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Política

Polítitica – 31ª Crônica

Cometido por mim, porque disse que não iria mais escrever sobre política. Cometido pelo Lula – mas não o primeiro pecado –, quando disse que “Quem precisa do governo é o povo pobre e não o povo rico”. Este brado retumbante teve como local o coreto montado na praça da cidade de Itinga, no vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, “escolhida a dedo”, para a passagem da Caravana da Fome. Na ocasião em que falei, escrevi e assinei embaixo sobre o fato deste governo que mal começou estar nos oferecendo um banquete de assuntos plagiados, é uma situação que se comprova a cada noite de insônia, ou dia de fome. Todavia, não precisava ter enchido dois pratos de uma só vez. No cardápio do dia, temos “O Brado Retumbante à Língua Enrolada” e “A Travessia da Pobreza ao Molho de Lágrimas de Crocodilo”. O que comer primeiro? Como só tenho uma boca e não trabalho com as duas mãos ao mesmo tempo (só quando faço amor nos degraus da escada da minha casa), vou começar a devorar o primo prato: “O Brado Retumbante à Língua Enrolada”.

“Quem precisa do governo é o povo pobre e não o povo rico”. Pra princípio de conversa, o governo não tem o direito de ser discricionário. Todos os brasileiros, indistintamente, precisam do governo de alguma forma, numa maior ou menor escala de dependência – sejam pobres e/ou ricos; sejam ricos e/ou pobres. O que se espera, deste governo, é responsabilidade e coerência nas atitudes, principalmente na colocação das palavras. Para resolver o problema dos pobres, achar que negligenciar os ricos é a única saída, enganam-se aqueles que ainda não saíram dos palanques. Chega de palanque, porque campanha para a reeleição só em 2006. O que falta neste país é justiça social e melhor equidade nas oportunidades oferecidas. Os ricos, assim chamados os detentores do capital (se especulativo não cabe aqui o julgamento precipitado), ou dos bens de capital, estão também inseridos no contexto, ou seja, no conjunto da sociedade organizada e são, em grande parte, responsáveis pelo desenvolvimento da nação; geram empregos; promovem renda. O papel do governo é, justamente, fazer com que os ricos paguem devidamente os seus tributos; fazer com que não se tornem mercadores da desgraça alheia e, sobretudo, fazer com que respeitem as classes trabalhadoras como agentes do processo produtivo e não simples objetos dele. Só assim a dor e o choro dos necessitados serão minimizados.

O primo prato deixou um enorme “vazio no estômago”, portanto, vamos pedir ao garçom, perdão, ao vice, José Alencar, que traga o prato principal: “A Travessia da Pobreza ao Molho de Lágrimas de Crocodilo”. Esse vice-garçom, José Alencar, às vezes fala como empresário, achando-se dono do restaurante, e, fugindo à boa regra mineira, com certeza criticará a política econômica do governo por estar atrapalhando o seu negócio, sobretudo na questão da taxação dos juros. Talvez ele sugira aos seus clientes uma sobremesa especial: “Críticas ao creme recessivo”.

Quem quase ficou de fora deste banquete foi Dom Mauro Morelli, Bispo de Caxias, no Rio de Janeiro, que criticou o Programa “Fome Zero” ao dizer que “O problema não é ter fome. É não ter comida, é não ter cidadania”. A intenção de Dom Mauro Morelli foi mal ajuizada. Diga-se de passagem, más interpretações costumam rechear as tortas assadas no forno Brasil. Por falar em tortas, que se cuidem determinadas caras famosas no mundo da política, porque algumas delas já estão voando. Longe de querer tirar conclusões apressadas, comparo a Caravana da Fome àquelas (muitas) pessoas que se aglomeram, perplexas e embasbacadas, à beira da estrada para assistirem a um pavoroso acidente, totalmente impotentes quanto aos seus préstimos, mas que não arredam pé do local, não vão embora enquanto não contemplarem satisfatoriamente as vítimas despedaçadas. Só Freud pode explicar este fato. Simples ato de masoquismo; talvez. Pessoas há que têm prazer com o próprio sofrimento – quem dirá com o dos outros.

