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Política

Polítitica – 37ª Crônica

Parece jornal velho. Ninguém mais escreve ou fala sobre os dois Fóruns Mundiais que aconteceram em janeiro último. É assim mesmo que funciona a máquina da informação. Como desculpa, podemos aceitar que a administração dos assuntos em “follow-up” não é de nossa responsabilidade, tampouco da mídia. Do governo muito menos ainda; salvo se trouxer benefícios eleitorais, em tempos de eleições; é claro. Os Estados Unidos da América do Norte e a Inglaterra, com sua política intervencionista, já provaram por A + B que os fóruns desnecessários seriam. Por que fazê-los, então? Para anunciar a criação do novo Clube do Bolinha, ou para ratificar os nomes dos donos do Império Terra? O pior é que eles, daqui a pouco, vão provocar uma nova guerra lá pelos lados do Oriente, e não simplesmente contra-atacar, por direito de defesa, como andam dizendo.

Porto Alegre e Davos são dois mundos diferentes, visualizados e discutidos sob prismas particulares e que caminham em órbitas próprias – podemos, dessa forma, conceituar o Fórum Social Mundial e o Fórum Econômico Mundial (World Economic Forum). Como nos demais Fóruns Mundiais, realizados anteriormente, os assuntos de interesse público foram tratados de uma feição acadêmica, ou seja, seguiram os modelos clássicos e fizeram parte de uma “agenda morna” da qual resultaram e resultarão novos compromissos informais e tratados puramente burocráticos; simplesmente papéis sem valor histórico. Certamente, nada de efetivo e prático, que traga benefício para o planeta e para a humanidade, receberá o devido tratamento por parte dos países pertencentes ao bloco forte.

Os primeiros temas discutidos nos dois Fóruns Mundiais, de Porto Alegre, no Estado do Rio Grande do Sul, e Davos, na Suíça, sinalizaram a real existência de um divisor-de-águas entre o “romantismo filosófico” dos países pobres e a “defesa de interesses” dos países mais ricos do planeta. Portanto, convergem para essas naves públicos diferentes, rumo a viagens distintas. Na nave suíça restringe-se o acesso de passageiros, por uma questão de diplomacia e passaporte. Na nave brasileira, entra qualquer um, inclusive os políticos de Brasília, com excesso de bobagens carregadas nas cabeças e bocas, muito dinheiro nas malas e nos bolsos, farta comida na barriga e nada, absolutamente nada, na agenda de trabalho. O clima do oba-oba se instalou.

Direitos Humanos; Desenvolvimento Democrático e Sustentável; Poder Político, Sociedade Civil e Democracia; Mídia, Cultura e Contra-Hegemonia; Combate à Militarização e Promoção da Paz, destacaram-se como principais temas abordados no Fórum Social de Porto Alegre, RS. Já do outro lado do Atlântico, em Davos, na Suíça, Segurança e Geopolítica; Governância Global; Incertezas da Economia Global; Desafios (vários) para as Corporações; Confiança e Valores voltados para as grandes empresas após os escândalos de que foram alvo algumas corporações americanas (vide o caso ENRON), constituíram-se as proposições básicas daquele encontro. Como se pode observar, filosofias x defesas de interesses.

Numa rápida análise das pautas apresentadas, concluímos que os fóruns são dicotômicos por natureza e não adianta qualquer esforço para tentar juntá-los numa corrente única de pensamento, porquanto eles têm missão e finalidades de caráter singular. Por isso, questionou-se a ida, naquela altura, de Lula a Davos. O que faria o mais novo “Robin Hood Tropical” no Fórum Econômico Mundial se o seu objetivo primordial era, e continua sendo, legitimar as grandes corporações (sanguessugas) do grupo dos países mais poderosos, justamente o contrário do que pressupõe a nossa política de vizinhança? Lula acabou indo. Danou-se.

O que houve lá, na realidade, foi muita expectativa em torno da figura de Lula; um operário-presidente e um homem de seis milhões de dólares, perdão, 52,8 milhões de votos. Os primos ricos queriam vê-lo bem de perto para matar a normal curiosidade – igual como seria com a aparição de um extraterrestre na sala de convenções. Satisfeita a curiosidade, os primos ricos deixariam o ouvido esquerdo aberto (respeitando as origens esquerdistas de Lula) para ouvirem o que o “ET”, perdão novamente, o que o primo pobre do PT teria a dizer em seu tão esperado discurso. O ouvido da direita também permaneceria aberto para que as palavras pudessem sair mais facilmente. O texto, objeto do discurso de Lula, fundamentou-se numa linha de “súplica” aos países ricos para que se engajem na luta contra a fome e a miséria que, infelizmente, ainda assolam o planeta. Lula sabe pedir muito bem, só que não sabe a quem! Pedir à comunidade internacional que se comova com a sua mensagem contra as desigualdades sociais, contra a fome e a pobreza, seria o mesmo que correr num circuito de Fórmula 1 com o seu carro na contramão, sem direito à parada no boxe – só no hospital ou, quiçá, no cemitério de Brasília.

