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Fatos em Foco, Polícia e Segurança Pública

O Inferno é aqui

O Inferno é aqui

Tenho me desligado um pouco dos noticiários que trazem certa carga negativa para não me deixar sobremaneira influenciar por eles a ponto de ficar deprimido pelo resto do dia; isso não me faria bem, logo agora que o meu cardiologista prescreveu cuidados especiais. Mas, notícias ruins costumam pipocar na mídia, independente do horário, da audiência ou da intensidade do drama, do acontecimento de intensa emoção, ou série de episódios comoventes, das repetidas catástrofes. O importante é se preparar para isso. Semana passada, mais precisamente numa quinta-feira, dia 28 de junho de 2012, pouco antes do horário do almoço, voltei a me conectar à Internet com a proposta de concluir uma pesquisa sobre Direito Romano e estava lá a manchete para quem quisesse lê-la, sem nenhuma reserva e extremamente convidativa para o acesso ao seu conteúdo.

Onda de ataques contra ônibus e policiais continua em SP

“São Paulo – A onda de ataques contra ônibus públicos e policiais militares em São Paulo, que foi iniciada há duas semanas, continua preocupando os moradores e autoridades do estado, já que mais um atentado foi registrado na noite desta quinta-feira (28), informaram hoje fontes policiais. Segundo a polícia militar, um ônibus que circulava pelo bairro do Capão Redondo, na zona sul da cidade, foi interceptado por um grupo de indivíduos encapuzados. Os criminosos, que ainda não foram identificados, obrigaram o motorista e os 40 passageiros a descerem e depois incendiaram o veículo. Este foi o oitavo ônibus queimado nesta semana e o décimo segundo desde o dia 13 de junho, quando a onda de violência foi iniciada. Neste mesmo período, nove policiais militares foram assassinados na capital paulista, todos eles quando estavam fora de serviço. Na mesma noite de quinta, segundo a polícia militar, um agente que não estava uniformizado foi alvo de disparos efetuados por dois homens que passavam em uma moto próximo ao autódromo de Interlagos. Os recentes ataques mobilizaram o Comando da Polícia Militar, que dispôs 5 mil agentes para garantir a segurança dos usuários do transporte público. Muitos deles vão operar à paisana dentro dos próprios ônibus. Estes fatos lembram a onda de ataques de maio de 2006, quando uma organização criminosa organizada no interior das prisões iniciou uma série de atentados em represália à transferência de seus principais líderes para presídios situados fora de São Paulo. Apesar de a semelhança dos ataques, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo descarta que os atentados estejam relacionados. Após as investigações preliminares, as autoridades apontaram que os atuais ataques são fatos isolados e praticados em resposta à ação policial que está sendo realizada em alguns bairros da periferia da cidade”.

Levei seis dias para degustar e falar sobre o assunto, nesse ínterim, recorri ao meu arquivo de matérias jornalísticas, salvo em backup, e encontrei um artigo por mim escrito em maio de 2006 – seis anos faz –, de título idêntico, cujo texto reproduzo abaixo. De tempos em tempos a violência urbana reedita tristes e lamentáveis fatos que outrora chocaram a opinião pública e produziram vítimas numa sociedade abandonada, esquecida, indefesa, carente de proteção, de segurança pública e de esperança. As autoridades passam, mas a população fica, à mercê de bandidos que se perpetuam protegidos pela sombra da omissão e do descaso. Os órgãos de repressão e as Leis que deveriam por um fim a este cenário de trevas, simplesmente servem de achincalhe por parte dos bandos sediciosos, das súcias mantidas e estimuladas pelos maus exemplos vindos de cima. Na violência nada muda, tudo se agrava, as ações truculentas se refinam a cada temporada – impotentes assistimos. Verdade é que, coincidentemente, os dois eventos aconteceram em ano eleitoral, ou seja, em 2006 e agora em 2012. Uma ordem, vinda não se sabe donde, pede para “Tocar o terror”.

O Inferno é aqui

Terrorismo. Caos urbano. Violência. Mortes. São Paulo viveu tudo isso neste final de semana, acontecimentos dramáticos, ondas de ataques que todos os paulistanos gostariam de apagar da memória, e que denegriram mais ainda a imagem do Brasil no cenário internacional. Uma sequencia de atentados, comandados diretamente de dentro dos presídios pelos chefes do crime organizado, deixou um saldo de cerca de 450 mortos no Estado de São Paulo, dos quais 40 eram policiais; 68 rebeliões nos presídios e FEBEM, das quais 45 estão em andamento; cerca de 200 reféns ainda continuam sob a mira dos amotinados em várias penitenciárias em todo o Estado; 90 ônibus foram incendiados; pelo menos 150 ataques generalizados a viaturas e bases policiais, a delegacias, a prédios públicos, metrôs, a 10 agências bancárias na Grande São Paulo, a bases operacionais da Cia de Tráfego; escolas e comércio fechados; enfim, gente correndo sem rumo por todos os lados.

Desde a noite desta última sexta-feira, São Paulo vem experimentando um “Carandiru às avessas”. Policiais civis e militares foram covardemente assassinados, num verdadeiro rito de execução sumária, no qual também foram vitimados um soldado do Corpo de Bombeiros, guardas metropolitanos, guardas penitenciários e uma civil. O movimento carcerário ganhou adeptos em Mato Grosso do Sul, na Bahia e no Paraná – por enquanto. Não é surpresa, o crime organizado reage, na velocidade da luz, quando se sente ameaçado de alguma forma, sobretudo quando o Estado “tenta” enfraquecer a sua espinha dorsal, separando e transferindo os seus líderes.

