gozo dos plenos direitos de cidadão brasileiro comum e cônscio dos deveres, eleitor, um dos primeiros brasileiros a votar no candidato Luiz Inácio Lula da Silva, tomo a iniciativa de anexar, aos vossos cuidados, meu pedido formal de impeachment do Presidente da República Federativa do Brasil, porquanto tem se revelado um fanfarrão por dote e totalmente desprovido do perfil exigido para a ocupação do cargo público de Chefe de Estado.

Meu voto foi responsável e a contrapartida um engodo.

Todos nós, eleitores de Lula, deveríamos ter exigido do TRE, antes de sacramentarmos o voto, o resultado dos testes de aptidão e competência política, aos quais, obrigatoriamente, deveria ter sido submetido aquele membro ilustre do PT (incluindo exames psicológicos e/ou psicotécnicos), bem como as notas das provas de conhecimentos gerais nas quatro matérias básicas: matemática, geografia, história e, sobretudo, português. A apresentação de currículo, com referências profissionais, tornar-se-ia indispensável.

Não foi à toa que Lula posou para a foto oficial sem a faixa presidencial, porque o seu instinto sinalizava que não merecia usá-la.

Espero que os demais 52.799.999 eleitores votantes de Lula sigam o meu exemplo e também solicitem o seu impeachment, porque eu já perdi totalmente a esperança e o medo acabou vencendo.

Acredito que, hoje, milhões de pessoas têm esse mesmo pensamento, alem disso, se pudesse, reverteria o resultado das urnas naquele fatídico outubro de 2002.

Tenho medo do futuro. Pressinto que não estarei mais aqui para tentar modificá-lo.

Com admiração e respeito,

(Fulano de tal).

O Anexo

Pedido de Impeachment

Eu, fulano de tal, brasileiro, natural do Estado de Pernambuco, casado, pai de seis filhos, 33 anos, desempregado, morador de rua, vem mui respeitosamente solicitar que seja protocolado no Congresso Nacional o meu pedido, formal, de impeachment do Excelentíssimo Senhor Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, pelas 20 (vinte) razões abaixo explicitadas.

1ª) Perda de confiança.

2ª) Incompetência política.

3ª) Incompetência administrativa, somada com a inoperância da primeira dama.

4ª) Tendência de desgoverno em curto prazo.

5ª) Níveis crescentes de desemprego.

6ª) Exercício de falácia. Muitas promessas de campanha e nenhuma realização eficaz,

     caracterizando prática mentirosa.

7ª) Instabilidade econômica. O Brasil continua refém dos organismos e agentes

     financeiros internacionais.

8ª) Falta de programas de governo e, sobretudo, planejamento estratégico.

9ª) Greves generalizadas dos servidores federais, em detrimento da população.

10ª) Gastos totalmente desnecessários com propagandas do governo federal, com temas

       absolutamente fúteis (sob a égide “Brasil, um país de todos”), no momento em que

       os brasileiros constatam prioridades sociais não atendidas pelo próprio governo,

       enquanto publicitários enriquecem-se com o nosso dinheiro.

11ª) Nenhum pronunciamento convincente à nação, que se sente desrespeitada pelos

       constantes atos intempestivos, irresponsáveis e brincalhões do Poder Executivo,

       sem considerar os seus efeitos, demonstrando, assim, falta de critério e adoção do

       sistema carnavalesco e do oba-oba.

12ª) Desequilíbrio emocional.

13ª) Hábitos sociais em desacordo com a postura de Chefe de Estado.

14ª) Comprovado despreparo e real desqualificação para o desempenho do cargo.

15ª) Turista de ocasião. O presidente gasta dinheiro público com viagens

       desnecessárias – como se cumprisse uma agenda de passeios internacionais – as

       quais não trouxeram nenhum retorno ou resultado prático para o país.

16ª) Tendência de compra de votos com o Programa Fome Zero.

17ª) Conivente com os delitos praticados por alguns dos seus ministros e funcionários

       da alta administração pública, sobejamente divulgados pela imprensa.

18ª) Uso indevido da língua portuguesa, prejudicando o aprendizado dos alunos do

       ensino fundamental.

19ª) Risco de se reeleger sem antes dar as três refeições diárias aos pobres, segundo

       sua promessa de campanha.

20ª) Mentor do movimento “Fora FHC” e agora tenta aliciar a oposição e enganar o

       povo para que ele, Lula, não seja vítima do próprio veneno.

Confesso que fiquei perplexo ao saber do conteúdo daqueles papéis amarrotados. Mal tive tempo de dizer-lhe que o único erro de português encontrado, numa rápida averiguação, foi “Excelentícimo” com (o que corrigimos prontamente), e aquele indigente pendeu o corpo para o lado e começou a desfalecer. Antes de desmaiar, me fez prometer que publicasse a sua mensagem (Carta e Anexo), uma vez que não teria tempo para assiná-la, tampouco colocá-la no correio. Parecia prever o pior. Populares aglomeraram-se. Dois motoristas se negaram a prestar socorro para não se comprometerem. O homem morreu, naquele mesmo local, duas horas antes de chegar a ambulância do hospital municipal, do Centro de Saúde, ou coisa que o valha. A imagem daquela pessoa indeterminada – um simples alguém; um fulano de tal – que não se fez nomear, nem sequer carregava documentos pessoais, ficará gravada para sempre na minha memória, assim como as vozes desconexas dos outros fulanos de tal, dos beltranos e dos sicranos que se aglomeravam jamais sairão dos meus ouvidos. Apenas conseguia ouvir, nitidamente, palavras soltas tais como: coitado, cabeçudo, caído, calaceiro, condenado, Cristo, céu, chão, coma, crença, crise, combalido, culpado, cuspido, cena, cadáver, caixão, capela, cemitério… Inexplicavelmente, todas, começadas com a letra “C”, por regra.

Nota: O autor da mensagem morreu de inanição, segundo laudo do IML. A polícia divulgou à imprensa a profissão do falecido: pedreiro. De acordo levantamentos, aquele homem aguardava, há quase dois anos, auxílio (subsídio) de autoridades brasileiras, com o qual viajaria para o Iraque, onde daria a sua valiosa contribuição para a reconstrução daquele país. As autoridades foram procuradas e negaram qualquer tipo de pedido de ajuda, naquele sentido, e limitaram-se a comentar que o seu interesse está voltado para o fomento empresarial e não estimular a empregabilidade, nem dentro como fora do país.

“Em toda a exceção há regra”

Fim

Augusto Avlis

 

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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