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Política

Polítitica – 29ª Crônica

Neste primeiro de janeiro, o Lula ainda estava sob o efeito do porre da vitória. A ressaca, mal-estar consequente à bebedeira, não tinha data prevista para ser curada. Comentários palacianos davam conta que a cura dar-se-ia na posse dos Ministros, sob o acorde da viola de Gilberto Gil. De cultura, o Gil diz que entende – “GG” é o retrato-falado do ministério Lula. Podemos afirmar isto, porque Gil, com sua vasta experiência, pode ajudar a transformar Brasília na nova sede dos Grandes Festivais, sem contar, logicamente, com as retretas. Na música, talvez não, mas, no resto, provavelmente falte aculturação no processo.

Outra corrente de cortesãos, por detrás das pilastras, acenava que a partir da posse dos Ministros é que começariam, de fato e de direito, as dores de cabeça do primeiro Presidente do Brasil, eleito por voto direto, deste terceiro milênio. Estas dores de cabeça, segundo a “ala escondida”, seriam sucessivas, o que fariam Lula se esquecer da burrice, perdão, da bursite. Os políticos são dogmáticos quando se trata da obediência fanática aos seus próprios princípios. Advogar em causa própria será um expediente corriqueiro também neste governo da estrela – ainda não solitária. O primeiro assunto da pauta em discussão nos plenários das Câmaras e Senado, sem dúvida alguma, e sem medo de errar, será o aumento dos próprios salários, dos vencimentos complementares, das ajudas de custo, enfim, da melhoria geral, das regalias, que já não são poucas. Tais reajustes não serão inferiores ao índice previsto de 50%, sobre as bases de 31 de dezembro de 2002. Já vimos este filme antes. Nada de novo acontece sob o sol de verão, a não ser uma sombra mais gorda projetada pela barriga protuberante de algum político abastado. Água no feijão que chegou mais um… Ou melhor, aumentem o estoque de caviar.

Tudo isso na contramão do que está acontecendo atualmente com a classe trabalhadora do país. Nem falo nos aposentados. Quero saber se nessas horas esses indivíduos – colocados onde estão pelo povo – sentem um pouquinho de vergonha na cara. O voto é a procuração pública, passada pelo eleitor, que dá, ao candidato a ladrão, plenos poderes na guarda das chaves que abrem todos os cofres onde está guardado o dinheiro público, que na opinião dos políticos não tem dono. Isto precisa ser pensado e repensado, tantas vezes quantas forem necessárias. Substantivamente, o trato da coisa pública, pelos políticos brasileiros, no mínimo, é uma indecência, um achincalhe, uma ridicularização, uma humilhação, um aviltamento, uma desonestidade, enfim, uma imoralidade sem precedentes. O Programa “Fome Zero” foi, está sendo, e será usado exaustivamente como “Boi-de-piranha”.

As Reformas Política e do Judiciário passarão despercebidas e empurradas com a barriga até o final do governo, até porque quatro anos passam rapidamente e ninguém é trouxa para mexer em casa de marimbondos. A primeira delas, a Reforma Política, talvez nem saia do papel porque, também neste caso, ninguém é suficientemente louco para dar um tiro no próprio pé, ou cortar uma das mãos – dedo mindinho pode. “Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão…”. Deputados, Senadores e outras espécies conhecidas de parlamentares, uma vez envolvidos em denúncias, geralmente em escândalos de corrupção, tratam logo de renunciar antes que o tiro saia pela culatra – quando há riscos maiores –, cujas “penalidades formais” os impeçam de roubar ainda mais na continuidade do mandato. Renunciando, não ficam inelegíveis e retornam ao poder, fortalecidos, para a vingança final.  As brechas existentes nas leis regidas pelas Casas que as criaram, aprovaram ou modificaram, têm a finalidade de permitir a volta desses ladrões ao convívio do Ali Babá. A mais nova conceituação para CPI veio de um homem do povo – podem ficar tranquilos porque não foi sugestão do Lula. CPI quer dizer “Coisa Pra Idiota”. Portanto, descartar esta possibilidade é sábio. Então, conclui-se que a Reforma Política é história pra boi dormir. A segunda delas, a Reforma do Judiciário, depende da realização da Reforma Política. Política e Judiciário são corda e caçamba. Os fóruns nacionais estão sob a égide da “tropicalidade”. Bacana. Boa parte da justiça está deveras comprometida com o sistema reinante, e vice-versa, e na sua grande parte é lenta. Executivo, Legislativo e Judiciário se locupletam, no sentido de saciar-se.

A imprensa, cumprindo o seu papel investigativo e social, tem trazido aos noticiários constantes matérias sobre o envolvimento de magistrados, advogados e bacharéis em leis, com corrupção, desvios de verbas públicas, lavagem de dinheiro, crimes, enfim, com toda a sorte de patifaria. A justiça é cega; tarda, mas não falha – acredite quem quiser. Enquanto não fizer um transplante de olhos, enquanto não se tornar mais rápida e infalível, muitos estragos na ordem constitucional acontecerão, sob os olhos dos nossos governantes. Não há o que fazer. Sim, talvez haja.

Talvez estejamos no meio de uma encruzilhada. Tomara que caia do céu algum homem inspirado na filosofia iluminista e crie um novo modelo de governo, Capitanias Hereditárias versão 2003, por exemplo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva posa de liberalista, achando que é partidário do liberalismo político, ao tempo em que mostra, orgulhoso, as vestes do neoliberalismo. Nada contra. Cada qual se veste como pode. Só esperamos que saiba que esta doutrina, que defende a livre iniciativa e os direitos básicos de pensamento, também se baseia na livre iniciativa dos agentes econômicos. Esses mesmos agentes podem ser mais um motivo para uma nova embriaguez.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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