Mas, de quem é a culpa? É do governo federal, que ainda não acredita na desagregação da sociedade; que governa para os inimigos; que só tem praticado políticas públicas demagógicas e eleitoreiras; que não prioriza a questão da Segurança Pública? É dos governos estaduais, que não cobram providências; que transferem as suas responsabilidades diretas; que vivem se omitindo o tempo todo? A culpa é dos políticos, que com seus maus exemplos, estão servindo de estímulo para o aumento vertiginoso da criminalidade em todo o país; que têm dado as costas e fechado os olhos para a sociedade civil eleitora, e numa atitude de bazófia têm dito com todas as letras “Dane-se, o problema não é nosso”? A culpa será que é da Justiça, porque não quer tirar a venda que a qualifica como cega; ou porque é um sistema falido e arcaico; que cultua a impunidade; porque é benevolente com o crime e, sobretudo, com quem o pratica se colarinho branco tiver? A culpa é das Polícias, pela sua comprovada impotência; pelo seu absoluto despreparo e inoperância; porque imagina a tomada de ações repressivas depois das portas arrombadas; porque não têm poder de resposta à altura, vez que a sua enorme “banda podre” não inspira respeito e está corrompida e totalmente comprometida com a bandidagem que paga o segundo contracheque? A culpa é dos Movimentos de Direitos Humanos, que só se manifestam a favor dos presos, em detrimento dos “Humanos Direitos” das suas vítimas?

Todos são potencialmente culpados – todo mundo tem uma parcela de responsabilidade por ações ou omissões repreensíveis ou criminosas. O Estado Democrático de Direito está de joelhos. O direito de ir e vir e a sensação de liberdade inexistem em nosso país – talvez porque diariamente adubamos a terra da impunidade; regamos o jardim da violência e não extirpamos o capim que a faz germinar. O crime organizado, de pé, prova, mais uma vez, que tem poder de força, de articulação, e mostra o quão não se intimida com nada.

A violência urbana tem deixado, infalivelmente, um rastro de sangue por onde passa – líquido espesso vermelho para marcar as digitais das autoridades responsáveis pela grande crise na Segurança Pública e pela perda de controle. Lavar as mãos, por lavar, é um ato que só colocará mais lágrimas nos olhos das vítimas vivas. Vive-se hoje um estado de declarada guerra urbana, um clima de tensão máxima – situações devidamente incorporadas ao cotidiano dos brasileiros. Frieza, covardia e crueldade são estigmas das facções criminosas, e não se sabe a hora certa, onde e como serão os novos ataques – o certo é que eles acontecerão algum dia, sem aviso prévio; o temido “elemento surpresa” entra como pano de fundo no dito palco de pânico. A situação tende a piorar no curto prazo, infelizmente. Uma verdade à vista: a inteligência dos órgãos policiais não tem funcionado, nem na prevenção quanto na repressão das ações criminosas, fato negado nas pregações dos profetas em Segurança Pública. As políticas que abominam a “tolerância zero” para bandidos, são as mesmas que fazem do Brasil uma “terra sem leis”, onde tudo, absolutamente tudo, é permissível. A imposição da autoridade fica fragilizada pelas circunstâncias. A metodologia de transformação nos foi usurpada pelo poder estabelecido.

São Paulo chora os seus mortos. São Paulo sofre com o desencadeamento de ações violentas por parte de facínoras que não dão a mínima para a dor e o padecimento das suas vítimas, a maioria anônima – alvos fáceis e ampliados. São Paulo protesta, grita por socorro; o Brasil clama por justiça; o toque de recolher ecoa pelas cidades; a escuridão “ilumina os nossos sentidos”; o pavor nos torna mudos; não sabemos quem somos; não temos valor relativo; não somos nada; o silêncio nos revela. Quem, ou o quê, nos protegerá nessas horas, se até Deus, na terra dos homens, está de mãos para o alto? Consolo? Acho difícil que haja algum. Agora, se não bastasse, o governo federal, com a sua hipócrita campanha de desarmamento, tirou as armas de fogo das mãos dos cidadãos de bem e permite que os criminosos ampliem os seus arsenais sofisticados. A “Lei de Talião” passa a ser crime quando praticada pelos cidadãos comuns – a regra do “Olho por olho e dente por dente” só vale para os bandidos. A descrença é total. Assim como eu, milhares de brasileiros estão se perguntando por quê? Outros milhares estão sentindo um gosto terrível de fel, sobretudo no acompanhamento dos episódios em São Paulo. À população – indefesa, indignada, perplexa, comovida, estarrecida, com os nervos à flor da pele, em completo estado de choque, refém do desespero –, resta duas alternativas, se sentir encurralada dentro do seu próprio habitat, ou permanecer estática bem no meio do fogo cruzado, rezando para não ser atingida por uma bala perdida.

A sociedade organizada não acredita mais em boas intenções dos seus governantes, nos efeitos de ações conjuntas para combater o crime organizado e as ondas de violência, porque as causas são sempre desqualificadas. O tráfico de drogas sustenta o poder paralelo; faz do sistema penitenciário brasileiro o seu “Quartel General” porque lá tem proteção 24 horas; implantou nas cadeias um modelo de comunicação de dar inveja às empresas de telefonia celular. Pela inércia e comprovada falta de segurança pública, a máquina estatal está podre nas suas bases, por isso, as marcas da violência dificilmente apagar-se-ão. A atual geração sente-se perdida pelo descaso e abandono gerais, órfã das instituições que deveriam ampará-la. Provavelmente, os culpados pelos atos criminosos continuarão se beneficiando da gama de recursos concedidos legalmente pelas Leis brasileiras – mas nada que algumas balas perdidas e disparadas no tempo certo e contra os criminosos certos não possam resolver boa parte do problema. Bandido bom é bandido morto, não importando de que lado ele esteja. Não há outra saída! Maio/2006.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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