O presidente Lula crispará a testa se quiser – ele foi previamente avisado pelos amigos para não dar uma de “penetra de festa” –, e acho até que ele jogou muita conversa fora. A bem da verdade, os primos ricos, que davam as cartas, escondendo os curingas o tempo todo do jogo, no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, estavam muito preocupados com o seu próprio destino e futuro, tanto que não omitiram, de forma nenhuma, a linha de discussões estabelecida para aquele mega encontro: giraria em torno das incertezas para a economia dos seus países diante da probabilidade de um ataque premeditado dos Estados Unidos ao Iraque. Os banqueiros americanos se pronunciaram: “Salvemos os nossos cofres dos iminentes ataques iraquianos químico-biológicos. O nosso dinheiro não pode se desintegrar. A nossa pele, a gente salva depois!”. Pergunto: A nossa quem salva? Lula? Os EUA? 

Sonhar, não custa nada. Voltar do mundo dos sonhos, sim. Mesmo que o presidente Lula se faça credor do modelo Neoliberal, é um neófito nesta ciência, por prática. Ainda que insista que o desenvolvimento econômico só é possível com a distribuição da renda de forma mais justa, antes de tudo, precisa entender que sem a criação e posterior implantação de um novo modelo econômico e uma nova ordem social isto jamais terá a chance de acontecer. O uso, oportuno, do advérbio “jamais” pode parecer dramático, porém, podemos diminuir a intensidade do sentido de “nunca”, deixando a entender que sonhar com um sistema que prega a igualdade de condições para todos os membros da sociedade é plenamente possível; talvez à beira da extinção de alguns continentes do planeta – o risco disso acontecer existe de fato e nada, absolutamente nada, está sendo feito para diminuí-lo. Agravar a situação pode!

Tiremos, pois, exemplos aqui dentro do nosso próprio país. Trabalhadores, responsáveis pela produção de bens, não têm, sequer, a oportunidade de consumí-los por direito, sobretudo, porque a impassível política econômica e monetária – objeto de “negociações corriqueiras” com os interesses internacionais e voltada tão somente para as oligarquias auriverdes e agora com tom avermelhado – fomenta, a rigor, a concentração das riquezas, achata cada vez mais as classes economicamente ativas e promove as diferenças sociais por seletividade imposta. Não podemos nos considerar exemplo nesta área. Não, não somos. Deixemos a hipocrisia de lado. Esta afirmação não é paradoxal. Portanto, o emprego sistemático da expressão “inclusão social” e suas derivadas na maioria dos discursos palacianos é, no mínimo, pífio.

Por fim, intelectuais de esquerda; líderes de movimentos sociais; ativistas antiglobalização; manifestantes contra a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) e opostos à guerra com o Iraque; as 5.532 ONGs (Organizações Não Governamentais), sendo que apenas 71 delas tiveram representantes em Davos e que “desapareceram” no meio dos 1.300 dirigentes de empresas multinacionais; enfim, toda essa gente que participou ativamente dos Fóruns Mundiais, com roupas e mentes multicores, não saberá precisar qual o destino reservado para o planeta, qual o futuro dos organismos multilaterais como a ONU (Organização das Nações Unidas) e o Banco Mundial, quando os recursos naturais deste planeta estarão esgotados, e, a partir daí, a humanidade comece a se preocupar com a sua preservação. Só incertezas.

Tudo não passou, não passa e não passará de mero exercício de falácia. Como festa, deu pra se divertir. Se, aqui como lá, o presidente Lula esperou salamaleques por parte dos líderes mundiais, deve ter ficado decepcionado, na mesma proporção que George W. Bush ficaria perplexo se os Estados Unidos, em nenhum momento, fossem duramente atacados por diferentes grupos de manifestantes políticos ou pacifistas. Independentemente da sua política externa imperialista, vale lembrar que os Estados Unidos não apresentam um currículo dos mais favoráveis no quesito “Experiências Profissionais” em fóruns, convenções e tratados mundiais. São contumazes na questão da poluição atmosférica – sem dúvida, os maiores poluidores. Agora, querem poluir ainda mais a atmosfera com cheiro de pólvora, com os gases resultantes da queima dos poços de petróleo iraquianos e com o odor da putrefação dos corpos das suas vítimas de guerra. Todavia, há quem acredite nas suas intenções angelicais, no seu compromisso com a democracia, no seu respeito à liberdade e soberania dos povos. Se, a maior potência do planeta age na contramão do que prega, o que podemos esperar dos fóruns de Porto Alegre e Davos, se tudo se resume numa total e completa subserviência econômica a ela. Talvez Porto Alegre e Davos sejam esquecidos com a mesma velocidade com que caiu o ônibus espacial Columbia quando da sua reentrada na Terra. Caiu, sumiu, ninguém viu.

Lula deveria ter aproveitado a sua estada em Davos para solicitar aos bancos suíços autorização para sacar o dinheiro surrupiado pelo bando do Silveirinha. Como se trata de muita grana, neste caso, Lula não dispensaria a segurança, como o faz habitualmente quando está em contato direto com o povo. Por medida de segurança, não pediria ajuda a determinado Ministro para carregar a mala – do dinheiro, é claro! Se Lula conseguisse trazer todo o dinheiro de volta aos cofres públicos brasileiros, já teria justificado a sua ida a Davos e toda a despesa efetuada pela sua comitiva. Mas, como por essas bandas, tudo acaba em samba, quem sabe um “se” pra cá e outro “se” pra lá, Lulalá e seus asseclas se convertam em compositores de um novo samba-enredo. As alas dos “Sem teto”, dos “Sem terra”, dos “Sem camisa”, dos “Sem calças”, dos “Sem esperança” e dos “Quem tem fome” já podem começar a sambar desde agora. Nas naves da Sapucaí tem espaço pra todo mundo – em Brasília, não.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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