Constatar a fome de perto e presenciar um acidente com vítimas dilaceradas são situações que causam dor e sofrimento. Porém, outras pessoas demonstram um comportamento sádico, sentem prazer com o sofrimento alheio – querem apenas ver com os seus próprios olhos; bem abertos. Olhos que fotografam novas cenas de desolação, entre tantas, como os mortos pelas enchentes e quedas de barrancos; como os mortos por balas perdidas; como os prisioneiros inocentes; como as vítimas das drogas; como os filhos sem pais; como os excluídos do concreto; como os “alagados sem sal”; como os vivos e os semivivos condenados a viverem com um salário mínimo, enfim, todos, sem exceção, corpos anônimos e sem rosto que jamais terão a oportunidade de amarelarem como as velhas fotografias. O novo dia de sol que se avizinha fará esquecer tudo isso – simples estória perdida no tempo. Passado, que passou; se foi. Adeus!

O deslocamento da máquina governamental às localidades eleitas no passeio, perdão, Travessia da Pobreza, gerou um custo elevado aos cofres públicos, tanto que o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, já prevendo antes, desistiu de ir a Guaribas, cidade mais pobre do país, segundo dados do IBGE. Guaribas foi, portanto, excluída do roteiro da fome, para a tristeza dos seus habitantes, certamente na maioria eleitores de Lula. Não se sabe ao certo – porque não foi revelado – quanto custou levar 99% da infra-estrutura (Ministros) do governo naquela aventura sentimental. O simples fato de mostrar a “miséria conhecida” aos Ministros de Lula não irá torná-los mais sensíveis ao problema, tampouco mais comprometidos com os seus programas de governo – o importante é salvar a própria pele e encher a própria barriga, perdão, os bolsos.

O poderoso Dr. Antônio Palocci, Médico e Ministro da Fazenda, bem que poderia ter sugerido ao chefe que usasse a montanha de dinheiro, gasta na viagem, para a compra de alimentos que poderiam ser levados aos flagelados pessoalmente pelo Secretário – ou seria Ministro, ou Secretário-Ministro, ou Ministro-Secretário – José Graziano, de a Segurança Alimentar e Combate à Fome, e também Coordenador do Programa “Fome Zero”. Bastava, além da sua pessoa, um Hércules da FAB para o transporte dos víveres e um cinegrafista da Rede Globo para documentar tal ação humanitária. Aposto dez contra um que o Duda Mendonça pediria cópia da fita para produzir um documentário político. Marketing FDP…

O mundo gosta de espetáculo. Fome existe também na periferia de Brasília, do Rio, de São Paulo, de Porto Alegre e nas demais das grandes cidades brasileiras. Nessas regiões, o IBOPE seria outro ou a resistência seria outra? Quem não está escondido afirma que o governo descartou as periferias das grandes cidades para evitar que houvesse um maior inchaço desses cinturões de pobreza, motivado pela migração de novos miseráveis, atraídos pelo Programa “Fome Zero”. Na realidade, os escondidos e os não escondidos que fazem parte do governo concordam num ponto: os miseráveis que habitam as periferias das grandes cidades não precisam das benesses do Programa “Fome Zero” porque são alimentados com outros tipos de refeições – ou vícios.

Pois bem, a Travessia da Pobreza foi concluída e todos vieram embora. A fome continuou lá, intocável, até que a burocracia estatal, com seu excesso de formalidades e papelada, resolva a questão da fome, nem que seja momentaneamente. À boca pequena, comenta-se que a Caravana da Fome foi um exercício – previsto em agenda – que “startou” as prévias da campanha para a reeleição de 2006. Segundo os que se escondem atrás das pilastras, doravante vai ser uma constante no governo de Lulalá; agora junto. Lembro-me que, dantes, comprar o eleitor com cesta básica constituía-se crime eleitoral. E agora, José? Perdão, José, porque você não tem culpa. E agora, Lula, como o Duda Mendonça pode ajudá-lo a sair dessa? Enquanto isso, os que têm fome provavelmente nunca encherão a barriga com as três refeições diárias prometidas. Brincar com a barriga do pobre dá pano pra manga. Manga, fruta, também mata a fome e, de quebra, a sede. Só resta aguardar a próxima safra.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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