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Política

Polítitica – 28ª Crônica

Pensar estrategicamente, debruçado nos atuais problemas, e projetar o país em longo prazo, são tarefas das mais complicadas – concordam os tecnocratas palacianos. Porém, com vontade política pode-se encontrar o fio da meada, até porque ele não está tão escondido assim; são poucos os fios dobrados. Por outro lado, a brutal falta de políticas públicas comprovadamente de qualidade, reflete, e tem refletido, negativamente na sociedade brasileira, que paga a conta e sofre as consequências. Ao longo da história do Brasil, esta mesma sociedade não se preparou para interpretar os desvios políticos e tampouco auxiliar na proposição de soluções. Cada qual se acha no direito explícito de “só receber” sem se preocupar em cobrar, ou melhor, acompanhar desempenhos.

Em um Estado Democrático de Direito, por excelência, as regras do jogo são claras e conhecidas. Os critérios que norteiam a convivência, na relação “Estado-poder” e “Povo-participativo”, são respeitados e seguidos à risca. Mas, não é bem assim que a coisa funciona por aqui. Terra que, olhada de lá, também está além mar. Será que estamos além de tudo? Se pudéssemos homogeneizar pensamentos, provavelmente nos comportaríamos de forma diferente. Veja o exemplo do Programa “Fome Zero” que será implementado, custe o que custar, com prioridade, segundo a máquina governamental. É tudo o que o nosso irmão brasileiro infortunado queria. Deixe-me explicar. Não seria mais humano, e correto, remover esses nossos irmãos desventurados das áreas miseráveis onde vivem e assentá-los em terras produtivas dando-lhes o título de propriedade, além de garantir-lhes moradia e toda uma infra-estrutura necessária para a sua sobrevivência de forma digna? Levar comida para o desgraçado e deixá-lo onde está não vai resolver o problema. Aliás, comida não de forma literal, mas em moeda corrente. O governo estabeleceu a quantia de R$ 50, 00 (cinquenta reais), por família cadastrada, para a compra de alimentos e outros eticéteras priorizados pelos necessitados.

Fala-se na contrapartida da apresentação das Notas Fiscais comprobatórias das compras desses alimentos. Provavelmente, quem sugeriu tamanha aberração deveria estar sob o efeito de algum tipo de remédio com tarja preta, ministrado em dose tripla. Na realidade, exigir dos nossos irmãos miseráveis que apresentem tais Notas Fiscais é prova de profundo desconhecimento, não só de geografia, como também das circunstâncias, dos aspectos e das condições comerciais existentes naquelas terras de ninguém. As biroscas que vendem fumo de rolo, “mortandela” de cachorro atropelado, nem de longe sabem o que é Nota Fiscal, quanto mais Alvará que as licenciam para a “prática comercial ilegal”, por prática.

O Programa “Fome Zero” é um engodo – serve tão somente para seduzir; um verdadeiro chamariz. Pelo que tudo indica, o Programa começará por duas cidades do Piauí; uma delas chamada Guaribas. O Lu-La-Lá, ao vivo e a cores, assumiu o compromisso de propiciar três refeições, por dia, para cada brasileiro classificado dentro da linha da pobreza. Pois bem, numa família composta por 08 pessoas – excluindo todos os animais esquálidos –, vamos ver, realmente, o que acontecerá: 08 pessoas x 03 refeições por dia = 24 refeições x 30 dias = 720 refeições por mês. R$ 50,00 divididos por 720 refeições = R$ 0,069444, praticamente R$ 0,07 (sete centavos) por refeição. O que você compraria com sete centavos? E o resto? Como ficam as crianças que precisam de soro natural? Sobrará dinheiro pra comprar sal e açúcar? Com sete centavos não se compra nem 10 gramas de “mortandela” de cachorro atropelado, quanto mais um pãozinho seco. Vamos admitir que um dos membros da família adoecesse; qual seria a prioridade: comprar uma vela de cera de vespa para iluminar o defunto, ou comprar a terça parte de um pãozinho seco para minimizar o sofrimento do pobre coitado? De certo, o jumento esquelético que ronda a choupana continuaria lambendo os cactos, porque, desde que foi concebido, sabe que aquele seria o seu destino naquela terra de ninguém e estaria fora da cota de R$ 0,07.

Por outro lado, se o governo proporcionasse reais condições de sobrevivência àqueles nossos irmãos brasileiros, eles poderiam se transformar numa mão-de-obra extraordinariamente disponível do ponto de vista quantitativo. Quem hoje é tido como inerte, se mantém no ócio, pode se tornar produtivo. Além disso, a quem mais interessaria uma solução paliativa e a continuidade do atual status quo? Cadê a preocupação com os índios? Cadê a preocupação com os sem-terra? Cada um de nós tem a responsabilidade de evitar que aqueles que estão do outro lado embarquem numa, digamos, “aventura orgástica”. Os nossos mandatários, de primeira linha, indistintamente, estão trabalhando no varejo. Do mesmo modo, a Economia (assunto sensível junto à opinião pública) e a Exclusão Social (o Brasil é um forte concentrador de renda) são temas que recebem tratamento de armazém – não é de agora. O gato preto continua deitado no saco de farinha. Aguardem e vejam o que vai acontecer com o Imposto de Renda, com a CPMF, com o ICMS, COFINS, ISS, enfim, com a Reforma Tributária – com essa eu sei!

A destruição da cidadania também ocorre a partir de um processo lento, como a corrosão dos metais. No Brasil, votar em alguém continua ato facultativo. Obrigatória é a presença do eleitor na Seção Eleitoral. Pouca gente sabe disso. Mas, muita gente acha que o nosso povo é conformista, tem atitudes de conformar-se com tudo. Viver não é difícil; o difícil é conviver. Damos, todos os dias, graças ao Senhor, sobretudo porque fez com que não confundíssemos liberdade com baderna – basta olharmos para outros cantos do planeta para a constatação do contrário. Mesmo assim, tem gente graúda querendo colocar a mão em cumbucas, como os macacos à procura de alguma coisa.

E por falar em mão, com a mesma facilidade com que Lula coça toda hora um dedo inexistente, sentará à mesa de um restaurante francês com seus companheiros do Primeiro Mundo e pedirá uma buchada de bode. Esta sua atitude jamais denotará qualquer tipo de complexo de inferioridade, apenas humildade burra. Só esperamos que os próximos pratos degustados, por todos, não sejam preparados com o estômago e as vísceras do povo brasileiro. Enquanto o bode foge, os ricos presentes, à volta de uma suntuosa mesa, comerão comida francesa, julgando Lula “Pai dos pobres e mãe dos ricos”. Os pobres, bem de longe, arrotarão por eles – Lula não, só para manter a classe.

Augusto Avlis

Sobre augustoavlis

Augusto Avlis nasceu no Rio de Janeiro na metade do século XX. Essa capital foi antes o Distrito Federal e o Estado da Guanabara. Profissionalizou-se em Marketing Operacional e fez parte, como Executivo, de multinacionais do segmento alimentício por mais de três décadas, além de Consultor de empresas. Formado em Comunicação Social, habilitou-se em Jornalismo. Ocupou cargo público como Secretário de Comunicação. Hoje dedica-se às atividades de escritor e cronista.

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