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Política

Polítitica – 34ª Crônica

O Programa “Fome Zero” constitui-se a meta síntese do governo do PT, encabeçado por Lula. Será que o aludido Programa pode ser considerado um método que vai do “simples” para o “composto”? Como foi concebido, sem ornatos, já demonstrou uma tremenda complexidade. Quando composto, caminhará para a sua impraticabilidade. Certa vez, Francisco Julião, um líder sindical camponês originário dos canaviais de Pernambuco – lá por volta dos anos 60 –, disse que “Agitar é uma beleza. Organizar é que são elas”.

A impressão que se dá é que os Ministros mais parecem uma verdadeira ninhada de pintos no lixo – ciscam o tempo todo, esgaravatam, revolvem e não encontram nada. O Programa “Fome Zero” ainda vai provocar muita mixórdia. Será lançado oficialmente por Lula no próximo dia 30 de janeiro, vai cair numa quinta-feira, em Brasília, sob os olhos de uma plateia atenta no princípio, mas que pode, perfeitamente, se decepcionar dependendo do que ouvir. Está faltando “Dom”. A meta inicial é beneficiar cerca de mil Municípios do semi-árido nordestino ainda no decorrer de 2003, o que nos parece auspiciosa demais para o tamanho da desorganização, quantidade de dúvidas e volume de problemas, sem contar com as resistências ocultas (daqueles que estão com a barriga cheia).

Guaribas e Acauã, localizadas no interior do Piauí, são as duas primeiras cidades cobaias, perdão, identificadas para a “experiência”. Pelo que sei, nenhum estudo de base foi encomendado pelo governo para subsidiar o projeto. Existem ONGs especializadas nesse mister. Dos mil Municípios roteirizados, quantos, na realidade, não têm na fome o seu problema principal, apenas carecem de infra-estrutura, como tratamento de água, rede de esgoto, posto médico, eletricidade rural, escolas, transporte, estradas, enfim, serviços públicos básicos para a garantia de uma melhor qualidade de vida? Na paralela, parece surgir uma enorme onda de desinteresse, impedindo que o problema seja analisado com profundidade.

“A pobreza dessas regiões é atribuída à falta de competência dos antigos governantes”. Lembram-se dessa frase, ou melhor, desse brado retumbante?

Na cerimônia de lançamento do Programa “Fome Zero”, Lula – que não faz parte do cardápio popular – tentará explicar o mecanismo que o governo utilizará para transformar em comida o benefício concedido em dinheiro. Fala-se num cartão magnético com valor máximo estipulado em R$ 50,00 por família cadastrada, a título de Bolsa Alimentação. Divulga-se, também, a exigência da apresentação dos comprovantes das compras dos alimentos, não precisando ser, necessariamente, Notas Fiscais. O consumo de alguns produtos será restritivo ou nulo. A propósito do Ministro José Graziano já ter sinalizado que serão aceitos recibos ou “testemunhos verbais” que comprovem o correto uso dos cinquenta reais – só falta pedir exame de fezes –, jamais podemos esquecer que o povo brasileiro é muito criativo, sobretudo quando a sua “criação” tende para o caminho do erro e do proveito próprio. Não faltarão corruptos nem corruptores, tampouco negociatas de comprovantes e de testemunhos. Provavelmente aparecerão cartões magnéticos clonados. Uma corrente de pessoas esclarecidas comenta que exigir comprovantes dos miseráveis, neste caso, é uma ideia autoritária, arbitrária. Onde estão o “direito de ir e vir” e o “direito de livre escolha”? Em matéria anterior já comentei este assunto – esticá-lo agora seria o mesmo que chover no molhado.

Ninguém pede com tanta veemência os comprovantes de gastos das campanhas eleitorais. Como se sabe, milhões de reais são “investidos” em campanhas vitoriosas e outros tantos milhões em campanhas fracassadas. Também não se cobra com tanto ímpeto os comprovantes das “saídas” de dinheiro público dos cofres dos Municípios, Estados e da União. Saber como entra, todo mundo sabe, inclusive quem vota, quem paga impostos. O povo pobre clama por melhores condições de vida e nem de longe vê os seus direitos reconhecidos, quanto mais atendidos.

Fazer parte de um mundo capitalista, por vezes impiedoso, selvagem e sequioso de dominação tem deixado cada vez mais oprimidos os necessitados. Combater a fome no Brasil virou obsessão. Os números são polêmicos, contudo, as estatísticas do governo apontam para uma realidade estarrecedora: cerca de 30% da população brasileira, 48.6 milhões de pessoas, vivem abaixo da linha da pobreza, praticamente 10 milhões de famílias. Posto isso, o caso não é para brincadeiras ou amadores. Os números em si parecem oficiosos, espetaculares e sensacionalistas. Entretanto, com os pés no chão, temos consciência que o número correto em nada muda o lado conceitual do problema. Por conceito, esperamos que o governo saiba distinguir um pobre de um miserável, um miserável de um desgraçado, um desgraçado de um cidadão sem esperança, independente da “classe de sobrevivência”, na qual serão colocados para efeito de fugaz estatística, que, aliás, dá conta de outro número: 1/3 da população brasileira é formada de miseráveis, portanto, 33%, não mais 27%. Isto não é conceito, é real.

Com certeza, o governo convocará a sociedade civil para se incorporar à causa do programa “Fome Zero”, porque sabe o tamanho da responsabilidade que tem nas mãos e, sobretudo, porque sozinho é incapaz de dar um passo – só é bom no discurso. Ele, o governo, compreende que não há escolha a fazer, senão mobilizar todos os setores da sociedade para a luta contra a fome. A formação desses mutirões depende de inteligência, de orientação técnica e de logística – neste particular, os membros do governo já demonstraram que não têm essas qualificações. O que fazer com as doações em dinheiro? Como dispor, transportar e distribuir os alimentos doados? O Brasil não é uma simples micro região, é um país com fronteiras continentais. Esta variável foi posta de lado no planejamento. Que planejamento? Eu só vivo cometendo gafes.

Não se tolera mais a existência da fome no Brasil, considerado um país grande produtor de alimentos com safras recordes de grãos. Por quanto tempo mais o grito dos excluídos não causa consternação, não temos ideia. O Brasil ainda apresenta diferenças sócio-econômicas do mesmo porte das suas injustiças. O lavrador está para o dono da terra assim como o pedreiro está para o dono da obra. O lavrador planta, mas não come o suficiente. O pedreiro constrói mansões e mora num casebre. Igualmente, não se admite especulação comercial com a produção de alimentos. São inúmeras as safras que apodrecem nos silos e nos armazéns, aguardando melhores preços de mercado – que se mantém livre para “alimentar a angústia”. Enquanto isso, os pobres deixam de comer e os ricos deixam de ganhar mais. Todos perdem e o ciclo vicioso, realimentado pela visão demoníaca do lucro, recomeçará no próximo ano, antes da própria safra. A ganância financeira também gera fome. A sonegação de alimentos, idem. Quando os homens descobrirem que dinheiro não se come, talvez um lampejo de humanidade renasça nos seus corações. O Brasil precisa de mapeamento das suas incompetências – deixemos a burrice no estábulo.

Esperamos que a bursite da qual foi acometido o ombro direito de Lula – que parece se agravar a cada abraço que dá num novo miserável – não o impeça de assinar projetos de governo que realmente tragam benefícios para a população sofrida e não excluam os ricos, porque deles a produtividade e o desenvolvimento dependem, conforme preceitua o seu modelo de governabilidade, pelo menos na fala enrolada. Resta saber quando Lula vai sentar na cadeira presidencial para começar a governar o país, esta empresa chamada Brasil, de fato. Que tal iniciar o expediente respondendo a este questionamento: Quem está desenvolvendo a campanha publicitária do Programa “Fome Zero” – O Brasil que come, ajudando o Brasil que tem fome? Será que o publicitário baiano Duda Mendonça está por trás disso? Quanto está comendo, perdão, levando?

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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